Distopias geralmente mostram visões do futuro onde a opressão de algum tipo de meio totalitário faz com que a sociedade sofra diante de algum tipo de necessidade distorcida. O Círculo é uma distopia, mas talvez ele mesma se esqueça disso.

Um problema movido principalmente por uma aparente falta de interesse em discutir o material que tem em mãos. Talvez cego pelo grande elenco e pelo sucesso da obra nas livrarias, O Círculo se arrasta de modo desinteressante através de uma série de conceitos e ideias que se perdem diante da simples preguiça de ser algo além.

Sim, James Ponsoldt, vem de uma série interessante e simpática de dramas indies sensíveis (Smashed, O Fim da Turnê e O Maravilhoso Agora), mas esquece de tentar recriar esse clima em seu novo trabalho. Pior ainda, se deixa levar por um roteiro descontrolado que amontoa clichês e esquece de trabalhar alguns detalhes básicos de qualquer história.

Mas isso pode parecer pretensioso, ainda mais quando o texto foi escrito pelo próprio diretor em parceria com o escrito do livro que serviu de inspiração para o filme, Dave Eggers, entretanto a arrogância vem da própria trama que acha suficiente apenas apresentar uma história sem que ela tenha nem ao menos uma reviravolta ou vilão que possam mostrar o quanto essa “realidade digital” pode ser perigosa.

No filme, Emma Watson (repetitiva em suas caras e bocas) é Mae, uma jovem simplesmente ferrada de todos modos que os clichês que Hollywood conseguem imprimir. Começa sozinha em um caiaque no meio de lugar nenhum, trabalha em um cubículo sem personalidade enchendo a paciência de clientes pelo telefone, seu pai sofre de esclerose múltipla (último papel de Bill Paxton antes de falecer), não tem um namorado, só um carro muito velho, um amigo dos tempos de garotinha (Ellar Contrane que de garotinho simpático, se tornou… esquisito) e uma amiga muito melhor sucedida que ela (Karen Gillan).

Mas é essa amiga que arruma para Mae um emprego no Círculo, uma espécie de mistura de Google com Apple, cheia de sites, aplicativos, bugigangas e mais um monte de modernidades, tudo sendo criado dentro de um quartel general em forma de … (tédio)… círculo… em que todos funcionários parecem entrar e nunca mais sair de lá, com seus celulares, charmes e redes sociais.

É claro que em algum momento desse caminho isso se torna um perigo para Mae, ainda mais com a presença (que poderia ser vilanesca) “steve jobiana” de Tom Hanks no papel do CEO da empresa, Bailey. E mesmo que hanks (como sempre) funcione e torne o personagem minimamente interessante, O Círculo aponta para se tornar um suspense tecno hipster com direito até a presença do cantor Beck, mas nunca segue em frente com essa ideia. Como se a trama ficasse congelada por algum “bug” ou “tela azul”.

O Círculo Crítica

De uma hora para outra surge Jon Boyega no papel de Ty, um dos criadores do “Facebook” do Cícrulo, e sua presença até parece trazer uma paranoia que irá tornar tudo interessante, mas logo isso passa e o que fica é a decepção. Boyega (completamente desperdiçado) depois volta à trama com mais um pouco de paranoia, mas nem assim o filme percebe que poderia usar ele como isca para o espectador que nesse momento está brigando mais é para não dormir.

Mae acaba se tornando uma espécie de peão na mão de todos, seja para “ver algo durante uma festa”, ou como garota propaganda de Bailey. Diante disso, se torna uma tecno fascista falando sobre uma tal de “real democracia” que não quer dizer nada. Isso enquanto fazem um escarcéu enorme sobre o voto obrigatório como se fosse algo inexistente, ainda que algumas dezenas de países o façam. É lógico que nenhum deles do modo idiota que Mae, Bailey e sua trupe instauram, mas isso não vem ao caso, já que de nada serve para a trama também.

Mas a trama poderia ser também sobre a existência dessa câmera que pode estar em qualquer lugar e criar um Big Brother que colocaria “1984” no chinelo, mas isso também não se torna um perigo para ninguém (OK, um personagem lá para o final é “atingido” por isso, mas é tão anticlimático que é melhor nem lembrar).

Dois arcos desperdiçados que poderiam discutir entre tantos outros detalhes, o quanto existe uma geração refém dessa “vida virtual”, assim como essa onipresença de olhos mecânicos que podem controlar o mundo, mas nada chega a ser realmente discutido. Tudo é previsível e sem emoção. Como se prometesse demais e fizesse absolutamente nada.

Em certo momento, Mae afirma que seu maior medo é “potencial não concretizado”, pois é, O Circulo tinha tudo para ser aquele suspense tecno-hipster de uns parágrafos atrás, mas acaba não percebendo que não tem um vilão, nem uma reviravolta, muito menos emoção, suspense ou sequer trama interessante além de seu ponto inicial.

E quando uma distopia deveria tentar entender o presente através do futuro, a conclusão que chegamos é que devemos viver mesmo em dias bem chatos e sem significado. Pelo menos sem material suficiente para que nossos futuros distópicos sejam tão interessantes quanto os das gerações passadas eram.


“The Circle” (EUA, 2017), escrito por James Ponsoldt e Dave Eggers, à partir de um livro de Dave Eggers, dirigido por James Ponsoldt, com Emma Watson, Tom Hanks, Karen Gillan, John Boyega, Bil Paxton, Ella Coltrane e Glenne Headly.


Trailer – O Círculo

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