De repente, não mais que de repente, voltou à tona todo um zeitgeist sobre a realidade do assédio e crimes sexuais no meio artístico americano.

Desde os primórdios, muito da mística de Hollywood girou em torno de sexo e poder; a ponta de lança do star system era apoiada nesse binômio, onde a beleza e o dinheiro gravitavam um em torno do outro para gerar milhões e milhões de dólares, sucesso e fama para os envolvidos.

O que sempre ficou escondido, abafado e enterrado bem fundo era o lado B dessa situação, as consequências do comportamento predatório dos donos dos estúdios e dos atores mais prestigiados; porque convenhamos, para ficar do lado e conviver mais intimamente com predadores sexuais e pedófilos, tem que existir uma afinidade, em alguma escala.

De vez em quando, como freio e contrapeso, estourava um escândalo enorme, a imprensa caía matando, as pessoas se revoltavam e os verdadeiros predadores e criminosos usavam o esgotamento natural da história para voltarem, após a atenção da massa se dispersar, a praticarem suas ações maldosas. Os exemplos são muitos, Charlie Chaplin, Jerry Lee Lewis, Jerry Lewis, Woody Allen, Roman Polanski, Marlon Brando, etc, etc e etc.

E sabem o que é mais incrível disso tudo? São raríssimas as ocasiões onde, depois do escândalo e da carnificina midiática e moralista, os assediadores sofreram efetivamente as consequências e perderam seu dinheiro, influência e carreiras. Woody Allen continua firme e forte; Marlon Brando virou um rinoceronte e perdeu toda sua coerência menta, mas nunca foi condenado de nada, morrendo com o prestígio praticamente intacto; Polanski chegou a ganhar um Oscar, embora não possa colocar o pé nos EUA; Charlie Chaplin já tinha passado do seu apogeu quando estouraram os escândalos de sua conduta pedófila e pervertida mas continua incensado e admirado até hoje, tendo suas ações desviantes virado nota de rodapé.

Mudança de Paradigma

Dessa forma, era possível identificar padrões.

Os predadores eram, quase sempre, produtores, donos de estúdio, diretores e atores prestigiados, ou seja, aqueles que decidiam quem podia entrar no clubinho. E, invariavelmente, homens.

Outro padrão, as maiores vítimas desse procedimento eram as mulheres.

Na contemporaneidade, ampliou-se o espectro das vítimas para incluir os homossexuais; antes de Stonewall e outras ações, a homossexualidade, sempre presente, era camuflada ao extremo e tornava ainda mais vulneráveis os gays, lésbicas e transexuais. Com a evolução social, os homossexuais puderam se assumir com mais tranquilidade e sem tanto medo, embora ainda sejam massacrados e assassinados em números alarmantes por todo o mundo.

No meio artístico, o verniz de tolerância maior a essa minoria deixava seus membros mais seguros de poderem exercer sua arte e sua opção com um pouco mais de liberdade; porém isso é mais marketing do que qualquer outra coisa, podemos dizer com segurança que a situação melhorou mesmo somente no novo milênio, desde 2001.

Voltando à vaca fria, o assédio sexual e as outras variantes de crimes sexuais em Hollywood.

Podemos afirmar, portanto, que o avanço sexual e criminoso no meio artístico evoluiu para somente incluir, com mais veemência, entre suas vítimas preferenciais, além das mulheres, sempre maltratadas e vilipendiadas, os homossexuais masculinos.

Cinema Direito Kevin Spacey

As lésbicas, simplesmente por serem mulheres, já eram vítimas antes de toda a abertura gay. Os transexuais, infelizmente, são praticamente ausentes da cena. Os que eu consigo me lembrar de terem tido alguma evidência são Divine, muso de John Waters, reduzido a uma mera caricatura escatológica e Joely Davidson, de The Crying Game e Stargate e só.

O Bueiro Escancarado

Este ano da graça de 2017 trouxe o furacão Weinstein.

Harvey Weinstein foi o precursor do renascimento do cinema independente, no começo da década de 90, que se tornaria o padrão da indústria. A Miramax, posteriormente The Weinstein Company, sem exagero algum, foi uma força renovadora e que estabeleceu toda a nata do cinema americano no século XXI, de praticamente todos os gêneros e lançou dezenas de novos diretores, produtores, atores e atrizes; amealhou para seus filmes 300 indicações ao Oscar e abocanhou 81 estatuetas douradas, inaugurando também um estilo de campanha para as premiações muito mais agressiva.

Em outubro, estourou um escândalo que o acusa de assediar dezenas de atrizes e funcionárias, atores como Terry Crews – sim, o pai do Chris foi apalpado pelo fofo e na frente da esposa – e estuprar pelo menos cinco ao longo de 35 anos pelo menos.

Até aí, nada diferente de outras ocasiões em que alguns dos malfeitos dos porões de Hollywood foram trazidos para a luz, inclusive com toda a gritaria e montes de artigos de revistas, jornais e reportagens de TV sobre o assunto, rendendo histeria e muitas vendas e audiência para os veículos de imprensa.

Só que, hoje, existe uma enorme diferença.

Ela se chama internet.

A internet não deixou morrer e definhar a putaria, não permitiu que houvesse esvaziamento.
O resultado foi a expulsão de Weinstein da Academia, sua demissão do próprio estúdio e dezenas de investigações criminais em andamento; não é demais afirmar até que o “ex-tubarão” vá parar na prisão.

Efeito Borboleta

Potencializado pela internet, o miasma fétido do bueiro do assédio e crimes sexuais continuou a se espalhar, tirando da sombra casos semelhantes de muita gente, não por coincidência, todos homens, como o “arroz-de-festa-da-merda” Charlie Sheen, Steven Seagal (sim, aquele mesmo todo zen e mestre de artes marciais), Robert Knepper (de Prison Break), Lars Von Trier, Dustin Hoffman, os irmãos Affleck (Ben e Casey) e a lista vai, vai e vai.

O mais emblemático e que está dando a maior repercussão é o oscarizado e incensado Kevin Spacey.

A “bomba S” explodiu quando boatos começaram a correr sobre a gravação da sexta temporada da multipremiada série de streaming House of Cards, sucesso mundial protagonizada e produzida pelo ator de tantos papéis inesquecíveis em Seven, Os Suspeitos e Beleza Americana (que fica mais sinistro ainda) entre muitos outros.

Cinema Direito Harvey Weinstein

Os boatos eram de desconforto extremo com o ator, que estaria se valendo de sua condição de produtor para solicitar favores desconfortáveis da equipe e de atores (e até alguns momentos de “pitis”). Mais alguns dias se passaram e o ator Anthony Rapp, que foi estrela juvenil e fez muito sucesso na Broadway em musicais como Rent deu uma entrevista onde relatava ter sido assediado por Spacey quando tinha 14 anos.

Rapp, homossexual assumido há alguns anos e ativista, resolveu jogar no ventilador e Spacey perdeu o rebolado. Admitiu que “poderia ter cometido” o relatado por Rapp e pediu desculpas alegando estar alcoolizado na ocasião e que não se lembrava direito. A admissão já seria algo gravíssimo e, na cereja do bolo, Spacey admitiu também ser homossexual e que estava “vivendo melhor como homem gay”.

Quanto Mais Mexe, Mais Fede

Foi a conta.

A internet explodiu e surgiram relatos e denúncias aos borbotões contra o ator. Do período em que morou na Inglaterra e foi líder da companhia teatral Old Vic. de 2004 a 2015, atores e funcionários denunciaram que era comum a prática de assédio sexual.

A admissão junto com a saída do armário pegou muito mal.

Um homem relatou ter sido assediado por Spacey quando tinha 16 anos; outros que trabalharam com ele também se encorajaram e soltaram o verbo, como o filho de Richard Dreyfus, o filho de uma jornalista de Boston e oito funcionários da produtora que trabalhavam na série da Netflix.

Com toda essa confusão, a Netflix cancelou a gravação da temporada e estuda o que fazer, antes tinha anunciado que a sexta seria a última, além de engavetar um longa com o ator que já estava pronto.

Falando em “estar pronto” estava “na lata” a participação de Spacey no novo filme de Ridley Scott, Todo o Dinheiro do Mundo, inclusive era uma aposta da produção fazer campanha por um Oscar de ator coadjuvante para Spacey. Pois bem, em uma decisão polêmica, o diretor resolveu refilmar todas as cenas de Spacey, substituindo-o por Christopher Plummer para ainda lançar a película na data prevista, 22 de dezembro deste ano.

Parece certo afirmar que será difícil vermos Kevin Spacey outra vez, em qualquer mídia.

Existe Diferença Entre os Casos de Spacey e Weinstein?

Sim, leitores, existe uma clara diferença entre os dois casos de predadores sexuais que tiveram mais repercussão.
Os crimes sexuais são alguns dos mais cruéis e que geram as piores consequências, principalmente para as vítimas.
Não são raros os casos de vítimas de estupro e assédio cometerem suicídio, se viciarem em drogas lícitas e ilícitas e jamais se recuperarem completamente das violências que sofreram. Também é comum a ocorrência do chamado “victim blaming”, em português, mal traduzindo, “responsabilização da vítima”.

Um aspecto extremamente mórbido e desumano do crime sexual, a responsabilização da vítima é uma característica de sociedades com alto grau de hipocrisia e patriarcais, como é o caso dos EUA e, sim, aqui do Brasil também, que a cada dia dá mais provas de não ser a terra “do homem cordial” e nem uma “democracia racial”, para ficar nos clichês mais comezinhos.

Só para lembrar alguns dos casos mais rumorosos, os estupros coletivos que ocorreram no Piauí e no Rio de Janeiro tiveram um altíssimo grau de responsabilização da vítima, com autoridades inclusive dando declarações sobre a vida pregressa das vítimas e da vestimenta que usavam, como se isso fosse justificativa para as barbáries sofridas.

A responsabilização da vítima ocorreu com muita força no caso Weinstein, principalmente porque foi contra mulheres, a imensa maioria dos denunciantes. Foi falado de tudo, inclusive que as mulheres se submeteram por que queriam, porque tinham interesse, que todo mundo sabe do “teste do sofá” e o singelo e fofo “atriz é tudo puta mesmo”.

Cinema Direito Spacey

Já no tocante a Spacey, principalmente por causa da saída do armário bizarra – numa clara tentativa de sensibilizar a comunidade menos conservadora da Califórnia e angariar simpatia, um tiro canalha que saiu pela culatra – a relativização que se tenta fazer é a de colocar a pecha de “situação de gueto”, onde uma “bicha filha da puta” quis avançar o sinal com “viadinhos”, retirando da sociedade “normal” a ocorrência dos fatos, tentado caracterizar os crimes como mera “coisa de viado” e esquecer o assunto. As pessoas tem dificuldade em reconhecer estupro como crime, que dirá estupro de homens e ainda por cima gays.

Aí temos a diferença entre os dois casos.

Em um, se busca afastar a responsabilidade do criminoso e coloca-la nas vítimas, como se fosse natural permitir atos sexuais e libidinosos não consensuais – lembremos que Weinstein é acusado de cinco estupros, entre outras violências – em troca de favores e dinheiro. Isto é, se quer colocar o rótulo nas vítimas de “mulher é tudo puta” e enterrar a repercussão do caso.

Noutro, tenta desqualificar o agressor e inseri-lo em um contexto de bestialismo e anormalidade, querendo que o agressor e suas vítimas sejam enquadrados em gueto e considerados como fora da sociedade normal e, portanto, indignos de que a sociedade perca seu precioso tempo e recursos para separar “briguinha de viado promíscuo”.

E o pior de tudo: a principal razão para todos esses movimentos de desqualificação das vítimas, relativização dos crimes e apagamento dos agressores é uma só: dinheiro.

Jamais se enganem, leitores, Hollywood e os Estados Unidos não estão ouvindo as vítimas e investigando tudo por solidariedade e dignidade humanas, para promover justiça e impedir novos crimes. Estão preocupadíssimos, isso sim, é em perder dinheiro, em como esses escândalos e pessoas desprezíveis afetarão nossa capacidade de continuar a consumir seus produtos e acreditar nas instituições.

Em suma, marketing e grana. Nada mais.

Outros artigos interessantes:

Sobre o autor

Nerd Raiz, Cinéfilo Pop, Eterno Apaixonado, Advogado militante há 15 anos. E não, a DC não sabe fazer filme!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.