Há um recurso utilizado tão frequentemente por escritores em diversas mídias que há até um nome para a convenção: fridging, o ato de matar cruelmente um personagem próximo ao protagonista com o único propósito de motivá-lo a agir de determinada forma e, assim, movimentar a trama. O público e a própria obra não se importam com as vítimas da convenção, apenas com seus efeitos sobre o personagem principal. Como você pode adivinhar, o fridging atinge principalmente as mulheres, especialmente aquelas que têm alguma relação romântica com o protagonista. E é assim que O Assassino: O Primeiro Alvo começa.

Os jovens Mitch Rapp (Dylan O’Brien) e Katrina (Charlotte Vega) estão de férias no litoral espanhol, onde a felicidade do casal aumenta ainda mais quando ele a pede em casamento — e Katrina, é claro, aceita. Mitch filma toda a interação, recebe aplausos dos demais veranistas e, então, deixa a amada na água enquanto vai buscar drinques para os dois. É aí que um grupo de terroristas islâmicos começa a atirar para todos os lados. A câmera, que havia deixado Katrina de lado depois do “sim”, só volta a dar atenção a ela para mostrá-la sendo baleada e, em seguida, para dar um close em seu belo rosto sem vida. Ela já cumpriu seu propósito em O Assassino, pois Mitch agora tem uma missão: ir atrás dos terroristas e vingar-se pela morte da amada.

Mas incluir a morte de uma personagem feminina que não existe como indivíduo é apenas um dos muitos problemas presentes no roteiro de Stephen Schiff, Michael Finch, Edward Zwich e Marshall Herskovitz — que, a oito mãos (nunca um bom sinal), adaptaram o livro de Vince Flynn. Todas as pessoas que conhecemos no decorrer do longa dirigido por Michael Cuesta têm suas personalidades construídas por clichês que O Assassino não tem interesse algum de desconstruir ou aprofundar. A começar pelo próprio protagonista, Mitch: ele se recusa a obedecer qualquer ordem de seus superiores, é sarcástico e arrogante, demonstra uma perigosa obsessão por vingança mas, mesmo assim, ele é o melhor de todos, alguém com habilidades e um talento bruto “jamais visto”, a solução para todos os problemas da CIA, que acaba de recrutá-lo. Na agência, ele é recebido pela Vice-Diretora Irene Kennedy (Sanaa Lathan), que já é acostumada a lidar com tipos como Mitch, já que trabalha ao lado do rebelde Stan Hurley (Michael Keaton).

O Assassino Crítica

Nas mãos de Michael Keaton, o agente responsável por treinar jovens recrutas para uma missão especial antiterrossimo imediatamente se estabelece como o maior trunfo do filme. Apesar de ser um personagem tão raso quanto os outros, Keaton claramente se divertiu no papel, que injeta de energia e imprevisibilidade. Ele faz até mesmo as mais absurdas frases funcionarem pela maneira com que pausa entre cada palavra e olha ao redor — Stan é o único personagem que parece uma pessoa de verdade, com características além daquelas que o filme nos apresenta de acordo com as necessidades da trama. Quando Stan divide a cena com Mitch, é impossível não perceber a falta de vivacidade de Dylan O’Brien, que adota uma postura permanentemente estoica, esteja ele arriscando sua vida em nome da missão, tomando uma atitude imprudente ou soltando algum comentário “engraçadinho”.

Enquanto isso, o antagonista conhecido apenas como Fantasma (Taylor Kitsch) é tão afetado por seus dramas pessoais que largou a CIA e virou criminoso, tornando ainda mais incompreensível a decisão da agência de continuar com um programa que obviamente causa tantos problemas. Já para os terroristas islâmicos que são o alvo da missão principal, não sobra nada: apesar de ter uma premissa extremamente atual, O Assassino se isenta de qualquer politização, o que torna este um produto vazio, sem nada a dizer.

E isso se estende a qualquer assunto abordado por Cuesta e seu time de roteiristas, pois O Assassino não funciona como thriller de espionagem, como longa de ação e muito menos como um estudo sobre os perigos e a atração da vingança. Por mais que as pessoas ao redor de Mitch apontem que ele deve deixar sua sede de sangue de lado e focar no trabalho — e por mais que testemunhemos os perigos que essa obsessão ocasionam —, ele simplesmente continua indo, sem reflexão alguma. Isso é particularmente claro na cena em que os recrutas treinam com óculos de realidade virtual, em que vemos Mitch sendo punido diversas vezes por fugir da missão proposta. Assim, quando alcançamos a conclusão, não há sensação alguma de que ele aprendeu algo, mesmo que o filme queira fingir que sim. Na superfície, a produção promete condenar a obsessão pela vingança, mas a verdade é que todos os seus clímaxes envolvem os “mocinhos” cometendo atos de extrema violência ou matando os “vilões”.

Assim, O Assassino: O Primeiro Alvo (o subtítulo brasileiro certamente indica uma vontade de fazer deste o início de uma franquia, seguindo a deixa da prolífera série de livros de Vince Flynn) surge como apenas mais um longa de ação genérico e esquecível, cujo único elemento memorável é a presença de Michael Keaton. O problema não é basear-se em convenções — o mesmo poderia ser dito da incrível trilogia original sobre Jason Bourne —, mas o fato de não saber o que fazer com elas; este é um longa que não é capaz de justificar sua própria existência.


“American Assassin” (EUA, 2017), escrito por Stephen Schiff, Michael Finch, Edward Zwich e Marshall Herskovitz a partir do livro de Vince Flynn, dirigido por Michael Cuesta, com Dylan O’Brien, Michael Keaton, Sanaa Lathan, Shiva Negar, Scott Adkins, Taylor Kitsch e Charlotte Vega.


Trailer – O Assassino: O Primeiro Alvo

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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