A Morte do Caixeiro Viajante é uma peça escrita por Arthur Miller em 1949. Sucesso de montagens e até ganhadora do Pullitzer, a trama mostra um caixeiro viajante, seus filhos e uma busca, que se torna vazia, pelo Sonho Americano. O Apartamento, novo filme de Asghar Farhadi não é sobre sonhos, mas sim sobre limites.

Limites sociais, religiosos e culturais. Sobre o limite de uma vingança antes dela se tornar um mal tão grande quanto a ação que provocou tudo. Sobre o limite de até aonde o altruísmo vai antes de se tornar puro egoísmo. O limite entre a honra e a felicidade.

Assim como A Separação e O Passado, Asghar mais uma vez discute toda uma sociedade iraniana através de um conflito poderoso e que desmantela seus personagens pedaço por pedaço. Sim, junto com eles vai você, espectador, sendo obrigado a dolorosamente julgar e discutir internamente o que faria em cada umas das situações que vão nascendo e se alastrando pela vida dos protagonistas como um câncer.

O Apartamento mostra um casal de atores que após o prédio onde moram ser condenado, precisam encontrar um outro lugar para ficarem provisoriamente. Os dois então vão para o apartamento vago de um dos amigos com os quais contracenam em uma montagem da peça de Arthur Miller que está prestes a estrear.

Como é característico dos filmes do diretor iraniano, toda essa relação entre os dois vai sendo contada e vários detalhes e camadas a serem descascados vão sendo colocados lado a lado sem que um estopim surja de modo claro. A reviravolta, nesse caso, vem com um dia em que a esposa (Taraneh Alidoosti) é surpreendida por uma figura desconhecida durante o banho, cai, se machuca seriamente e desperta no marido (Shahab Hosseini) uma obsessão por esclarecer o acontecimento. Ainda que isso possa vir a destruir tudo a sua volta.

Mas isso ele só descobre quando é tarde demais. Ele e você. O que Asghar faz antes é te colocar em um caminho sem volta. Um julgamento social e um peso cultural que vão achatando o marido. Aos poucos, um sentimento de impotência que o esmaga e vai tornando-o algo pior, algo egoísta. Uma honra manchada que não lhe permite nem ao menos perceber que a principal vítima de toda história é sua esposa, não ele.

O Apartamento Crítica

E isso tudo acontece com uma parcimônia tão violenta que se torna trágica. Do homem que começa o filme, que dá meia volta para ajudar o filho da vizinha, ou que acha errado mexer nas coisas da antiga moradora da casa, sobra só uma casca vazia. E o espectador vê tudo isso acontecer sob seus olhos. Uma transformação tão cruel com o personagem que é triste vê-lo se perdendo nesse caminho.

Tudo sob a lente poderosa de Asghar, que mais uma vez tem a sensibilidade para ser mínimo quando precisa, mas tem a força para ser enorme quando é necessário. O cineasta abre o filme com um plano-sequência que acompanha os moradores do prédio correndo pelos seus corredores com uma urgência incrível. Uma agilidade que contrapõe completamente o momento final em que ele apenas observa uma janela e vê uma rachadura desenhar o vidro. Afinal, e dessa rachadura que Asghar está em busca.

Não só no vidro, mas em todos personagens e situações. No momento chave de O Apartamento, constrói uma cena inteira tão cheia de normalidade que só deixa o espectador pensar nas possibilidades trágicas daquilo tudo depois de ver que tudo de ruim já aconteceu, criando algo tão incrivelmente violento que nem ao menos pode ser visto.

E é isso que o cineasta quer, que seu espectador participe com ele daquela experiência. Que observe com ele seus personagens com o olhar perdido no horizonte enquanto pensam, refletem e tentam encaixar tudo que está acontecendo.

Por outro lado, pode ser minimalista e sutil enquanto sua protagonista arruma o cabelo por baixo das bandagens na cabeça e se mostra prestes a aceitar e conviver com o trauma de tudo que aconteceu, contanto que a dor se vá e tudo se torne passado. Ela se enxerga dentro de um julgamento social tão intenso e de um trauma tão grande e violento que muda sua vida, mas nem por isso está preparada para ir além de seus limites éticos e morais para uma vingança.

E todas essas camadas vão sendo descascadas com uma lentidão tão poderoso no final que é como se uma ferida purulenta fosse sendo exposta a cada volta que uma bandagem faz. Tudo isso em um palco meticulosamente montado quase sem mise-em-scene, no velho apartamento abandonado. Somente uma poltrona deixada para trás com uma iluminação que se apaga (uma linda rima com o começo do filme mostrando a montagem do palco da montagem de A Morte do Caixeiro-Viajante).

Talvez ai esteja a grande ligação entre a peça de Miller e o filme de Asghar. No final, seus personagens estão livres, no caso de O Apartamento, livres da dor, da culpa e com sua honra limpa. Mas assim como a esposa do caixeiro viajante, para que? O que ele poderá fazer com sua liberdade sem ninguém mais ao seu redor.


“Forushande” (Ira/Fra, 2016), escrito e dirigido por Asghar Farhadi, com Taraneh Alidoosti, Shahab Hosseini, Barbak Karimi e Mina Sadati


Trailer – O Apartamento

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