O Abrigo

Todo filme é sobre um personagem, um objetivo e alguns obstáculos que lhe impeçam de chegar àquilo desejado, por isso, durante todo o tempo o espectador é obrigado a ser ludibriado pela certeza, assim como desacreditado, que o protagonista irá alcançar o que tanto almeja. Como um jogo em que, no final, independente do sucesso do herói, quem sai ganhando é o espectador, que é exatamente o que O Abrigo faz.

Dirigido pelo jovem Jeff Nichols, o filme conta a história desse pai de família comum que passa a ter alguns sonhos esquisitos sobre uma enorme tempestade que parece pronta a assolar não só a cidade onde vive, mas talvez muito mais do que isso. Diante disso, resta então a Curtis iniciar a construção de um abrigo anti-tempestade que pode ser a única chance de salvar ele sua mulher e filha.

“Pode ser”, por que talvez tudo isso não passe de um devaneio esquizofrênico de uma mente perturbada, e ai está a grande arma que faz esse segundo trabalho de Jeff Nichols um dos mais interessantes que o cinema viu em 2011 (que infelizmente no Brasil voou direto para as locadoras). De modo preciso e cirúrgico, o diretor, que também escreve o roteiro, carrega o espectador por essas incertezas e faz ser impossível chegar ao final dessa experiência sem sentir a dor desse protagonista vivido pelo sensacional Michael Shannon.

Ele, que logo mais vai se tornar o vilão do novo filme do Superman, repete o que vem fazendo em sua carreira repleta de papeis coadjuvantes (mas que sempre roubam a cena) e segura esse personagem com unhas e dentes, sensível e cada vez mais desesperado pela situação que o cerca, pela inevitabilidade desses acontecimentos e pelo esforço de que aquilo tudo não passe de uma doença psicológica, pois isso seria melhor do que viver o horror de perder sua família. E O Abrigo é justamente sobre isso, esse homem que, temendo perder as coisas que mais ama na vida, prefere ser tomado pela loucura e, pelo menos, garantir que tudo acabe bem, mesmo que apenas em sua cabeça.

Sobra então para Nichols impedir que o espectador, simplesmente, aceite essa dolorosa verdade e acompanhe toda essa “suspensão de expectativa” a cada sonho e passo que o personagem dá em direção ao inevitável. É impossível não acreditar que aqueles sonhos, logo de cara, sejam apenas uma metáfora para uma mudança, mas logo, a vivacidade com que eles ocorrem, sem distinguir o real do onírico, permitem que, aos poucos, aqueles pesadelos se tornem, quem sabe, uma predestinação. O cuidado narrativo de Nichols é tão grande que, somente com muito cuidado e lá pelas tantas, o espectador é presenteado com a possibilidade real de que aquilo tudo seja resultado de uma doença (com a presença da mãe do personagem), mas que, diante de tudo que já presenciou, uma que talvez esteja tão avançada que o melhor mesmo fosse torcer por aquela tempestade apocalíptica.

E Nichols então não parece pronto a aceitar o destino mais fácil de seu personagem, seja qualquer um dos dois (loucura ou realidade), e coloca-o diante não da tempestade, mas sim da materialização de seus pesadelos, já que tudo em sua vida parece começar a abandona-lo, do amigo ao emprego, passando pela mulher e até o olhar de desaprovação dessa comunidade onde vive. Como se ele próprio começasse a fazer com que seus pesadelos se transformassem em realidade. E a única solução para isso acabe sendo o abrigo.

Se visualmente, a cada momento que passa Nichols permite mais e mais que a realidade e o sonho se separem (seja por um filtro ou uma montagem mais rápida entre outras opções), ao mesmo tempo, deixa que o primeiro se torne esse pesadelo onde somente ele (Curtis) acredite naquela hecatombe e com isso o espectador, realmente, torça para que o mundo acabe naquela tempestade que surge no horizonte com uma chuva de óleo amarelo e que transforme todos em malucos. Por outro lado, é impossível não se emocionar ao ser colocado diante da ótica ainda cética da esposa do personagem (Jessica Chastain, talvez completando um ano sem igual em sua carreira com ainda mais dois trabalhos sensacionais em A Árvore da Vida e Histórias Cruzadas), que vê a dor nos olhos dele ao escutar a descrição visceral de um de seus pesadelos (e pior ainda ao saber que ela própria surgiu em um outro sonho), o que para Nichols é a oportunidade de criar essa imagem mais aterradora ainda do mundo onde Curtis tem que viver.

Diante disso, Curtis, diminuto e inofensivo seja diante da tempestade, de sua vida ou de sua doença só tem a opção de fugir para esse abrigo e, pior ainda, acaba tendo a necessidade de passar por cima de tudo que acredita para abrir uma porta que, no final das contas, acaba levando para seu apocalipse, seja por meio dessa tempestade ou diante do afastamento de sua família, vendo sua filha roubada por sua doença exatamente como em um de seus sonhos.

Assim como, por outro lado, ainda mostra que, nem sempre, o mais correto seja ignorar aquilo que foi escrito para ele, já que quando isso acontece, talvez a tempestade chegue exatamente na hora que o abrigo esteja mais fora de alcance, mesmo que, por esse lado, nem uma chuva amarela, nem essas nuvens no horizonte permitam que ele se separa daqueles que mais ama.

O Abrigo então é uma obra que transita por uma sensibilidade rara, que não tem medo de expor seus personagens e, ao mesmo tempo, lembra que tanto eles, quanto qualquer um tem mesmo é que lutar ou aceitar o seu destino e não aquele que os outros lhe impõe, mesmo que isso represente não sair de perto daquele lugar, ou daquelas pessoas, que te dão proteção, e abrigo, em qualquer tempestade.


Take Shelter(EUA, 2011) escrito por Jeff Nichols, dirigido por Jeff Nichols, com Michael Shannon, Jessica Chastain e Tova Stewart.


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