Normandia Nua | Um panorama rico, mesmo sem muitas pretensões

Normandia Nua Filme

Normandia Nua é uma comédia dramática que tenta abordar vários temas sob vários pontos de vista ao mesmo tempo. Ela não nos faz pensar muito nisso tudo, já que a todo momento nos identificamos com esse ou aquele ponto de vista enquanto traça um panorama surpreendentemente rico para uma história sem muitas pretensões.

Como estamos na França, tudo começa com a crise econômica que força fazendeiros de uma cidadezinha da região da Normandia à beira da falência a se mobilizarem e paralisar uma estrada como protesto. Esse ato acaba chamando a atenção de um fotógrafo americano excêntrico (Toby Jones) que decide tirar sua próxima foto excêntrica (“a arte é mais importante que a natureza”) de pessoas locais nuas em ambientes urbanos logo ali, no campo. O prefeito da cidadezinha, interpretado de maneira honesta mas ao mesmo tempo cômica por François Cluzet (Intocáveis) encontra ali uma oportunidade de realmente chamar a atenção das autoridades, só que, para isso, terá que convencer a cultura local a ficarem todos pelados para o mundo ver.

Lembrando aquelas mesmas histórias em que uma comunidade precisa se unir por uma causa comum, mas que possui diferenças que precisam tratar no caminho, Normandia Nua possui um tom característico da região e do tempo de onde se passa. Seu diretor, Philippe Le Guay (As Mulheres do Sexto Andar), sente a necessidade de colocar todos os pontos de vista sob os holofotes, e para isso conta com personagens com diferentes relações com a região. Tanto ele quanto François Cluzet tiveram experiências com a vida no campo durante a infância e adolescência que possibilitam esse resgate nostálgico.

Dessa forma, temas atuais e recorrentes são utilizados vez ou outra, embora não possamos dizer, propriamente abordados: aquecimento global, economia globalizada, uso de pesticidas, crueldade animal, consequências das guerras em desavenças por gerações, a visão anti-imperialista e ao mesmo tempo pró-EUA ainda em debate na região, auto-sacrifício pelo bem-comum (um prefeito altruísta), a morte do analógico perante o digital. Sim, a lista é extensa.

A boa notícia é que todos esses temas soam naturais em discussões plurais onde diferentes vozes possuem sua forma de enxergar o problema. O filme não força muito uma linha narrativa, preferindo explorar os acontecimentos como se eles fossem espontâneos. O único fio narrativo é: vai acontecer a foto ou não?

Enquanto isso diferentes ganchos são colocados de maneira conveniente sem soar forçados demais. Como a visita do fotógrafo americano na última loja de fotografia prestes a ser fechada, ainda com o logo da extinta fabricantes de negativos caseiros Kodak. Além da loja ser cercada de pequenas relíquias que são exibidas no formato homenagem.

Normandia Nua Crítica

A fotografia de Jean-Claude Larrieu é evocativa sem se exibir demais. A palavra-chave aqui no filme não são cores, mas luz. E note como ela começa cinzenta (durante o protesto na rodovia) e vai aos poucos se tornando bucólica, cercada ou de um banho de luz desfocada vindo do sol ou do branco purificador dos aguaceiros de fim de tarde. É mais difícil de perceber também porque Philippe Le Guay se recusa a mostrar panorâmicas evocativas, preferindo sempre nos centrar em torno do drama humano que se configura à altura da terra.

Mas voltando à pluralidade de ideias, a atuação de François Cluzet é vital justamente por ele estar quase em todas as cenas do filme e por ele ter o caráter de agregador de toda aquela gente. Mesmo quando ele não está na cena a sua figura paterna é uma sombra que acompanha todos da comunidade, e ainda que muitos discordem das opiniões do prefeito é ele no final das contas a voz da consciência daquele coletivo. Cluzet está em o seu melhor, e conduz seu personagem com energia e doçura, conseguindo em momentos-chave trazer o humor comedido, sem cair para o estardalhaço e fazer rir pelos personagens, e não deles.

A grande maioria do elenco é formada por próprios moradores do vilarejo, que existe mesmo, e onde até a banda de fanfarra de um casamento que ocorre no filme é real. Esse detalhe torna o trabalho final mais humano e ao mesmo tempo simbólico, pois acontecendo ou não a polêmica foto, o diretor teve que convencer pessoas do campo de fato a fazer parte de um projeto que os arrancaria da zona de conforto de bicho do mato.

Tudo isso torna Normandia Nua um filme não apenas de humanos sobre humanos, mas convida o espectador a pensar nos problemas da vida real sob o prisma do que vimos na ficção: geralmente as questões difíceis nunca possuem um ou dois lados. Geralmente é um lado por pessoa envolvida. Imagine o problema que é discutir isso em comunidade.


“Normandie Nue” (Fra, 2018), escrito por Olivier Dazat, Philippe Le Guay e Victoria Bedos, dirigido por Philippe Le Guay, com François Cluzet, Arthur Dupont, Vincent Jousselin, François-Xavier Demaison, Thierry Levasseur, Chloé Levasseur, Pili Groyne e Toby Jones.

Trailer – Normandia Nua

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