No Meio de Nós | … sim, estamos falando de ETs

No Meio de Nós Filme

Antes de qualquer coisa, um alerta: este filme não é um documentário.

Documentários, mesmo os mais parciais, ao menos tentam buscar informações e apresentá-los ao espectador da maneira mais clara e inteligível possível. Já No Meio de Nós reúne uma série de especialistas em diferentes áreas de conhecimento e esoterismo para juntos realizar o que não consegue parecer muito diferente de um vídeo publicitário. O que ele vende? O livro Mergulho no Hiperespaço, de um General Ufólogo da década de 60, e o próprio filme, lançado no site da produtora em DVD esta semana.

Narrado por Renato Prieto, um ator famoso por atuar em trabalhos espíritas no cinema e no teatro, o filme é um emaranhado de entrevistas em um desfile de apelos à autoridade e evidências anedóticas que apenas confirmam o lado que desejam vender: alienígenas estão entre nós e a humanidade está nesse momento em uma fase de transição para um nível maior de esclarecimento a respeito da nossa natureza como seres não apenas materiais da física clássica, mas de outras formas físicas de manifestação e a forma espírita.

Sem conseguir conter nada de novo, a estrutura por trás da história é o já conhecido desprezo que algumas pessoas possuem do salto tecnológico e produtivo que a humanidade sofreu nos últimos séculos, ou a tentativa de pegar carona em uma vida hoje dezenas de vezes mais fácil que nossos antepassados (e excessivamente materialista), unir com estatísticas globais de suicídios (ignorando o quanto a população cresceu em porcentagem), e concluir que é necessário abandonar as antigas religiões e adotar uma nova: o fanatismo ufológico.

Lembrando uma versão menos sutil do documentário de pseudo-ciência Quem Somos Nós? e uma versão mais alarmante que a série de documentários econômicos sobre o “Zeitgeist” (mais uma religião de nossa era, voltada para o ufanismo tecnológico), No Meio de Nós não consegue se conter em mostrar repetidas imagens comuns em slides de apresentações que tentam ilustrar o que os entrevistados dizem dezenas de vezes com palavras diferentes, palavras essas que cada vez mais querem dizer menos. São termos vagos que nunca são devidamente explicados, lançados como se já fizessem parte do consciente coletivo, como “energia vibrante”, “multidimensões”, “consciência cósmica” e coisas do gênero.

No Meio de Nós Crítica

Através de uma direção digna de “Youtuber”, o diretor/roteirista/produtor Juliano Pozati, da Pozati Produções, realiza cortes nos enquadramentos para acelerar as entrevistas, intercalando-as com uma trilha sonora imediatista (e enlatada) que situa um clima de urgência e nunca para, martelando em nossos ouvidos suas obviedades. Os efeitos visuais lembram igualmente slides de apresentações, e a própria narrativa se perde facilmente, pois vai e volta para causos contados por parentes e conhecidos de pessoas que tiveram evidências anedóticas de contatos com extraterrestres.

Para dar um ar de credibilidade maior que os tristes canais atuais da History Channel, o trunfo do filme são memorandos do FBI descrevendo objetos e seres supostamente alienígenas, e usando-os como provas irrefutáveis de sua existência, ignorando que um documento, por mais carimbado que seja, não deixa de ser apenas um papel timbrado e amarelado com palavras feitas à máquina de escrever. E mesmo que este seja um memorando cuja origem é da agência de inteligência norte-americana, isso apenas prova que o documento foi lá produzido, e nada mais, da mesma forma que um pedaço de papel da casa da moeda só tem valor porque governos dizem que ele tem valor.

Conseguindo se alongar desnecessariamente em menos de 90 minutos de projeção, o vídeo encomendado definitivamente não possui nada que possa ser chamado de cinematográfico, exceto imagens em sucessão. Contudo, se houvesse uma prova, ou resquício de prova, no meio de todas as bobagens vistas no longa, com certeza valeria a pena. No entanto, a única coisa que foi ofertada a este crítico foi uma cópia do livro-alvo da campanha de marketing. Que eu enviarei com prazer (frete incluso) a qualquer um que me apresentar alguma prova cabal de qualquer um dos eventos que o filme cita. Pode até ser as Cartas de Zener, uma tentativa defasada de transformar parapsicologia em ciência através de um método testável. Aliás, um dos entrevistados, ao falar sobre uma divisão americana obscura durante a Guerra Fria, diz que a parapsicologia já havia sido provada ciência desde a década de 60, e era usada pela Nasa para se comunicar com ETs. Esse é o nível de confiabilidade do filme, caso ainda queira arriscar.


“No Meio de Nós” (Bra, 2017), escrito e dirigido por Juliano Pozati.


Trailer – No Meio de Nós


confira o filme completo

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