Não aceitamos devoluções, estreia do ator Eugenio Derbez na direção de longas-metragens, conta a história clichê do homem imaturo que assume suas responsabilidades e se torna o pai exemplar, sonho de toda a criança. E esta premissa já trabalhada Não Aceitamos Devoluçãoà exaustão desde O garoto, de Charlie Chaplin, até O paizão, estrelado por Adam Sandler, não muda muito por aqui.

Após ser deixado com a recém-descoberta filha, Valentin (Eugenio Derbez), um playboy que vive em Acapulco, atravessa a fronteira ilegalmente com o bebê a fim de devolvê-lo a mãe, Julie (Jessica Lindsey), uma turista americana com quem teve um caso no verão. A busca por Julie, porém, mostra-se infrutífera e Valentin, já apegado à filha após semanas de jornada, acaba se estabelecendo num emprego de dublê em Los Angeles e criando a pequena Maggie (Loreto Peralta). Até o momento em que Julie reaparece, depois de seis anos sem dar notícias.

As situações inusitadas de Maggie e Valentin, como os vários momentos em que Maggie serve como intérprete do pai, que nunca aprendeu inglês mesmo morando nos Estados Unidos por seis anos, ou as cartas que Valentin escreve à filha fingindo serem da mãe, ajudam a desenvolver a relação de cumplicidade entre pai e filha expressa na tela, e isso conquista o espectador. O relacionamento que começa com um extremo estranhamento – Valentin não sabe pegar a bebê Maggie, nem trocar suas fraldas no início do filme – se torna belíssimo, e a vida do dublê passa a girar em torno de sua menina.

A dupla de protagonistas faz um ótimo trabalho em tela, embora Derbez comece fraco como playboy, melhorando consideravelmente quando o filme avança seis anos e Valentin já tem uma relação com Maggie. Ela, por outro lado, que interpreta Maggie aos sete anos, faz um trabalho constantemente incrível e é admirável que este seja seu primeiro papel. A fluência da atriz tanto em inglês quanto em espanhol é surpreendente, com a menina atuando de maneira natural em ambas as línguas. A interação entre os atores é muito boa, e a confiança mútua que se estabelece desde o primeiro momento dos dois em cena se mantém por todo o filme, tornando a relação adoravelmente verossímil e emocionante. Por outro lado, Lindsey, no papel da mãe, faz uma antagonista verdadeiramente detestável, personalidade estabelecida desde o início da trama.

Não Aceitamos Devolução

O roteiro do filme é bom, mas as piadas deixam a desejar. Apesar disso, se desenvolve bem e traz algumas boas sacadas – como o hábito de Valentin se fingir de morto para Maggie o ressucitar com um amuleto – que aumentam a amabilidade da dubla principal. A reviravolta final é um ponto forte e realmente surpreende: me fez voltar mentalmente alguns momentos para ver se fazia sentido, e, após alguns minutos digerindo tudo, concluí que faz.

Porém, o que o roteiro tem de qualidades, a direção tem de defeitos. O ritmo do filme é lento e não segura as quase duas horas de projeção, que se tornam cansativas. Mesmo a dupla principal, com seu enorme carisma, não consegue tirar a sensação de que as coisas demoram muito a acontecer. Uma mão pesada que também se estende para as cenas dramáticas: praticamente todos os momentos que deveriam ser emocionantes são destruídos por uma trilha nada sutil, que explode em melodias exageradamente tristes. A impressão é que o diretor quer jogar esses momentos na cara do espectador, algo como “ok, agora você TEM que chorar”. O resultado, porém, é brega e desastroso. Uma opção mais simples seria muito mais acertada, visto que Derbez e Peralta mostram atuações sensacionais, que, por si só, emocionam o tempo todo.

Não aceitamos devoluções poderia ser um filme melhor, mas a falta de experiência do diretor transparece, e seria um belo divertimento se tivesse meia hora a menos.


No se aceptan devoluciones” (México, 2013), escrito por Guillermo Ríos, Leticia López Margalli e Eugenio Derbezdirigido por Eugenio Derbezcom Eugenio Derbez, Loreto Peralta, Jessica Lindsey, Daniel Raymont e Alessandra Rosaldo.


Crítica do filme Não Aceitamos Devoluções

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