Em 86 anos de Oscar, apenas quatro mulheres foram indicadas à categoria de Melhor Direção: Lina Wermüller, por Pasqualino Sete Belezas, em 1976 (cinco décadas após a primeira premiação da Academia); Jane Campion, por O Piano, em 1993; Sofia Coppola, por Encontros e Desencontros, em 2003; e Kathryn Bigelow, por Guerra ao Terror, em 2009. Apenas Bigelow levou a estatueta.

Quatro mulheres, indicadas apenas uma vez cada uma, em uma cerimônia que tem o hábito de frequentemente indicar artistas diversas vezes – as 89 estatuetas de Melhor Direção já distribuídas pela Academia foram para 66 diretores. Mesmo continuando a dirigir produções aclamadas pela crítica e com filmes que costumam receber indicações em outras categorias, a lista de indicados a Melhor Direção continua majoritariamente masculina. A Hora Mais Escura, dirigido por Bigelow e lançado em 2012, recebeu cinco indicações ao Oscar: filme, atriz, roteiro original (escrito por Mark Boal), desenho de som e montagem.

Essa é uma situação comum a muitos filmes dirigidos por mulheres que marcam presença na temporada de premiações: recebem várias indicações, mas a diretora é ignorada. O primeiro filme dirigido por uma mulher a ser indicado tanto para Melhor Filme quanto para Melhor Direção foi O Piano, em 1993 – feito que demorou dez anos para se repetir, quando Encontros e Desencontros também foi indicado nas duas categorias, em 2003.

Sofia Coppola

Em 2010, Inverno da Alma deslanchou a carreira de Jennifer Lawrence, mas sua diretora e roteirista não recebeu a mesma atenção: o filme foi indicado ao maior prêmio da cerimônia e o roteiro de Debra Granik concorreu na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, mas a cineasta não entre os melhores diretores do ano. Das 512 obras indicadas a Melhor Filme na história do Oscar, apenas onze foram dirigidos ou co-dirigidos por uma mulher. Em todos esses anos, apenas em 2009 e 2010 a lista de indicados a Melhor Filme tinha mais de um único longa dirigido ou co-dirigido por uma mulher.

Segundo a organização Women Make Movies, em 2013, mulheres representavam um total de 16% dos diretores, produtores executivos, produtores, roteiristas, diretores de fotografia e editores trabalhando na indústria cinematográfica. Além de ser muito difícil para uma mulher conseguir trabalhar atrás das câmeras em um filme, portanto, é igualmente complicado para ela conseguir se destacar e ser reconhecida por seu trabalho pela indústria e pelo público.

Cada vez mais, grandes produções têm buscado diretores saídos da cena independente para dirigir seus blockbusters: Gareth Edwards em Godzilla, Rian Johnson em Star Wars, James Gunn em Guardiões da Galáxia, Mark Webb em O Espetacular Homem-AranhaWhiplash: Em Busca da Perfeição ainda nem foi lançado em circuito comercial, mas seu sucesso nos festivais norte-americanos foi o suficiente para que ofertas de filmes com grande orçamento já tenham começado a aparecer para o diretor Damien Chazelle, como a cinebiografia de Neil Armstrong, First Man.

As mulheres do cinema independente – mais aberto para o talento feminino do que o grande circuito – continuam comandando produções vistas por poucos e que raramente alcançam outros países. Obviamente, o cenário independente é onde muitos artistas preferem ficar; porém, considerando o grande movimento de diretores entre um modo e outro de fazer filmes, é claro que existem muitas mulheres que adorariam estar comandando blockbusters. Muitas superproduções recentes, afinal, têm investido em protagonistas femininas: Jogos Vorazes, Divergente, Malévola… Com exceção da adaptação do filme da Disney, os dois outros longas são adaptações para o cinema de livros escritos por mulheres, mas nenhum deles tem roteiristas ou diretoras femininas.

A escritora Gillian Flynn roteirizou seu bestseller Garota Exemplar para David Fincher dirigir, e o filme tem estreia marcada para 2 de outubro no Brasil. O livro conta com uma protagonista feminina, Amy (interpretada por Rosamund Pike) complexa e bastante diferente das antagonistas que costumamos ver – Amy é uma antiheroína que brinca com as expectativas que os homens projetam nas mulheres e, para Flynn, homens e mulheres têm visões bastante diferentes da história. Caso um homem tivesse ficado responsável pelo roteiro, é provável que Amy perdesse algumas de suas camadas e se tornasse uma personagem menos multifacetada, e que o relacionamento entre ela e o marido fossem explorados de forma diferente daquela proposta pela escritora.

Branda Chapman

Mas não é sempre que mulheres conseguem levar suas próprias histórias para as telonas: Brenda Chapman, creditada como co-diretora de Valente, da Pixar, inicialmente era a única diretora do longa. Diretora de O Príncipe do Egito, da DreamWorks, Chapman começou a trabalhar em Valente como única diretora até que, em 2011, a Pixar tomou o projeto dela e o colocou no comando de Mark Andrews, diretor de Os Incríveis e Ratatouille. Apesar de muito propagar a importância de finalmente lançar um filme com uma garota como protagonista, a Pixar não hesitou na hora de tirar sua primeira diretora do lugar. Sobre a situação, Chapman declarou, em artigo publicado no The New York Times: “Quando a Pixar me tirou de Valente – uma história que veio do meu coração, inspirada por meu relacionamento com minha filha –, foi devastador”. Hollywood pode estar começando a perceber que histórias de mulheres dão filmes bem-sucedidos, mas ainda não dá a mulheres a capacidade de contar suas próprias histórias.

Chapman reconhece que diretores de animação são tratados de forma muito diferente de diretores de filmes live action e que substituições são comuns, mas o problema persiste. “Essa foi uma história que eu criei, que veio de um lugar muito pessoal, como mulher e como mãe. Tê-la arrancada de mim e dada a outra pessoa, a um homem, ainda por cima, foi angustiante em vários níveis”, ela comenta. “Às vezes, mulheres expressam uma ideia e são ignoradas, apenas para um homem vir e expressar basicamente a mesma ideia e tê-la celebrada. Até que tenhamos um número suficiente de mulheres em altas posições executivas, isso continuará acontecendo.” A Pixar não se pronunciou sobre o ocorrido.

É compreensível, portanto, que diversas atrizes, já estabelecidas na indústria, decidam ir para trás das câmeras. Rashida Jones, mais conhecida por seu trabalho nas séries de comédia The Office e Parks And Recreation, ao buscar a migração para o cinema decidiu escrever seu próprio filme ao lado de Will McCormack, Celeste e Jesse Para Sempre, de 2012, dirigido por Lee Toland Krieger e estrelado por Jones ao lado de Andy Samberg. Em sua crítica do longa, Roger Ebert escreveu: “Não é surpresa que Rashida Jones seja a principal roteirista deste filme; do jeito que as coisas andam, se uma atriz não escreve um bom papel para si mesma, ninguém mais o fará.” A atriz e roteirista Greta Gerwig, que estrelou e roteirizou Frances Ha, conta que era apaixonada por teatro na adolescência e, ao reparar que todos os grandes dramaturgos mencionados eram sempre homens, ela acreditava que não seria capaz de se igualar a eles. “Se você não tem nenhum exemplo, é difícil se imaginar fazendo algo”, declarou ela.

No Festival de Cannes deste ano, que teve a cineasta Jane Campion como presidente do júri, o assunto das mulheres na indústria foi bastante discutida. Ela revelou que, mesmo que 20% dos filmes selecionados para o festival sejam feitos por mulheres, “os homens acabam levando toda a glória”. No festival, um dos destaques foi Girlhood, da francesa Céline Sciamma. O longa segue um grupo de adolescentes negras nos humildes subúrbios da França. Sciamma já havia chamado a atenção em 2011 com o sensível Tomboy, sobre uma garota que, ao se mudar com a família para outra cidade, decidiu assumir a identidade masculina.

Pois, assim como no cinema em geral, também entre as mulheres cineastas a diversidade ainda é pouca. Apenas um filme dirigido por uma mulher não-heterossexual foi indicado à Melhor Filme: Minhas Mães e Meu Pai, em 2010, dirigido por Lisa Cholodenko – que, mesmo retratando um casal de lésbicas que cria dois filhos, é bastante heteronormativo.

Megan Elison

Na última temporada de premiações do cinema, a produtora Megan Ellison teve dois filmes indicados na principal categoria do Oscar: Ela, de Spike Jonze, e Trapaça, de David O. Russell, entrando para a história como a única mulher a alcançar o feito. Ela também está por trás do financiamento de O Mestre, de Paul Thomas Anderson, e A Hora Mais Escura, de Kathryn Bigelow.

Se entrar na indústria já é difícil, permanecer na mente dos estúdios e do público é outro desafio. A roteirista Diablo Cody, que sempre escreve histórias protagonizadas por personagens femininas multifacetadas e bem diferentes entre si, diz que as mulheres nunca têm a mesma oportunidade de falhar de seus colegas homens. Cody declara: “Me deixa muito triste que as mulheres não tenham a oportunidade de ser medíocre que os homens têm. Toda semana, filmes terríveis são lançados – deixe que mulheres dirijam alguns deles! Não acho que isso vá tornar esses filmes bons, mas que temos que ter a oportunidade de fazer filmes bons, filmes ruins, filmes medíocres. Nós temos que poder criar personagens autênticos e também figuras unidimensionais. Nós deveríamos ter a oportunidade de fazer tudo, bom e ruim, assim como os homens. Não gosto da ideia de que as mulheres têm que chegar lá e provar que somos ótimos. Sabe por quê? Porque nem todas nós vamos ser ótimas. Nós apenas precisamos estar fazendo filmes e sendo pagas para isso.”

Alguma dúvida de que M. Night Shyamalan não teria emprego em Hollywood há muito tempo se fosse do sexo feminino? Mulheres sempre são julgadas mais duramente. O sucesso de Kathryn Bigelow não conta para as cineastas porque os filmes dela “poderiam ter sido dirigidos por um homem”. Woody Allen é celebrado há décadas enquanto Sofia Coppola “só faz filme de mulherzinha”. Mulheres são obviamente tão capazes de fazer filmes, em qualquer função que seja, quanto os homens, mas a indústria continua dando preferência a profissionais masculinos.

A diretora Lexi Alexander é enfática ao dizer que “não há falta de mulheres diretoras”. Segundo ela, muitos tentam justificar a falta de projetos aclamados dirigidos por mulheres com o falso-argumento de que “talvez elas não queiram dirigir”. O que acontece, segundo Alexander, é uma falta de pessoas dispostas a dar oportunidades a essas diretoras. Segundo a Women Make Movies, filmes dirigidos por mulheres têm mais personagens femininas e mostram um aumento de 21% no número de mulheres trabalhando na obra – no caso de documentários, a porcentagem sobe para 24%.

Mais oportunidades para mulheres fazerem filmes ajudarão mais mulheres a ter a oportunidade de fazer filmes. Inspirará garotas a querer fazer filmes. Fará com que jovens que queiram fazer filmes nunca achem que seu sexo as impedirá de chegar lá. Devemos poder contar nossas próprias histórias, ou quaisquer tipos de histórias que quisermos contar. A diversidade de visões e de vivências é essencial ao cinema.

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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