Mulheres Armadas, Homens na Lata | Musica boa, mulheres, armas e bofetadas


Um espectro sonda a Europa – o espectro do feminismo. Todas as nações europeias já o estão conjurando, sobretudo a França. Mulheres Armadas, Homens na Lata é o resultado. Um filme leve, dinâmico, divertido e que se tem uma preocupação que seja, é fazer essas garotas saírem por cima a qualquer custo.

Sua história e sua direção querem evocar os westerns pausterizados de nível B, como a música “Bang Bang (You Shot Me Down)” que nos faz lembrar, ainda que em sua versão de Parabellum, de Kill Bill, outro que bebe dos westerns, além do filmes de samurai. Porém, tanto em Kill Bill quanto Mulheres Armadas sua produção é rica demais para conseguir “disfarçar”. O diretor Allan Mauduit eleva um roteiro nada original que escreveu com Jérémie Guez além do que poderíamos imaginar lendo-o quando ele consegue inverter os papéis de gênero sem soar deslocado da realidade, e entrega comédia, ação e até um pouco de drama na medida certa.

Isso porque as premissas estão corretas, ainda que esteja cheia de coincidências pelo caminho. A heroína, Sandra Dréant (Cécile de France), chega na casa da mãe com um olho roxo: seu rolo com o último brutamontes não deu muito certo. Do “ápice” como modelo ela recomeça a vida em uma fábrica de peixes enlatados de sua terra natal que emprega mulheres por ser mão-de-obra barata e as mantém sob a gerência dos escrotos locais, como Jean-Mi (Patrick Ridremont), cuja “cantada” para a novata se resume a “sabia que você é gostosa?”.

Esse começo que não termina nada bem dá origem a um assassinato não-premeditado e uma mala cheia de dinheiro que obviamente não é limpo para que Sandra e suas duas amigas, Nadine (Yolande Moreau) e Marilyn (Audrey Lamy) decidam se mudam de vida ou se mantêm quebradas.

Agora, antes de falar da ação em si, é importante destacar a importância que a estética sonora tem para Mauduit, logo na introdução já utilizando a trilha sonora Ludovic Bourne (premiado por O Artista) em um ritmo compassado com o movimento das latas de sardinha caminhando em harmonia através das infinitas esteiras da fábrica. Repare também como, por este ser um tipo western pastelão, os sons no filme são ligeiramente exagerados. Basta alguém mexer em sua pistola que o barulho nada sutil de sua arma sendo destravada é ouvida.

Mas voltando ao feijão-com-arroz, o forte aqui é mesmo a seleção de músicas. Não elas por si só, mas sim a maneira com que elas são aproveitadas em cada momento dramático e intenso, como Once Upon a Time in the North e suas variações demonstram, ou algo mais leve que mantém a tensão, como Dance of Death.

A música é tão importante neste filme porque ela consegue nos fazer relevar os acontecimentos bizarros e as coincidências improváveis. Além disso, no elenco está a séria-mas-lúdica Yolande Moreau, que, com trabalhos em O Fabuloso Destino de Amelie Poulain e Paris, Te Amo, entre tantos outros, mantém nossa memória influenciada por aqueles filmes em que a fantasia te ajuda a carregar a história e a torná-la mais leve. E é por isso que é ela que carrega a espingarda e não tem medo de usá-la.

Mas apesar das armas, sobram bofetadas na cara (inclusive em uma criança), mas quando elas chegam vêm como uma versão leve de um soco ou uma pá na cabeça, não chegando a ser perturbador ver mulheres sendo alvo de violência; pelo contrário, é isso o que as torna dignas de fazer parte dessa aventura, pois elas não são umas donas de casa submissas.

Seria muito estranho que em uma história de traficantes e com tantas armas tudo não passasse de uma historinha de perseguição inconsequente e não houvesse riscos. Nada disso, ninguém gosta de filmes onde tudo dá certo (como o de super-heróis). Aqui há um certo grau de insegurança que se mantém por toda a história e que por consequência nos mantém grudados na tela. Será que as meninas vão conseguir se safar dessa enrascada?

Mulheres Armadas, Homens na Lata um filme de ação, comédia e drama bem dosados. No final, Sandra, a protagonista, aprende uma profunda lição sobre a ausência do pai em sua vida, que consegue empacotar todos aqueles estereótipos masculinos da história em poucos adjetivos, entre os quais talvez o mais importante seja inútil. Não esperava menos, afinal de contas, como havia comentado, a preocupação-mor deste filme é que as garotas saiam por cima a qualquer custo. Ele é bem sucedido porque no final nós, espectadores, desejamos muito que isso seja verdade.


“Rebelles” (Fra, 2019), escrito por Jérémie Guez e Allan Mauduit, dirigido por Allan Mauduit, com Cécile de France, Yolande Moreau, Audrey Lamy.


Trailer do Filme – Mulheres Armadas, Homens na Lata

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