por Mariana González
14 de fevereiro de 2018

Em Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi, a lama e a decadência parecem consumir tudo. Em meio a isso, os integrantes de duas famílias — uma branca, outra negra — formam relacionamentos complexos uns com os outros nos anos durante e após a Segunda Guerra Mundial. O preconceito é acentuado pelas dificuldades e pela escassez na vida no campo e, nesse contexto, Dee Rees cria um épico de grandes proporções e de profunda intimidade, adotando uma linguagem literária para conduzir as vidas de seus personagens.

Laura (Carey Mulligan) leva uma existência tranquila, mas entediante para ela — que, então, casa-se com Henry McAllan (Jason Clarke), esperando que ele possa salvá-la de um futuro infeliz. Mas, quando o casal já tem duas filhas pequenas, Henry subitamente revela que comprou uma fazenda no Mississipi — Laura é obrigada a se conformar com a mudança, já que não tem autoridade nenhuma no casamento. Mais descontente ainda fica seu sogro, Pappy (Jonathan Banks), que não mede esforços para demonstrar seu preconceito contra a família de negros que também vive na fazenda dos McAllan, os Jackson. Depois da guerra, a harmonia complicada entre as duas famílias é atrapalhada pela amizade improvável entre o filho mais velho dos Jackson, Ronsel (Jason Mitchell) e Jamie (Garrett Hedlund), irmão de Henry, ambos recém-chegados ao lar após servirem no exército norte-americano.

Sob o comando magistral da diretora Dee Rees, que assina o roteiro ao lado de Virgil Williams (com base no livro homônimo de Hillary Jordan), Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi jamais deixa que seus personagens tornem-se caricaturas. Assim, por mais que Pappy seja a figura mais claramente racista da história, é inegável o quanto Henry e até mesmo Laura abraçam esse sistema que permite que eles sejam donos de uma terra, enquanto os Jackson são limitados a trabalhar de favor na propriedade deles. Isso fica claro nas inúmeras instâncias em que um dos McAllan solicita um \”favor\” aos Jackson — favor este, é claro, que eles não podem nem sonhar em recusar. Enquanto isso, Laura e a matriarca dos Jackson, Florence (Mary J. Blige) ainda demonstram sutilmente seu descontentamento com a falta de autonomia e independência das mulheres da época — e, nesse sentido, é interessante perceber o quanto a voz de Florence tem muito mais força em seu lar do que a de Laura em relação a Henry, e também o quanto isso acaba, finalmente, tornando-as um pouco mais próximas.

Mas, no centro de Mudbound, encontra-se a amizade entre Ronsel e Jamie, que encontram um no outro a compreensão que os dois soldados não conseguem encontrar na família — e, mais uma vez, o isolamento de Jamie em relação a seus parentes é significativamente maior do que aquele de Ronsel (que enfrenta, é claro, seus próprios e gigantescos problemas por ser um jovem negro que retorna da guerra condecorado e com um certo status). Ao retornarem para casa, Ronsel abraça o pai entusiasticamente, enquanto Jamie mal consegue olhar para Pappy. A amizade de Ronsel é o que ajuda Jamie a não entregar-se totalmente à depressão e ao transtorno do estresse pós-traumático; enquanto isso, Ronsel inspira cada vez mais raiva em Pappy.

\"Mudbound

Tudo isso ganha uma textura naturalista e esteticamente belíssima pelas lentes da diretora de fotografia, Rachel Morrison. Explorando ao máximo o ambiente que cerca os personagens, Morrison jamais deixa que esse beleza diminua a decadência e o isolamento representados pela fazenda dos McAllan, já que a lama, a poeira e a violência (como Laura indica em uma de suas narrações) são parte intrínseca daquele pedaço do Mississipi. Isso também é mérito dos figurinos criados por Michael T. Boyd e do design de produção liderado por David J. Bomba — além de recriarem com perfeição os anos 40 no Sul dos Estados Unidos, ambos os departamentos ainda acompanham com louvor a trajetória dos personagens naquele meio.

Enquanto isso, Dee Rees e seu co-roteirista Virgil Williams abraçam as origens literária de Mudbound ao atribuírem longas narrações para diversos personagens, o que ajuda também a transformar todos eles em figuras multidimensionais. O tom literário do roteiro traz poesia e humanidade à obra (\”Eu segurei a batida do coração dele em minhas mãos\”), ajudando-a a assumir seu caráter épico — e é mérito do excelente trabalho da dupla o fato de que as narrações jamais limitam-se a simplesmente descrever o que já estamos vendo na tela, como frequentemente acontece, ou remetam ao livro não por uma decisão de linguagem, mas por falta de inspiração dos realizadores para fazer diferença.

Mas Mudbound também deve muito a seu elenco, que faz um trabalho homogeneamente impecável. Jason Mitchell destaca-se com seu Ronsel, provavelmente o papel mais complexo e desafiador do longa, e também pela química que estabelece com Garrett Hedlund — que, por sua vez, abraça todas as facetas de um personagem que, ao longo dos anos, transforma-se de mulherengo charmoso a soldado repleto de conflitos internos. Carey Mulligan e Mary J. Blige também são figuras de destaque na obra. Mulligan faz um trabalho sensível e perspicaz ao deixar transparecer as faíscas de força e autonomia de sua personagem, que, na maior parte do tempo, esconde-as em favor de uma harmonia tênue com seu marido. Já Mary J. Blige (cuja poderosa voz pode ser ouvida na bela canção que toca durante os créditos finais), em seu primeiro trabalho como atriz, tem nas mãos a personagem mais tocante da produção, fazendo de Florence uma mãe devotada e capaz de tudo por seus filhos — e que é capaz de emocionar apenas por meio de seus gestos tímidos e de seu sorriso sincero ao aceitar a barra de chocolates que ganha do filho.

Assim, Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi demonstra a complexidade e a inteligência necessárias para retratar um conflito de raças cujas sequelas são percebidas até hoje. Dee Rees criou um épico sobre o Sul norte-americano durante e após a Segunda Guerra repleto de sutilezas, pequenos momentos fundamentais entre seus personagens e acontecimentos grandiosos — e, além da força da narrativa, a obra ainda conta com uma equipe técnica e com um elenco irretocáveis.


\”Mudbound\” (EUA, 2017), escrito por Dee Rees e Virgil Williams a partir do livro de Hillary Jordan, com Jason Mitchell, Carey Mulligan, Garrett Hedlund, Mary J. Blige, Rob Morgan, Jason Clarke, Jonathan Banks, Kerry Cahill, Kelvin Harrison Jr., Dylan Arnold, Lucy Faust, Kennedy Derosin, Frankie Smith e Joshua J. Williams.


Trailer – Mudbound: Lagrima Sobre o Mississipi

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