Mormaço | O gosto amargo de um legado


Mormaço tem a cara da ficção do documentário Favela Olímpica. Ambos são sobre as consequências das Olimpíadas no panorama da desigual cidade do Rio de Janeiro. E ambos chegam atrasados aos cinemas, mas felizmente (ou infelizmente) sem perder a atualidade.

O tema escolhido pela diretora Marina Meliande lembra muito o que o cineasta Kleber Mendonça Filho discute em seus filmes sobre o sistema opressivo do poder que esmaga as relações sociais e desencadeia uma degradação lenta, mas fatal, da sociedade como um todo. Porém, a visão que Marina nos traz se distancia de O Som ao Redor ou Aquarius (para citar trabalhos de Mendonça) porque ela traz um nível de humanidade que se materializa no problema principal, conseguindo assim um poder de síntese admirável.

Além disso, e muito satisfatório constatar que o que temos no final está ancorado com os símbolos do começo quando vemos uma visão micro do que nos espera. Uma formiga carrega outra visivelmente seca. O musgo ao lado de uma queda d’água se expande. Em corte abrupto avistamos o Pão de Açúcar. Uma ponte explode. A fumaça da explosão se apresenta de diferentes formas, todas cobrindo seus cidadãos pela cidade.

O palco desse tenso drama com leves toques sobrenaturais (ou metafísicos) é a cidade do Rio de Janeiro, uma vez maravilhosa, mas que hoje vive uma decadência trágica causada por crise econômica, especulação imobiliária e o consequente caos urbano. E o pilar humano dessa história pertence a Ana, que trabalha na defensoria pública e luta pelos moradores da Vila Autódromo, um bairro de moradores de mais de quarenta anos e que agora está sendo desapropriado pela prefeitura para a construção de empreendimentos relacionados às Olimpíadas.

Além do mais, Ana mora em um prédio tradicional de classe média que também está em risco de ser substituído por outro empreendimento corporativo, e se relaciona com o engenheiro responsável por avaliar os apartamentos. E isso é apenas a ponta do iceberg de um filme que realiza conexões narrativas e temáticas de uma maneira tão simples que parece fácil, mas é fruto de um trabalho monstruoso de edição e direção.

Os roteiristas Felipe Bragança e Marina Meliande não conseguem traduzir exatamente em palavras o que querem dizer, mas isso torna o visual do filme muito mais importante, o que é ótimo porque nesse aspecto o trabalho conduzido por Meliande arrebenta em seus conceitos. Além disso, vários de seus diálogos e frases no filme querem dizer mais do que simplesmente sua primeira camada. Por exemplo, ao lado da construção de um estádio para o grande evento da cidade está escrito: “As Olimpíadas deixam muito mais para o Rio”. E algo que supostamente era para ser positivo, nós sabemos graças ao tom angustiante do longa, está longe de o ser.

Suportado por um trabalho de maquiagem e direção de arte impecáveis, é recompensador observar a perda gradativa de luz e cores nos ambientes (como o aumento de folhas mortas) que vamos nos acostumando conforme acompanhamos a rotina desgastante de Ana, que sofre de uma doença desconhecida com fundo psicológico que a faz sentir um calor acima do normal para quem mora no Rio e que começa a ser afetada fisicamente por isso.

Aliás, a escolha de Marina Provenzzano como Ana é igualmente um símbolo. De pele clara e significando pureza, sua personagem aos poucos vai sofrendo o peso de ser uma mártir em uma cidade que a está esmagando por todos os lados, lentamente. Provenzzano cria então uma Ana corajosa, mas que está perdendo o rumo de suas ações. E o filme a utiliza como o símbolo final, para satisfação dos espectadores do Cinema que ultrapassa alguns limites da realidade para ascender como algo que não nos esqueceremos tão cedo.


“Mormaço” (Brasil, 2018), escrito por Felipe Bragança e Marina Meliande, dirigido por Marina Meliande, com Marina Provenzzano, Sandra Maria, Pedro Gracindo.


Trailer do Filme – Mormaço

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