Mogli: Entre Dois Mundos | Realmente desnecessário


Não é difícil entender porque Mogli: Entre Dois Mundos surgiu direto em sua plataforma de streaming preferida. Mesmo com o “selo” da Warner abrindo o filme e um elenco de vozes para lá de interessante, o que surge disso tudo é uma bagunça que se permite ser desnecessária até o último animal falante.

O filme “nasceu” para ser lançado em 2016, junto com a versão “live action” de Mogli – O Menino Lobo, feita pela Disney e dirigida por John Favreau. Esse, por sua vez, fez um sucesso gigantesco o suficiente (chegou perto de US$ 1 bilhão de lucro) para garantir versões com atores reais de mais um punhado de animações da Disney nos próximos anos.

Já o Mogli da Warner, além de passar pela mão de alguns diretores antes de cair no colo de Andy “Gollum” Serkis, prometia uma versão mais “adulta e violenta” do livro escrito por Rudyard Kipling em 1894. Nele, um garotinho órfão é criado por uma alcateia de lobos, uma pantera e um urso. Com eles, Mogli aprende as “Leis da Selva” e, mais tarde, precisa enfrentar a fúria do tigre que pretende dominar a floresta.

Nos contos de Kipling, Mogli já convivia com animais falantes e levemente “antropormofizados”, o que, obviamente, torna aquele versão de 1996 dirigida por Stephen Sommers, algo desde a raiz ainda mais desnecessária (sem contar que ela tinha até um Mogli adulto, com descendência meio havaiana, meio chinesa). Para a sorte de todos, esse novo Mogli nem chega perto desse monte de equívocos. Ainda que cometa outros.

E talvez de todos eles, não conseguir criar animais falantes suficientemente verossímeis seja o maior deles, por mais que essa frase soe estranha. A verdade é que, se você quer ver um animal que fala, não quer que ele tenha as mesmas soluções visuais que os animadores da Disney já tiveram. Esse novo Mogli permite que seus personagens sejam quase versões distorcidas e exageradas do que você conhece na vida real. Parece complicado, mas não é.

Se você sabe como é o Baloo da animação de 1967 (ou qualquer urso falante da história dos desenhos), aceita de imediato a caricatura, afinal estamos falando da versão criada por um artista de um urso falante. Já quando a ideia é sua versão “live action” (não é “live”, pois é uma animação, mas acho que você vai entender), você imagina que, o que estará ali na sua frente será um “urso de verdade”, mas que fala.

O Mogli da Warner está mais próximo do desenho dos anos 60, do que a própria versão de dois anos atrás, feita pela própria Disney, sabia que seria perigoso estar. Portanto, cada vez que um bicho abre a boca você é automaticamente arrancado de dentro do filme (quando não dá risada). Isso fica pior ainda quando algumas falhas horrorosas de contraste e textura parecem destacar os personagens dos fundos (que também parecem terem sido feitos através de CGI).

Resumindo, tudo parece artificial em um filme que tinha como premissa principal uma história “mais real”. E talvez seja essa pretensão de ser “real” e “diferentão” que afunde mais ainda esse Mogli. Ainda que sua história faça sentido e vá até bem perto do livro original (em alguns momentos até mais perto do que a versão da Disney), o roteiro escrito por Callie Kloves não consegue entender o cerne da própria história.

O Livro da Selva é sobre uma jornada contada através de uma série de pequenos contos que mais parecem fábulas, Mogli chega ao ponto de fazer o personagem lidar com uma vingança contra os seres humanos (ou seria só contra os ingleses…) e sua maldade (o que no caso da relação India X Grã Bretanha, faria sentido). De qualquer jeito, assim como o filme de 1994, Mogli está muito mais preocupado com a oportunidade de algumas cenas de ação interessantes, o que é pouco, principalmente diante de uma história tão sensível.

Isso tudo fica óbvio desde o começo, talvez tivesse então ficado mais claro até no roteiro ou em qualquer fase da pré-produção, o que, com certeza, levou a Warner a “sacrificar” uma produção com “pinta de cara” levando-a “direto para a TV” e bem longe da versão da Disney. O que nos leva a crer que se a Warner errou na hora de começar a produzir esse filme, mesmo, obviamente, sem a capacidade de fazê-lo funcionar, pelo menos acertou quando tentou escondê-lo dos cinemas, já que na tela grande, grandes desastres ficam maiores ainda.


“Mowgli” (UK/EUA, 2018), escrito por Callie Kloves, à partir do livro de Rudyard Kipling, com Rohan Chand, Freida Pinto e Matthew Rhys, com vozes de Christan Bale, Cate Blachett, Benedict Cumberbach, Naomi Harris, Andy Serkis e Peter Mullan.


Trailer – Mogli: Entre Dois Mundos

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