A cada nova produção, a Disney leva mais longe a modernização de suas princesas. Depois de uma série de figuras independentes e complexas que ainda tinham o romance como centro de sua história, passamos a conhecer personagens como Mulan, Pocahontas, Tiana, Merida, Anna e a rainha Elsa. As três últimas, entretanto, representam a libertação total da necessidade de um personagem masculino (o romance de Anna e Kristoff está longe de ser a prioridade da narrativa). Além disso, é significativo a maneira com que outras personagens femininas, além das protagonistas, passam a ganhar mais espaço nas tramas e a afastar-se do papel de antagonistas. Assim, Moana: Um Mar de Aventuras nos apresenta à fascinante personagem-título, indiscutivelmente a heroína de sua própria história, e ainda se orgulha de sua inspiração nas lendas e na cultura polinésias.

Desde criança, Moana é atraída pelo mar e pela imensidão além dos recifes que cercam a ilha de Motunui, governada por seu pai, o Chefe Tui. Entretanto, ele proíbe a garota de aproximar-se da água, pois a navegação além dos recifes é terminantemente proibida na ilha. Além disso, o papel de Moana é permanecer em Motunui e preparar-se para suceder Tui como líder de seu povo. Mas os anos passam, e Moana continua tendo dificuldades em resistir à atração exercida pelo mar — algo que apenas sua avó, Tala (que, como a própria declara com orgulho, é considerada “a louca da vila”) parece entender.

Até que os efeitos de algo ocorrido há um milênio finalmente alcançam Motunui. Segundo uma lenda que Moana escuta de sua avó desde pequena, a pedra que é o coração da deusa Te Fiti foi roubada pelo semideus Maui. Entretanto, durante sua escapada, Maui foi atacado pelo demônio da lava, Te Kā. Consequentemente, o semideus perdeu seu anzol mágico e a pedra sumiu no mar, fazendo com que a ilha de Te Fiti fosse tomada por uma destruição que se espalhou pelo oceano e, agora, chegou até à ilha de Moana. A garota recebe do próprio mar o coração da deusa e, então, decide partir em busca de Maui, com o objetivo de forçá-lo a devolver a pedra para Te Fiti.

Mas o que acontece é que, efetivamente, Maui torna-se o sidekick de Moana. Inicialmente relutante a acompanhá-la e disposto a sabotar a missão, o semideus precisa das palavras encorajadoras da garota para reencontrar sua força. Como mentor, Maui atua mais no sentido de ensinar Moana a virar-se no mar e a encontrar seu caminho pelas águas, enquanto a avó da garota providencia a inspiração e a orientação emocionais Afinal, Moana está em uma jornada de autodescobrimento e afirmação, algo que ainda soa original para as protagonistas femininas da Disney.

Moana Crítica

Assim, embalado por uma excelente trilha sonora assinada pelo samoano Opetaia Foa’i, por Lin-Manuel Miranda (responsável pelo musical “Hamilton”, fenômeno da Broadway) e por Mark Mancina, Moana: Um Mar de Aventuras é colorido pela riqueza da cultura e da história da Polinésia, cuja influência alcança a música, as coreografias e, é claro, a caracterização dos personagens. Um dos momentos mais divertidos, por exemplo, é o número “You’re Welcome”, que traz Maui e Moana interagindo com um outro estilo de animação. Consequentemente, isso evidencia a conhecida — mas ainda fascinante, é claro — qualidade da Disney. Se a água exibe uma fluidez impecável, os movimentos e expressões faciais dos personagens jamais deixam de encantar, assim como a incrível variedade da animação dos longos cabelos ondulados de Moana e Maui de acordo com a interação dos fios com a água e com o vento.

Ainda quanto à modernização das princesas, é interessante perceber como a própria Disney reconhece (e brinca) quanto a sua responsabilidade no estabelecimento de convenções. Aqui, por exemplo, o roteirista Jared Bush distancia Moana desses clichês ao trazê-la rejeitando veementemente o título de princesa — que, segundo Maui, ela merece por “estar de vestido e ter um bichinho”. Aliás, outra reformulação proporcionada por esta obra é a do pai superprotetor em relação à filha: a intenção de Tui não é manter a garota em uma bolha por considerá-la frágil e incapaz, mas sim transmitir a ela a importância de manter-se na ilha para, como líder, priorizar seu povo.

Por falar no “bichinho” de Moana, as gags envolvendo o galo Heihei jamais deixam de fazer rir, exemplificando o senso de humor eficiente do longa. E, ao contrário de seus antecedentes engraçadinhos, Heihei é o primeiro companheiro animal de uma princesa a ser apenas patético, mais uma vez afastando Moana das protagonistas tradicionais do estúdio. Outra tendência de Frozen seguida por Moana, por outro lado, é a de reestruturar o tratamento de seus antagonistas, preferindo a redenção em favor da destruição.

Tudo isso nos leva a uma das cenas mais heroicas da história da Disney, tornada ainda mais forte pelo fato de ser centrada em uma princesa, e que traz Moana com o mar afastando-se ao seu redor enquanto a garota aguarda que outro alguém venha ao seu encontro. É um momento repleto de força, compreensão e poder, cementando a evolução constante da narrativa do estúdio em relação a suas protagonistas.

E que venham mais princesas corajosas, engenhosas, espertas e independentes como Moana.


“Moana” (EUA, 2016), escrito por Jared Bush, dirigido por Ron Clements e John Musker, com as vozes (no original) de Auli’i Cravalho, Dwayne Johnson, Rachel House, Temuera Morrison, Jemaine Clement, Nicole Scherzinger e Alan Tudyk.


Trailer: Moana – Um Mar de Aventuras

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