Missão no Mar Vermelho | A história é incrível, o filme é chato


Talvez esteja começando a surgir um problema recorrente nas produções da Netflix: A liberdade criativa. Qualquer um com pulso mais firme em Hollywood iria fazer com que Missão no Mar Vermelho voltasse para a mesa do roteirista com um grande “arrume o 2° ato!” riscado bem na primeira página.

Falei em recorrência, já que quase todas produções que não são assinadas por grandes nomes da indústria e surgem no catálogo da Netflix parecem estar tendo o mesmo problema. Um meio um pouco longo demais, mesmo que nele não aconteça muita coisa a não ser desenvolver seus personagens e não sua trama. Pode parecer absurdo o que eu estou dizendo, mas não é.

Missão no Mar Vermelho tem uma premissa das mais interessantes, umas daquelas histórias reais tão fantásticas que vencem qualquer tipo de ficção. No caso, uma equipe do Mossad que arrumou um jeito no mínimo criativo de resgatar judeus do Sudão quando um novo governo começou a massacrá-los. Para isso, arrendaram um resort de mergulho como fachada e transportaram os refugiados através do mar.

Um pouco longo demais e dirigido pelo experiente nas séries de TV, Gideon Raff (que também escreve), Missão no Mar Vermelho tem como “cartão de visita” a presença de Chris Evans encarando agora uma espécie de “Capitão Israel”, já que o personagem parece fazer tudo sozinho, resolver todos problemas, sair de qualquer cilada, permanecer vivo e ainda estar sempre com o cabelo muito bem arrumado. E aí talvez resida aquele problema de uns parágrafos atrás.

Por mais que Raff tenha a intenção de fazer essa espécie de Argo com “alguns homens e alguns segredos”, com uma equipe sendo formada com introduções divertidinhas, mesmo que, quando a história realmente começa, nenhum deles parece servir para muita coisa e seus estereótipos são tão mal-usados que é difícil chegar no filme entendendo qual a especialidade de cada um. O desperdício é ainda maior quando você tem no elenco o incrível Michael Kenneth Williams (das série The Wire e Olhos que Condenam) e não aproveite nem a ponta de seu potencial.

Tudo isso, justamente, por causa de um 2° ato aonde nada dá errado. Onde um vilão decente não se apresenta, nem um problema rodeia essa missão perfeita ou até qualquer tipo de conflito entre os personagens empurra a trama para algum lugar que não seja o óbvio. Quando tudo dá errado para abrir os trabalhos do 3° ato, ninguém mais está acordado e interessado naquela história.

Raff perde tempo demais mostrando o quanto tudo está dando certo, depois de dar certo no começo e, obviamente, vir a dar certo no fim. Praticamente o pior veneno para um suspense: se você não acha que nada pode dar errado, para que continuar vendo o filme?

O que faz ser impossível não se incomodar com incrível diferença entre os brancos que vão salvar os negros sudaneses e a incompetência e corrupção dos vilões, que simplesmente tem várias oportunidades de desconfiarem das desculpas e intenções daqueles judeus bonitões explorando um resort destruído. E lógico, não esqueça que, no final das contas, os americanos salvam todos. E se você acha que isso é um spoiler, devia ver mais filmes, já que os Estados Unidos sempre salvam todo mundo no final.

É lógico que a história por trás de Missão no Mar Vermelho é um daqueles casos que não podem ficar sem serem contados, mas talvez, do jeito que Gideon Raff escolhe, junto de uma problemática “liberdade criativa” da Netflix, cria um filme sem autocrítica. Que não enxerga o quanto é chato, longo e descontroladamente refém daquele famoso complexo do “Salvador Branco”. Infelizmente não uma história sobre os sobreviventes, que com certeza seria muito mais interessante.


“The Red Sea Diving Resort” (Can/EUA, 2019), escrito e dirigido por Gideon Raff, com Chris Evans, Greg Kinnear, Bem Kingsley, Michiel Huisman, Alex Hassell, Haley Bennett, Alessandro Nivola e Michael Kenneth Williams.


Trailer do Filme – Missão Mar Vermelho

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