por Vinicius Carlos Vieira em 27 de Novembro de 2010

Mesmo com o título com jeitão de comédia, “Minhas Mães e Meu Pai” passa longe disso, a propósito, tampouco de um drama, e talvez seja isso o que mais chame a atenção desse novo filme de Lisa Chodolenko: essa simplicidade de apenas tentar contar uma história sincera, muito mais sobre personagens do que sobre situações.

É lógica que elas estão lá, principalmente para dar partida na trama sobre esse casal de lésbicas que, aos dezoito anos de sua filha mais velha (Mia Wasikowska, que fez a “Alice” de Tim Burton), passam a ter que, forçadamente, conviver com o pai biológico de seus filhos, concebidos, na verdade, por uma doação de esperma. Mas depois que as peças estão no tabuleiro, a diretora faz mais é questão de apenas olhar para seus personagens e toda essa dificuldade que é ser uma família, independente de raça, cor, credo ou, nesse caso, opção sexual.

Chodolenko não tem medo de amplificar essa discussão ao usar a homossexualidade de suas personagens como ponto de partida, mesmo tomando um enorme cuidado para não deslizar para um simples filme gay. Mesmo que sua trama não existisse se de modo heterossexual, a impressão que fica é que, na maioria do tempo, isso verdadeiramente pouco importa. Como se no começo, acompanhando o filho mais novo (Josh Hutterson), olhando para o amigo brincando com o pai, seus olhos não vissem aquilo com ciúmes, admiração ou inveja, apenas com normalidade, até por que a diretora faz questão de continuar apresentando-o de modo corriqueiro, com a mãe esperando em casa (Julianne Moore) e tudo mais, até a chegada da outra mãe (Annete Bening), o que pode parecer um modo de tentar surpreender seu espectador, mas que é logo jogado por terra quando o que a diretora faz é optar por uma família com dinâmica familiar e só.

O resto do tempo o interesse da diretora e ver esse quarteto de personagens serem abalado pela chegada do pai biológico (Mark Ruffallo), não de modo dramático, mas sim verdadeiro. Chodolenko tem a sensibilidade de não traçar uma trama mirabolante e muito menos uma repleta de reviravoltas. É graças a essa dinâmica dos momentos iniciais, que seu público parece ter certeza de como cada personagem vai reagir àquela quebra do status quo, por mais que, vez ou outra, alguns dos caminhos tomem rumos, não inesperados, mas simplesmente coerentes demais para a ficção.

E é isso mesmo que a diretor e roteirista faz de melhor: tomar o caminho mais correto, mesmo que tenha de fugir para longe daquele lugar confortável onde o cinema cada vez mais se perde. Do mesmo jeito que, logo de cara, ela tem a enorme preocupação de delinear perfeitamente cada filho como “a cara” de uma das mães, e até por um segundo fingir inverter tudo isso durante sua trama, mas no fim das contas apostando sim, é nesse conforto com que o espectador tem ao sentar ali, com aqueles personagens, que a possibilita deixar sua história pegar esse caminho, que, em nenhum segundo finge ser nada senão aquilo mesmo, a história dessa família.

Tudo só funciona de modo azeitado por Chodolenko não se esconder por trás de nenhum tipo de hipocrisia, é lógico que ela está mais preocupada com o casal e seus filhos, pois são eles que interessam em sua história, mas tem o discernimento de não olhar para o outro lado com desdém. É impossível não se importar e não simpatizar com o pai biológico, que a cada momento que passa vai se mostrando mais e mais o elemento fragilizado de toda essa equação, sempre disposto a fazer o bem para quem está ao seu redor, talvez até para preencher o próprio vazio que descobre ter ao ver aquela família e perceber que, mesmo biologicamente responsável, não pertence a ela. Sua presença, que podia deslizar para um melodrama, permite sim é que se perceba que, aquela família não precisa de uma figura paterna, mas sim da sinceridade de poderem se olhar por trás daquela casca de “família média suburbana”.

Tudo isso até acaba não deixando com que sua estrutura consiga escapar de um engessamento burocrático onde o espectador, logo de cara, vai adivinhar onde tudo aquilo vá dar, mas graças a um trabalho impecável da diretora na hora de levar sua história, toda essa mesmice passa despercebida, ainda mais quando o elenco afinadíssimo não perde uma cena para fazer o faz de melhor.

Começando pelo menino Hutterson, que vem fazendo um trabalho cada vez melhor desde o pequeno, porém simpaticíssimo, “ABC do Amor” (e que parece ser uma daquelas potenciais estrelas à postos para seu grande sucesso), e aqui mostra uma segurança realmente impressionante. Até Ruffallo, que geralmente não consegue sair de seu estereótipo (cara bacana, meio desleixado, porem cheio de amor), pelo menos se esforça para exprimir uma certa naturalidade dentro de seu personagem, por mais que seja difícil acreditar nos momento em que ele tenta exalar um certo charme que simplesmente não parece caber naquela figura, ainda que nada disso interesse, já que, sem sombra de dúvidas, as estrelas do filme são o casal formado por Moore e Benning.

Não só pela trama, mas muito mais que isso até, pela entrega com que as duas entram em suas personagens, sem em nenhum momento cair nos atalhos que um casal de lésbicas se permitiria ter no cinema. Por mais que Bening tome a ponta no relacionamento como a esposa controladora, médica e bem sucedida, enquanto Moore fique à sua sombra, sonhadora e emocional, é graças a enorme habilidade das duas que é fácil perder essas referencias durante todo resto do filme, não só por um roteiro que a todo tempo se preocupa em “brincar” com essa inversão, mas sim por ambas terem seus personagens de forma tão profunda, que nenhuma ação parece saída à esmo.

“Minhas Mães e Meu Pai” é tudo isso mesmo, um filme sincero sobre uma família que tem que enfrentar um problema que já existia, mas só com a presença do pai biológico que eles percebem isso, uma história que poderia se perder em drama, mas resolve ser extremamente leve, que por cima de tudo isso deixa escapar um riso natural e um respeito enorme, tanto por sua trama, quanto por seus personagens e, por fim, por seu público, que ganha um filme inesquecível e que ainda vai dar muito o que falar quando chegarem as premiações no começo do ano que vem.

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The Kids are All Right (EUA, 2010), escrito por Lisa Chodolenko e Stuart Blumberg, dirigido por Lisa Chodolenko, com Julianne Moore, Annette Bening, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska e Josh Hutcherson

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