Um ano cheio de significado, que olha para a ficção científica como ela deve ser, dizendo algo e criando a surpresa. Assim como não foge de encarar o mundo atual seja na pele de uma mulher lutando pela sua própria casa, seja por um homem com um sonho, seja por duas mulheres em busca do amor.

Sem medo de esfregar na cara de todos as podridões de uma sistema arcaico ou simplesmente olhar para alguns séculos atrás e tentar entender o quanto é aterrorizante a ignorância. Sem contar, é claro, mais um ano de Star Wars.

Confira a lista de melhores filmes de 2016 da crítica Mariana González.

1 – A Chegada (“The Arrival”, direção: Denis Villeneuve) 

A Chegada

Quando o sci-fi é aproveitado em todo o seu potencial, não há gênero como ele. Assim, foi um prazer constatar que, pelo terceiro ano consecutivo, meu filme preferido do ano se encaixa aqui (depois de Sob a Pele em 2014 e Perdido em Marte em 2015).

A Chegada apresenta o melhor lado da humanidade, exaltando a importância da empatia, da compreensão, do conhecimento e da curiosidade. Carregado por uma performance sublime da sempre excelente Amy Adams, o longa oficializa Dennis Villeneuve como um dos melhores e mais interessantes diretores de sua geração, enquanto o roteirista Eric Heisserer faz um trabalho magnífico ao adaptar o igualmente inesquecível conto Story of Your Life, de Ted Chang.

Mas, é claro, A Chegada é também profundamente pessoal. Até onde estamos dispostos a ir por algo belíssimo que irá, inevitavelmente, chegar ao fim e machucar? Muito longe. E como poderia ser de outro jeito? Nos entregarmos e sofrermos também faz parte da essência dos seres humanos. A Chegada entende isso, utilizando a montagem de maneira impecável para subverter as expectativas do espectador e, assim, estabelecendo-se como uma obra-prima que enriquece ainda mais em visitas subsequentes. CONFIRA A CRÍTICA

2 – Carol (“Carol”, direção: Todd Haynes)

Carol

Em Carol, o diretor Todd Haynes e a roteirista Phyllis Nagy levam o excelente livro homônimo de Patricia Highsmith para a sétima arte.

Aqui, cada elemento que compõem o cinema se encaixa com perfeição para contar a bela história de Therese e Carol. A câmera se movimenta com sutileza e cuidado, enquanto a fotografia e o design de produção recriam com perfeição a atmosfera da Nova York dos anos 50.

A excelência técnica é utilizada em prol de uma história intimista e ainda relevante. Rooney Mara e Cate Blanchett oferecem performances complementares: Mara constrói Therese com uma força quieta, acompanhando o amadurecimento da protagonista conforme ela se envolve cada vez mais com a personagem-título, vivida por Blanchett com uma autoconfiança controlada para esconder suas inseguranças. Dessa maneira, Haynes deixa as duas personagens ditarem o ritmo do filme, que encerra de maneira certeira.

Os Oito Odiados (“The Hatefull Eight”, direção: Quentin Tarantino)

Os Oitos Odiados

E Não Sobrou Nenhum encontra O Enigma de Outro Mundo de forma irreverente, surpreendente e com o humor deliciosamente violento de Quentin Tarantino. Os Oito Odiados também revela-se um retrato complexo das relações raciais nos Estados Unidos, e tudo isso é trazido à vida nas mãos de um elenco talentoso e em sua melhor forma.

Tarantino e o diretor de fotografia Robert Richardson tomam a decisão ousada de rodar este que é basicamente um filme de câmara (ambientado em um único ambiente, ou seja, a cabana) em 70mm e com uma razão de aspecto de 2.76:1, características normalmente pensadas para cenários de grandes proporções. Isso transforma a tal cabana no meio do nada em um local ainda mais claustrofóbico, enquanto permite a construção de diferentes “cômodos” ali dentro.

É admirável a forma com que Tarantino consegue surpreender e impressionar através de elementos tão familiares para seu público, pois o cineasta sempre emprega sua ambição e paixão pelo cinema para entregar, também, novidades. Assim, Os Oito Odiados voa por suas mais de três horas de duração, oferecendo um verdadeiro espetáculo audiovisual. CONFIRA A CRÍTICA

Boi Neon (“Boi Neon”, direção: Gabriel Mascaro)

Boi Neon

Quanto ao cinema brasileiro, o ano foi, sem dúvida alguma, de Aquarius (que aparecerá logo mais nesta lista). Entretanto, o longa nacional que mais me marcou este ano foi definitivamente Boi Neon e seu retrato melancólico e poético dos sonhos impossíveis de Iremar, um vaqueiro de curral que viaja pelo Nordeste a trabalho enquanto tenta tornar realidade suas ambições de ser estilista.

A direção certeira de Gabriel Mascaro e a fotografia fabulosa de Diego Garcia retratam o Nordeste e os personagens da mesma maneira que o roteiro, também assinado por Mascaro: desconstruindo estereótipos e oferecendo novos olhares. Assim, a aridez da região ganham luzes delicadas e cores vibrantes, enquanto Iremar e Júnior desafiam os clichês da masculinidade, Galega não tem sua feminilidade diminuída por ser uma caminhoneira independente, e uma mulher grávida protagoniza uma das mais belas cenas de sexo do cinema recente.

Assim, sem um arco narrativo definido, Boi Neon simplesmente acompanha essas pessoas por seu universo opressor e sem esperança. Elas encontram formas de escapar temporariamente, mas permanecem acorrentadas, como ilustra com perfeição o plano que traz a pequena Cacá erguendo seu brinquedo de um cavalo alado e brilhante sobre os bois presos em um curral.

5 – Animais Noturnos (“Nocturnal Animals”, direção: Tom Ford)

Animais Noturnos

Sete anos depois do ótimo Direito de Amar, o estilista Tom Ford retorna como cineasta em Animais Noturnos, escrito e dirigido por ele a partir do livro Tony & Susan, de Austin Wright.

Acompanhamos três tramas: o presente, quando Susan, em um período complicado de sua vida, recebe um manuscrito do ex-marido dedicado a ela; o passado desse casal; e a história do próprio manuscrito. Assim, Ford nos apresenta a personagens profundamente tristes e desesperados, que carregam o peso de suas decepções e perdas.

Cada plano de Animais Noturnos é construído com perfeição, enquanto a montadora Joan Sobel dá ritmo à intersecção das três tramas através de belas rimas visuais e o diretor de fotografia de Seamus McGarve acertadamente mergulha os personagens com frequência na escuridão. Uma obra pesada, envolvente e marcante, que confia em sua audiência e não escolhe caminhos fáceis. CONFIRA A CRÍTICA

6 – Aquarius (“Aquarius”, direção: Kleber Mendonça Filho)

Aquarius

Atual joia do cinema nacional, Aquarius conquistou os maiores festivais, apareceu em diversas listas de melhores do ano de respeitadas publicações mundo afora e conquistou as plateias de vários países. Infelizmente, o memorável longa de Kleber Mendonça Filho teve o freio de uma possível indicação ao Oscar puxado por um “governo” covarde.

Isso, é claro, só comprova sua relevância social e o poder provocador da cultura. Afinal, Aquarius é um retrato afiado de nossa atual situação política, enquanto atua também como estudo de personagem da inesquecível Clara, vivida pela inesquecível Sônia BragaCONFIRA A CRÍTICA

7 – A Bruxa (“The Witch: A New-England Folktale”, direção: Robert Eggers)

A Bruxa

Perturbador, bizarro, evocativo, assustador, provocador, perverso. A Bruxa é o primeiro longa-metragem escrito e dirigido por Robert Eggers, que se mostra seguro e ambicioso ao contar uma história sobre a mais pura maldade no ambiente opressor e fanático da Nova Inglaterra de 1630.

Através de diálogos falados no dialeto da época, muitos retirados diretamente de documentos e relatos legítimos, A Bruxa também atua como discussão sobre o pecado associado ao amadurecimento feminino, que rendeu uma coluna Cinema Sem Y sobre o assunto.

Sem sustos gratuitos, A Bruxa envolve e aterroriza o espectador ao criar uma atmosfera sufocante e incômoda, efeito alcançado através de elementos bizarros que não ganham explicação, de uma trilha sonora que se estende por alguns segundos além do confortável, de uma fotografia abusando da escuridão e da neblina e do fanatismo religioso da família central. Um exemplo perfeito de o quão longe o terror pode ir enquanto gênero. CONFIRA A CRÍTICA

8 – Rogue One: Uma História Star Wars (“Rogue One”, direção: Gareth Edwards)

Rogue One

O mundo está um caos, mas como é bom viver em uma época em que temos o prazer de ter um novo Star Wars por ano. Afinal, tanto O Despertar da Força quanto este Rogue One são produções que entendem e celebram as melhores qualidades da franquia, algo especialmente destacado nesta que é a primeira das “Histórias Star Wars”, que não fazem parte da trilogia principal.

E o diretor Gareth Edwards definitivamente aproveita ao máximo a oportunidade de fazer um filme de Star Wars que tem a liberdade de fugir das convenções da saga e, inclusive, brinca com isso de forma irreverente e divertida. Rogue One tem personalidade própria ao mesmo tempo em que contém o espírito de franquia, estabelecendo-se como um filme tenso e envolvente sobre empatia, coragem e esperança.

Jyn Erso é uma protagonista ousada para a saga, mais próxima de Han Solo do que de Luke Skywalker. Seus companheiros de revolução são igualmente interessantes, formando um grupo de personagens carismáticos e complexos. Aliás, merece destaque o fato de termos, aqui, uma mulher no centro de um grupo que contém apenas homen não-caucasianos, incluindo Diego Luna com seu sotaque assumidamente mexicano e Donnie Yen como reconhecimento às temáticas asiáticas utilizadas pela saga. CONFIRA A CRÍTICA

9 – Spotlight: Segredos Revelados (“Spotlight”, direção: Tom McCarthy)

Spotilight

Quase um ano depois de sua vitória no prêmio principal do Oscar de 2016, Spotlight mostra-se ainda mais relevante. A mídia tradicional vem se revelando cada vez mais vazia de conteúdo importante, a internet permanece o antro das notícias falsas compartilhadas indiscriminadamente e muitos “jornalistas” insistem em fechar os olhos para sua responsabilidade social e política de informar a população.

Já em Spotlight, acompanhamos um admirável grupo de jornalistas que mergulha fundo para desvendar uma história perturbadora, mostrando exatamente o que o jornalismo deveria – e pode – ser. Conduzido com sutileza pelo diretor Thomas McCarthy, Spotlight pode ter sua elegância confundida com falta de ambição, mas utiliza sua linguagem direta para abordar seu tema com clareza e sem precisar recorrer a imagens gráficas ou arroubos de emoção, por exemplo.

Em sua conclusão, Spotlight apresenta uma lista de todas as cidades em que foram descobertos casos de pedofolia envolvendo integrantes da Igreja Católica. Com isso, o filme envolve diretamente o espectador ao escancarar os horrores que se escondem sob a superfície da sociedade. E, atualmente, incentivar o engajamento e a empatia são mensagens que devem ser repetidas e repetidas o máximo possível. CONFIRA A CRÍTICA

10 – Anomalisa (“Anomalisa”, direção: Duke Johnson e Charlie Kaufmann)

Anomalisa

Se aventurando pela primeira vez pela animação, Charlie Kaufman aproveita ao máximo as possibilidades oferecidas pela técnica de criar situações impossíveis de serem desenvolvidas em um filme live-action. Assim, Anomalisa nos apresenta a um homem entediado e melancólico que, ao seu redor, encontra apenas pessoas com o mesmo rosto e a mesma voz. De repente, em um hotel, ele conhece Lisa – que, milagrosamente, tem características individuais.

A partir dessa criativa premissa, Kaufman explora a solidão e a arrogância de Michael e a ingenuidade e os ambiciosos sonhos de Lisa, que imediatamente se encantam um pelo outro e, então, embarcam em um relacionamento sensível. Sem martelar nada na cabeça do espectador, Kaufman emprega a fotografia, o design de produção e a própria animação dos personagens para acompanhar a deterioração a que esse relacionamento está fadado.

Presentando-nos com uma conclusão que torna o que vimos anteriormente ainda mais complexo e significativo, Anomalisa é uma produção peculiar sobre situações e sentimentos universais, e que permanece na mente de quem o assiste por um longo tempo. CONFIRA A CRÍTICA

Menções honrosas: Demônio de Neon; Animais Fantásticos e Onde Habitam, Invocação do Mal 2, Elle, Capitão América: Guerra Civil

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

Uma resposta

  1. Alexandre Figueiredo

    Não consigo ser fã de “Star Wars”, já tentei e não adiantou.

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