por Vinicius Carlos Vieira
por 19 de janeiro de 2018

A grande maioria dos filmes, direta ou indiretamente, são histórias de amor. Me Chame Pelo Seu Nome também, mas ele é um daqueles que estão ainda em outra categoria, dos filmes que você gostaria que fossem histórias de amor reais.

Mais que isso, Me Chame Pelo seu Nome é sobre o belo, seja uma estátua surgindo do mar, um homem, uma mulher, o mundo ao seu redor ou até, simplesmente, um sentimento. E é incrível como apenas observar aquilo que é belo pode transformar qualquer situação em um momento inesquecível.

E a câmera de Luca Guadgnino, de modo quase amador (no bom sentido), busca aquilo que é natural e se deixa levar pelos mais belos cenários que tem em mãos nesse “em algum lugar do Norte da Itália”. Não importa o lugar, são as palavras não ditas e o amor que se juntam ao silêncio desses lindos cenários para contar essa história sensível e apaixonante.

Guadgnino parece ser apenas um observador, como se estivesse de longe acompanhando essa paixão entre um garoto, Elio (Timothée Chamelet) e Oliver (Armie Hammer), um aluno americano de seu pai que vem passar algumas semanas em sua casa durante o verão de 1983.

Oliver é um típico americano clássico, loiro, alto, mais parecendo um “artista de cinema” do que qualquer coisa, com uma arrogância que acompanha desde o ovo no café da manhã, até o suco em um gole só. Um quase desprezo por tudo que não seja ele. Elio é pequeno, perdido em seus pensamentos músicas e meio sem rumo nos dias de sol que se passam. O amor não acontece como você espera. Na verdade nem nada no filme, tudo é velado, sensível e verdadeiro.

Seus personagens parecem existir realmente, suas reações são as mais verossímeis possíveis e tudo anda em um ritmo quente e letárgico, como um quente dia de sol longe de um mergulho. Me Chames Pelo Seu Nome é quente, talvez até sexy em certos momentos, mas sobre tudo isso parece suar essa vontade de simplesmente mostrar o quanto uma história de amor real pode ser verdadeira quando se afasta dos clichês de Hollywood.

Os dois protagonistas podem então serem completamente diferentes, mas suas paixões por tudo aquilo que estão vivenciando é o que inspira essa beleza. Quase como um pedido para as coisas à volta dele diminuíssem o ritmo e as longas viagens de bicicleta pelas estradas de terra não terminassem. Como a paixão pela beleza saída da água depois de alguns séculos escondida dos olhos, longa e tátil. Mas igualmente a tudo isso é a beleza de celebrar essa descoberta com um mergulho no mesmo mar que escondia essa obra de arte.

Me Chame Pelo Seu Nome Crítica

Me Chame Pelo Seu Nome é direto, Guadgnino praticamente desaparece por trás de sua câmera e leva ela consigo. Como se não quisesse atrapalhar a imersão de seu espectador nesse mundo e no relacionamento desses dois personagens.

E essa imersão não vem só do diretor , vem também dos atores, de um elenco incrivelmente verdadeiro e perdido dentro de seus personagens, por menor que sejam. É lógico que o amor vazante de Timothée Chamelet chama atenção, e enquanto você termina o filme olhando para suas lágrimas, vai ficar pensando no incrível trabalho do jovem ator americano (que você não deve lembrar, mas estava lá em Interestelar). Assim como ficará até surpreendido com a entrega de Armie Hammer, que escolhe uma opção que pode até parecer estereotipada, mas é exatamente o que dá ao personagem essa aura de beleza intocável, mas que aos poucos vai se transformando numa quase fragilidade e insegurança diante da possibilidade de uma paixão tão arrebatadora.

Ao lado deles, com muito menos tempo em tela, Michael Stuhlberg (de O Homem Sério) é quem talvez tenha o papel mais complicado, ao mesmo tempo em que é quem melhor consegue desenvolver um personagem que vive nas sobras narrativas desses dois. O pai de Elio é firme, verdadeiro e tem um olhar apaixonado por tudo, que faz você entender perfeitamente de onde vem a paixão do protagonista.

E talvez seja dele o momento mais importante e sensível de Me Chame Pelo Seu Nome, uma conversa com o filho que, muito provavelmente, será lembrado por muitos como a coisa mais sensível, pura e verdadeira que você verá no cinema no ano. Durante as linhas desse quase monólogo, o pai o lembra do quanto é importante não esquecer suas experiências, ainda que elas precisem ser escondidas, já que elas devem ser vividas e aproveitadas.

Talvez um pouco como o filme de Luca Guadgnino, que não deve ser esquecido, mas sim sentido e apreciado. E mesmo que o apito do trem lhe acorde para a realidade de que tudo tem um fim, assim como ele faz com Oliver, é bom que você tenha vivido esses momentos com esses personagens.

Me Chame Pelo Seu Nome é então um filme sobre um estarrecedor primeiro amor que pode até ter sido o único. Um daqueles amores que lhe serão permitidos que você tenha inveja (assim como diz o pai), mas que você fica contente por saber que alguém viveu aquilo. Um pequeno filme sobre um grande amor que todos vão acabar torcendo para que ele seja real.


“Call Me By Your Name” (Ita/Fra/Bra/EUA, 2017), escrito por James Ivory, à partir do livro de André Aciman, dirigido por Luca Guadagnino, com Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar e Esther Garrel.


Trailer – Me Chame Pelo Seu Nome

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