Por mais que consiga fugir do óbvio, do clichê, do susto inerente e da mocinha assustada que tira forças sei lá de onde para enfrentar o desafio final, é realmente difícil achar que você ainda irá entrar no cinema e dar de cara com uma produção de terror que lhe surpreenda. Então, o melhor jeito acaba sendo, justamente, o que , Mama, não se envergonha de fazer: entregar, basicamente, só um filme de terror.

É lógico que o rapaz que sentar atrás de você, e que viu um punhado de outros filmes do gênero, vai achar que está exprimindo toda sua experiência enquanto advinha (ou tenta) cada susto e aparição, principalmente por se tratar de uma premissa tão igual a mais um monte de outros filmes, mas o interessante é que, muito provavelmente, esse mesmo rapaz irá se assustar mais que um par de vezes e ainda errará mais uma porção de oportunidades.

Mas isso não por que o diretor argentino Andrés Muschietti tem em mãos algum tipo de momento genial, mas sim por ter feito sua lição de casa com perfeição e ainda ter a aparente vontade de contar uma história maior que meia dúzia de sustos. Por se tratar de uma “história de fantasma” isso o obriga a ir em busca de uma alma dolorida com algum momento do passado e um desfecho que lhe dá a oportunidade de se redimir daqueles erros que a colocaram naquela situação violenta, portanto, o melhor mesmo é sentar e aproveitar esse lado “clássico”.

A fantasma, no caso, é a própria Mama no título, nome pelo qual duas garotinhas abandonadas pelo pai no meio de uma floresta a chamam. É ela também que, por meia década, serve de única companhia para as meninas e isso só muda quando as duas são resgatadas pelo bem intencionado irmão gêmeo do pai (Nikolaj Coster-Waldau) e decide, com a ajuda da namorada (Jessica Chastain) e de um psicólogo, cuidar das duas crianças e possibilitar que retornem à sociedade. Obviamente elas não vêm sozinhas, assim como a tal Mama não acaba tão feliz de perder as duas filhinhas.

É claro que , Mama, escorrega em erros bobos de um roteiro que não consegue encontrar uma desculpa mais interessante para colocar todos em uma enorme casa, ainda que nem bem aproveite mais que três ambientes da construção, assim como se mostra incapaz de fugir da máxima de que “fantasma dorme durante o dia”, o que cria uma estrutura que quase se arrasta entre uma sequencia e outra, já que, em pouco tempo deixa claro que o dia só serve para um ou outro diálogo que nem interessante consegue ser. Ainda assim, o mesmo texto faz um trabalho eficiente em não entregar sustos mastigados e ainda procurar sempre um ou outro momento tenso que se cria diante do clima da situação, e não de um acorde mais alto (verdade seja dita, de uma trilha sonora que segue, acertadamente, a cartilha do gênero).

Seja em um momento em que separa a tela por uma parede e coloca a protagonista em rota de colisão com a aparição, seja em um momento em que uma pequena sombra se forma no canto de seus olhos ou até na proximidade com que o fantasma acaba surgindo, cada vez mais e mais perto e perigoso, , Mama, pode até ser óbvio, mas não deixa que isso atrapalhe todos aqueles momentos que carregam o amante do gênero para dentro do cinema.

Mama Filme

Baseado em um curta metragem feito pelo próprio diretor (confira ele aqui), até nesse momento o espectador sai ganhando, já que, com classe e segurança, Muschietti (que também escreve o roteiro com sua esposa Bárbara e ainda Neil Cross) conseguem inserir exatamente a mesma sequencia, tensa e amedrontadora dentro do filme, e que, se já valia em alguns pouco minutos, só acrescenta dentro do longa.

E talvez o maior acerto estético de , Mama, seja esse, tratar cada pequena sequência de terror com o cuidado e a força de algo único, que, justamente, não se repete e seria um prato cheio se o roteiro percebesse que a grande maioria delas poderia acontecer durante o dia, surpreendendo a todos dentro do cinema e ganhando a simpatia da grande maioria de seus espectadores, quase sempre sedentos pelo prazer da surpresa. Aquela mesma surpresa que move o gênero e os fãs em busca de cada terror que estreia nos cinemas.

Até por que,  Mama, mesmo sendo um terror simples e objetivo, tem um fundo, um perfume que parece vazar por baixo dessa casca e que não se envergonha de ser um conto de fadas (com direito até um “era uma vez”) sobre uma segunda chance para o amor de uma mãe. Um amor que não surpreende, mas tampouco faz o filme se perder dentro de um gênero às vezes tão descartável.


Mama, escrito por Andrés Muschietti, Bárbara Muschietti e Neil Cross , dirigido por Andrés Muschietti , com Jessica Chastain, Nikolaj Coster-Waldau, Megan Carpentier, Isabelle Nélisse e Daniel Kash


Trailer

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