Mademoiselle Paradis | Ser medíocre ou sacrificar uma vida para ser lembrada


Mademoiselle Paradis segue a cartilha dos filmes de época, mas não deveria. O filme é muito mais do que isso, abordando temas como etiqueta e a dualidade entre ser medíocre em tudo ou sacrificar uma vida para ser algo pelo qual será lembrada.

Baseado em fatos históricos e inspirado pelo livro de Alissa Walser (“Mesmerized”), sua heroína é Maria Theresia Paradis, uma moça que desenvolveu cegueira completa pela idade de três anos. Tocando o piano de maneira impecável, seus pais parecem adestradores orgulhosos de sua filha nas exibições que realizam em sua casa.

Ninguém possui tato no século IXX e os deficientes são tratados como um estorvo e julgamentos estéticos são ditos na cara (uma de suas “amiga” diz a ela: “depois do tratamento sua cabeça começou a feder e seus olhos ficaram ainda pior!”). Como se não bastasse, os “cientistas” da época tinham à sua disposição uma vasta gama de experimentos completamente anti-éticos a serem realizados em seus pacientes.

Um deles, Franz Anton Mesmer (Devid Striesow), tem tido êxito com vários pacientes usando o “poder mágico” do invisível e indetectável (e indolor) eletromagnetismo, o que causa um frisson na comunidade. Infelizmente estão todos cegos nesse mundo da realeza e ninguém percebe que na verdade, cuidado e atenção são o segredo para as curas milagrosas.

Mademoiselle Paradis é um filme sobre como pessoas vistas como inferiores (em sua maioria mulheres, aleijados e criados) são tratadas como objetos, das mais diferentes formas. Se é uma serviçal assediada, é apenas um incômodo que ela tenha engravidado. Se uma criança demente sofre um acidente fatal, talvez fosse melhor assim em vez de viver uma vida miserável.

Mas esses são detalhes de um filme longo e cansativo dirigido pela austríaca Barbara Albert, que não consegue fluir sua narrativa e ainda por cima decide não usar nenhuma trilha sonora artificial, o que torna algumas longas sequências onde quase nada acontece quase insuportáveis. Repousando quase inteiramente no talento da atriz principal, Maria Dragus.

Dragus nos dá a exata sensação de alguém fora de qualquer categoria estável do mundo onde nasceu. Sua esperança era se tornar exímia pianista, mas quando ela começa a enxergar um pouco ela passa a não fazer nenhum dos dois direito. Os seus olhos se reviram de uma maneira completamente caótica, em uma mistura de paixão e passividade. Sua dor é sentida pelos seus agitados movimentos, mas ao mesmo tempo, com a alegria de fazer algo (tocar piano) tão bem feito.

Infelizmente este é um filme disposto a descrever a história real de maneira burocrática, apenas pincelando alguns comentários sociais. O resto é pura direção de arte de época, com figurinos bordados à mão e as bonitas músicas tocadas ao piano por Paradis. É bonito, mas oferece pouco aos mais ansiosos por comentários atuais sobre uma época grotesca.


“Mademoiselle Paradis” (Aus/Ale, 2017), escrito por Kathrin Resetarits, à partir do livro de Alissa Walser, dirigido por Barbara Albert, com Maria Dragus, Devid Striesow, Lukas Miko.


Trailer do Filme – Mademoiselle Paradis

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