Seria difícil acreditar que mais de três décadas depois do primeiro filme e exatos trinta anos depois do terceiro filme, Mad Max pudesse voltar aos cinemas de modo tão épico, incrível e intocável quanto em Mad Max: Estrada da Fúria. Mas pode acreditar, isso acontece.

Não só acontece, como ainda entrega um dos filmes de ação mais obrigatórios dessas últimas décadas, simplesmente pois aposta única e exclusivamente na ação. Como se percebesse até o quanto errou e escorregou nos últimos dois filmes jogando conversa fora e agora apostasse naquilo que ficou para a posteridade e de mais emblemático.

Estrada da Fúria então é uma grande sequencia de ação de 120 minutos, que começa com o anti-herói Max (Tom Hardy encarnando o personagem depois de Mel Gibson), ainda puído por esse futuro pós-apocalíptico, fugindo de um grupo de malucos com seus carros cruzando um mundo desértico e tentando impedir o protagonista de fazer aquilo que ele parece vir fazendo há tempo demais: sobreviver.

No meio desse caos ensandecido e frenético, Max cruza o caminho de Imperatriz Furiosa (Charlize Theron), a motorista de confiança de Immortan Joe (Hugh Kayes-Byrne, que, curiosamente, também foi, Toecutter, vilão principal do primeiro filme), uma espécie de líder supremo de uma sociedade que se formou nos escombros desse mundo deixado para trás. Furiosa então parte em uma fuga para uma espécie de oásis de onde foi retirada ainda criança, mas levando com ela as esposas de Imortal Joe.

É lógico que sob essa camada ainda existe uma ou outra surpresa e detalhe, mas em linhas gerais eles estão lá apenas para permitir que os espectadores consigam respirar depois das enormes, empolgantes e incríveis cenas de ação que formam Estrada da Fúria. Culpa de um George Miller com algumas centenas de bilhões de dólares para gastar.

Depois de quase um período sabático longe do cinema de ação (entre Babe e Happy Feet), Miller decide então remodelar o gênero assim como fez em 1979. Não existe nada em Estrada Fúria que tenha sido feito nas últimas décadas, nem em termos de ritmo, nem em grandeza e muito menos em estilo. Talvez Miller até vá de encontro ao que ele próprio fez nos dois últimos filmes, mas uma inspiração que nem de perto se iguala a esse novo trabalho. É difícil até entender onde Miller coloca sua câmera, de onde ela sai e para onde ela vai, mas a verdade é que o espectador irá passear por tantos ângulos diferentes, sejam em planos abertos ou fechados, que nem terá tempo de pensar sobre isso.

Estrada da Fúria então é um espetáculo caótico em que carros, caminhões, motos e mais uma série de invenções saídas da cabeça do diretor disputam espaço, explodem, voam e aceleram como monstros de metal em uma corrida mortal onde até sua trilha sonora vem de um caminhão com tambores e um guitarrista que mais parece saído de algum pesadelo roqueiro.

E o mais importante, ainda que sejam semelhantes em termos de concepção (sempre um comboio contra um caminhão), nada parece ser a repetição de alguma outra cena. Miller encontra espaço para cada uma de suas loucuras, com tiros, pessoas penduradas (como saídas de um circo oxidado e letal), lanças, tornados, muita areia e velocidade, um número enorme de tipos esquisitos e uma mitologia que parece estar em cada ferrugem, pintura de guerra ou máscara (e que, se houver justiça, colocará a direção de arte do filme disputando todo e qualquer premiação do ano!).

Mad Max: A Estrada da Fúria

Na ponta disso está Max, com Hardy dando conta perfeitamente do personagem na ausência de Mel Gibson, tanto no carisma, quanto no modo transtornado e dolorido de estar perdido naquele mundo, sem nada a perder a não ser sua vida. E Hardy talvez só funcione tão bem graças a presença da Furiosa de Theron, complexa, heroica e com a motivação que realmente move a trama. E não uma motivação qualquer, uma que pode ser descascada em camadas e mostra um cuidado interessantíssimo com a personagem, como se o roteiro escrito por Miller, Brendam McCarthy e Nick Lathouris soubesse o quanto o foco do filme está nela, e não em Max, que é apenas pego no meio do fogo cruzado.

Um cuidado que vai além dela e cria um núcleo feminino de personagens que simplesmente não são levadas por nada a não ser suas vontades próprias. Das esposas de Imortal Joe, entrando em combate e se arriscando sem a mínima preocupação de serem salvas por homem algum, como lá para o final a presença de um grupo de mulheres muito mais maduras que fazem a diferença para que o final feliz aconteça. E Max estar inserido nesse contexto só demonstra o quanto o cinema é feito de personagens fortes que podem conviver juntos, independente de seus gêneros.

E isso parece ser resultado direto de um roteiro impecável que ainda tem a sensibilidade de ser silencioso, ao invés de ficar conversando enquanto dirigem um caminhão e fogem de uma turba de malucos motorizados. Ninguém naquela situação perderia tempo explicando nada, assim como é um deleite maior ainda para o espectador ter a oportunidade de criar para si mesmo o contexto de boa parte dos detalhes que surgem na tela. Toda essa “menos explicação, mais ação” acaba então sendo um dos pontos mais precisos para não atrapalhar o andamento do filme.

Um cuidado épico em criar um filme de ação que acelera lá no começo e só breca quando termina. Fôlego de sobra para redimir os trinta anos que ficou longe e combustível suficiente para que o “road warrior” mais famoso do cinema volte logo a dar as caras.


“Mad Max: Fury Road” (Aus/EUA, 2015), escrito por George Miller, Brendam McCarthy e Nick Lathouris, dirigido por George Miller com Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult e Hugh Keays-Byrne.


Trailer – Mad Max: Estrada da Fúria

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