Previsível é uma boa palavra para descrever os filmes baseados em livros de Nicholas Sparks. É sério, se você viu um, viu todos. Só mude os nomes e profissões/propósitos de vida dos personagens. NemUma Longa Jornada Poster precisa mudar muito a aparência – a preferência por galãs e mocinhas de cabelos dourados e olhos claros, “all-american people”, é constante até demais.

Uma Longa Jornada, lógico, não foge muito da fórmula: um casal se apaixona, mas o amor deles é dificultado por alguma coisa, então eles se separam, daí tem uma reviravolta e o final. Isso não é spoiler – é apenas uma simples análise da estrutura básica “Sparksiana”. Um Amor Para Recordar é assim, A Última Música é assim, Diário de Uma Paixão é assim. Então, nada novo por aqui.

Dessa vez, a história é protagonizada por Luke Collins (Scott Eastwood, assustadoramente parecido com papai Clint), um cowboy com uma ascendente carreira montando touros, mas que está voltando aos rodeios após um acidente que quase o matou. Do outro lado está Sophia Danko (Britt Robertson), estudante de artes  com uma promissora carreira em sua área. Já deu para adivinhar o conflito? Sim, são as diferentes visões de mundo – fundamentalmente.

O que dá graça a esse filme, porém, é o outro casal. Sim, há um outro casal. Em determinado momento da projeção, um senhor, Ira (Alan Alda), cruza o caminho de Luke e Sophia, e cria uma bonita relação com a mocinha. Ira tem uma bela história de amor (também) contada por meio das cartas que escreveu à esposa Ruth, amante de arte moderna – analogia mais que clara. Assim, uma história se desenvolve no tempo presente, com Luke e Sophia, e, nas visitas da protagonista a Ira, as cartas trazem flashbacks de seu romance com Ruth.

Jack Huston (neto do John) dá então vida ao jovem Ira, e Oona Chaplin (neta do Charlie) vive Ruth, e estes dois em cena são um deleite. Chaplin consegue desenvolver bem sua personagem, criando imensa empatia em cada segundo seu na tela. Huston tem o mesmo sucesso, e as interações entre o casal Ira e Ruth, bem como sua história, são os momentos pelos quais mais esperamos durante o filme.

Uma Longa Jornada Crítica

Verdade seja dita, porém: o casal protagonista também está bem, dentro do possível, e tem química. Eastwood traz uma interpretação contida, que combina com a personalidade de seu cowboy – numa semelhança com o pai que apenas aumenta ao longo do filme. O charme está na genética e funciona bem na proposta de Uma Longa Jornada: vai balançar muitos corações. Robertson consegue criar mais profundidade com sua Sophia, há uma sutileza maior em sua atuação e ela dá conta do recado.

O que prejudica o casal principal é que sua história é superficial – eles não podem ficar juntos porque são muito diferentes –, e o fato de haver uma trama muito mais interessante ao mesmo tempo – Ira e Ruth – apenas destaca essa superficialidade. Se o foco do filme fosse em Ira contando sua história com Ruth em flashbacks, apenas permeado por essa trama de “somos de mundos diferentes, não podemos ficar juntos”, Luke e Sophia funcionariam como pequenas dicas para a história de Ira e Ruth, como uma situação nostálgica que faz o velhinho relembrar seu amor. Haveria o bônus de Chaplin e Huston ficarem mais tempo em cena, mas também produziria uma trama mais envolvente.

Mas daí não haveria tanto Scott Eastwood descamisado. A vida é feita de escolhas.

Uma Longa Jornada traz uma fórmula já puída, mas que o cinema continua usando e o público segue querendo. Porém, tenho que ser verdadeira: perto de outros filmes que usam a receita, este é bastante tolerável e chega a ter seus momentos inspirados. Poderia ser muito pior.


“The Longest Ride” (EUA, 2015), escrito por Craig Bolotin, dirigido por George Tillman Jr., com Scott Eastwood, Britt Robertson, Alan Alda, John Huston e Oona Chaplin.


Trailer – Uma Longa Jornada

Outros artigos interessantes:

Sobre o autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.