Livre

Livre Filme

Por um segundo Livre é sobre a imagem calma de uma paisagem daquelas que torna qualquer humano insignificante. No momento seguinte toda essa beleza é interrompida pelos suspiros que poderiam Livre Posterser de êxtase, mas são de sofrimento. De cansaço. Os suspiros então se tornam um grito dolorido, que vem da mesma selvageria que batiza o filme em seu título original Wild.

Talvez por isso Livre acabe sendo uma opção que vende o filme de modo errado. Nele, Reese Witherspoon (no que talvez seja seu melhor e mais maduro trabalho no cinema) é Cheryl Strayed, uma mulher que decide percorrer a Pacific Crest Trail sozinha. Um caminho que vai do méxico ao Canadá por mais de 1.000 km. Sobra ao espectador seguir esse caminho com ela.

E é exatamente o que o diretor Jean-Marc Vallée faz. Pelo menos é o que parece, já que nem por um segundo sequer ele esconde que o filme seja não só sobre esse caminho, mas sim sobre o que veio antes e levou àquela trilha. Mesmo Valléé, que, ainda que tenha feito um trabalho interessante (porém comum) no recente Clube de Compras Dallas, desponta em uma sensibilidade e um controle plástico e narrativo incríveis em Livre.

Valléé então é preciso ao aproveitar seus cenários ao mesmo tempo que valoriza o sensível e espetacular trabalho de Witherspoon em cada plano. Isso, enquanto combina mais dois filmes dentro desse, confinando flashbacks, ora fragmentados, ora mais comuns, dos dois períodos que levaram Cheryl a esse presente. Obviamente, se valendo ainda do trabalho de construção de personagem da atriz, que realmente se diferencia em cada um dos momentos de modo coerente e natural, mas sobre tudo isso com uma consciência estética que não deixa que nada saia do lugar e muito menos esteja ali sem sua real função.

Mas talvez o maior responsável por esse material incrível com que Vallée e Witherspoon têm a oportunidade de trabalhar seja o sensacional roteiro escrito pelo inglês Nick Hornby, baseado na obra da prória Cheryl Strayed. Obviamente a segunda oferecendo sua experiência como contribuição, mas é pelas mãos de Hornby que Livre chega tão longe.

Livre Crítica

Seu texto não só conta uma história, como permite que o espectador participe desse caminho, das lembranças, de toda bagagem. A impressão é de estar sempre sendo levado por um fluxo de recordações despertados por detalhes e experiência (…e aqui um adendo em forma de elogio para a espetacular montagem do próprio Vallée em parceria com Martin Pensa). Um texto tão no lugar que nos poucos momentos em que não consegue correlacionar esse presente com os dias passados (quando encontra uma dupla de caçadores e numa outra oportunidade com um jornalista), a discrepância de ritmo e interesse são gritantes. É óbvio que em ambos momentos a história continua sendo contada, mas o resto do tempo, meio não linear e entrelaçado, funciona de modo tão azeitado que fica difícil não sentir um incômodo.

Mas é um desconforto que passa rápido e nem bem atrapalha. Principalmente pelo controle exercido por Hornby, fazendo questão de deixar espaço para que o espectador se sinta mudado após percorrer esse caminho. Um filme motivacional, não de modo melodramático como o recente Invencível, mas sim que desperta essa vontade de seguir com seu caminho seja qual ele for. Seja qual pedra esteja em seu caminho ou riacho sem ponte.

Um filme inspirador que mostra o quanto é possível se redimir, se perdoar ou até se arrepender das páginas que já passaram, deixando-as queimando pelo caminho. Livre então talvez seja sobre isso, essa meta, esse destino, essa ponte no final, mas mais do que isso sobre o vereda que é preciso percorrer para deixar para trás tudo que fere e deixar nas lambranças tudo que serviu de inspiração.


“Wild” (EUA, 2014), escrito por Nick Hornby, a partir do livro de Cheryl Strayed, dirigido por Jean-Marc Vallée, com Reese Witherspoon, Laura dern, Thomas Sodoski, Keene McRae, W. Earl Brown, Gaby Hoffman e Brian Van Holt.


Trailer – Livre

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