Linha de Passe

Linha de Passe Filme

Linha de Passe chega aos cinemas exatamente 10 anos depois de Central do Brasil e entre algumas de suas semelhanças, as duas principais são o nome de Walter Salles no créditos de uma história cheia de personagens universais, daqueles que podem ser encontrados em qualquer esquina do mundo.

Nessa segunda semelhança, até muito menos do que possa parecer, esse novo filme, que Salles dirige em parceria com Daniela Thomas, é quase um ode à humanidade, cheia de qualidades e defeitos, sem ninguém em especial e muito menos uma história em especial, apenas os destinos que cada um guarda para si.

É lógico que, com esse nome, o filme ainda teria alguma coisa com o futebol e acaba tendo muito mais do que aparenta. Mais do que a bola sempre jogada na frente da casa, ou do sonho de Dario de virar jogador e do fanatismo da mãe pelo Corinthians, as histórias dos quatro irmão e da mãe solteira vão sendo passadas exatamente como uma linha de passe, onde a bola é o espectador, que vai sendo levado para um objetivo óbvio: o Gol.

No filme de Salles e Thomas, o gol de cada um parece deixar de ter importância, todo foco é no próximo passo, no próximo drible. Lógico que, em linhas gerais, seus personagens tem seus pontos de referência, mas suas “jogadas” acabam mostrando que existem obstáculos tão grandes a serem ultrapassados que seus destinos acabam se tornando simplesmente sobreviver até manhã do dia seguinte.

Com personagens fortísimos nas mãos, a dupla de diretores se deixa levar por uma simplicidade, criando não um filme visual, mas extremamente narrativo, com uma história tocante e emocionante por uma câmera que procura as interpretações dos cinco personagens de um jeito estático, econômico em seus movimentos, mas riquíssimo em seus enquadramentos.

Essa proximidade da ação talvez seja uma das duas grandes armas do filme, já que parece deixar extremamente a vontade seus atores, em um trabalho primoroso que resulta em atuações imperceptíveis. Os cinco personagens principais se completam de uma jeito que beira a naturalidade, expondo mais ainda uma realidade que o filme pede, um tom visceral, onde o espectador, em pouquíssimo tempo se sente a vontade com eles, compartilhando de uma câmera que parece todo tempo tentar entender suas almas.

No papel da mãe solteira de quatro filhos, Cleusa, Sandra Corveloni em sua estréia nos cinemas, se mostra mais que merecedora do prêmio de melhor atriz no festival de Cannes, criando uma personagem simplória, longe de qualquer caricatura ou exagero dramático, como se soubesse que todo seu sofrimento já fosse facilmente captado pelo história do filme, da mulher, mãe, grávida, empregada doméstica e cheia de sonhos, que ainda precisa ver seu seu time cair para segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Para a atriz, que vem do teatro, só lhe resta criar uma personagem tão concreta e lapidada pelo destino que facilmente entra no coração de qualquer espectador.

E talvez graças aos seus “filhos” que Corveloni consiga essa atuação marcante, já que, ao seu redor, os outros quatro pilares dessa história se seguram criando personagens diferentes entre si, mas comuns dentro de uma cidade como São Paulo. É surpreendente como cada um consegue segurar sua “linha” narrativa dentro do filme sem mais nada, a não ser os olhos da câmera.

A segunda arma de Linha de Passe é uma trama que te engole, que te deixa o tempo todo esperando para ser triturado. Salles e Thomas deixam claros, o tempo todo, os rumos que essa história pode tomar, fazendo com que o espectador encare a possibilidade de não gostar de onde tudo pode terminar. Um aperto no coração de quem está sentado na poltrona do cinema, uma inevitábilidade que o espectador não quer encarar de frente, uma espiral de acontecimentos que parecem não ter a possíbilidade de atingir um final feliz, se é que algum final poderia ser realmente feliz. Uma sucessão de fatos sufocante e tensa (aqui algumas palmas para a montagem de Gustavo Giavi e Livia Serpa, precisa e que deixa tudo com mais harmonia ainda).

Surpreendendo pela enorme coerência de toda trama, de seu começo até o fim em um filme onde ninguém parece tomar decisões fora da realidade, Linha de Passe conta essa história de seis pessoas que podem parecem seis bilhões pelo mundo, em um filme que lembra a seleção brasileira em copa do mundo, deixando espaço para o espectador entender, pensar, se aproximar, criar dúvidas (e respondê-las), tomar lados, aprovar e desaprovar seus atos, mas sem, em nenhum momento não parar de torcer por seus jogadores.


Idem (Bra, 2008, Bra) escrito por Daniela Thomas e George Moura, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, com Sandra Corveloni, João Baldasserine, Vinícius de Oliveira, José Geraldo Rodrigues, Kaique Jesus Santos


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