Ainda que, sem sombra de dúvida, Steven Spielberg seja um dos maiores diretores de cinema de sua geração, existe um lado do cineasta que sempre lhe fez procurar por relevância ideológica em meio a diversão escapista que marcou sua carreira. Lincoln acaba Lincoln Filme Posterfazendo parte desse esforço, ainda que vá acabar se perdendo dentro de sua cinegrafia como tantas outras ótimas tentativas.

Lincoln deve acabar esquecido junto dos ótimos Amistad e Munique, exemplos desse lado pertinente da carreira de Spielberg e que são obscurecidos pela obra de arte A Lista de Schindler. Logicamente, não pelo assunto (já que não têm nada a ver), mas sim por serem vítimas da expectativa. Por estarem rodeados de filme movidos por efeitos especiais e cenas de ação heroicas. Por tentarem contar uma história com um significado que ficasse para a história ao invés de clones de dinossauros e detetives do futuro.

Por sorte, pela distância dos anos de sua fase áurea (o que impediu Amistad de ser aceito só sendo mediano) e por tratar de um assunto tão fácil (Monique soou vingativo e pesado demais para “um Spielberg”), Lincoln talvez tenha mais até que os dois para ser reconhecido, mas ainda assim é tremendamente difícil achar que o filme possa vir a empolgar alguém.

Bem verdade, por mais que pareça, Lincoln não é uma cinebiografia sobre o 16° presidente dos Estados Unidos, e essa falta de sinceridade com seu espectador acaba, justamente, contando contra o interesse pelo filme. “Lincoln” é um filme sobre a 13° emenda da Constituição Americana, aquela que, em poucas palavras, abole a escravidão.

E não que o incrível Abraham Lincoln criado por Daniel Day-Lewis fique em segundo plano (apesar de, por pouco, não ser um coadjuvante de sua própria história), apenas só deve acabar frustrando quem entrar no cinema para conhecer um pouco mais da vida desse ícone cultural, não só dos Estados Unidos, mas reconhecido em qualquer lugar do mundo. Verdade seja dita, todo arco envolvendo o congressista republicano Thadeus Stevens (em um momento genial de Tommy Lee-Jones), assim como toda manobra de compra de votos liderada por um trio de “profissionais” (que hoje receberiam o título de lobistas, e no filme ainda conta com um James Spader irreconhecível e impagável) são muito mais divertidas e interessantes do que os momentos em que o espectador passa pela Casa Branca.

Durante o tempo que fica na sede do governo yankee, o espectador é obrigado a se ver desviado para esse desnecessário drama familiar, que passa pela depressão da primeira dama (em uma atuação consistente de Sally Fields) diante da morte de um dos filhos e até da vontade do primogênito (Joseph Gordon Levitt no auge de sua carreira e quase fazendo uma “ponta” de luxo) de lutar na guerra. Assuntos que não parecem conseguir se entrelaçar com a verdadeira verve do filme, aquela sobre essa ideia fixa do presidente de acabar com a Guerra Civil com uma trégua, ao mesmo tempo em que retira de seus opositores sua principal fonte de economia, a escravidão.

Uma história interessante sobre esses bastidores do poder e que, muito provavelmente, ficou escondida pelos anos, já que, de modo pragmático, é sobre compra de votos e conchavos pouco “politicamente corretos” (muito mais maquiavélicos do que qualquer coisa) e que, talvez se contada de modo menos cuidadoso acabasse até indo contra a biografia “irreparável” desse herói americano. Pelo menos nesse caso, a figura histórica está em boas mãos.

Lincoln Filme

Spielberg, na companhia do roteiro de Tony Kushner (baseado na obra de Doris Kearn Goodwin) criam esse presidente simpático e humilde, que começa o filme escutando conselhos de soldados negros bem no meio do campo de batalha e não dispensa a presença do filho mais novo (seja a situação que fosse, do bate papo à reunião mais importante), apaixonado e paciente com todos os problemas da esposa, deliciosamente teimoso com todas suas ideologias e vontades políticas. Um retrato otimista e empolgante de um líder que convencia todos à sua volta do que deveriam fazer e de como conseguiriam fazer aquilo. Junto isso a excelente recriação de época e o que sobra é um filme interessantíssimo, ainda que preso a ser quase um thriller político, coisa que, provavelmente, nem todas esperem. Mas que funciona que é uma beleza.

Mas sobre tudo isso, Lincoln é um presente para Daniel Day-Lewis. A cada discurso e metáfora, um lado prolixo do personagem que cria uma profundidade enorme, o ator inglês tem a oportunidade de montar o “seu” Abraham Lincoln. Sem referências em relação a dicção, gestos e até qualquer outra coisa que não sejam fotos e relatos, o ator, com a ajuda de uma maquiagem que transparece sutileza, cria esse homem que caminha de modo lento, divaga como um contador de histórias, mas é preciso e objetivo com a história parece requerer. Day-Lewis tem a oportunidade de criar um herói histórico de modo tão humano que fará com que grande parte do cinema sai com a certeza de uma copia perfeita da realidade, ainda que ela pouco tenha comparação.

E talvez seja essa a mesma vontade de Spielberg, não criar um mito, mas sim buscar um ser humano que se esforçou, sofreu e se sacrificou por aquele país. Lógico, tudo isso enquanto conta essa história política sobre um momento especial da história dos Estados Unidos, talvez exorcizando mais um pouco dessa doença chamada racismo que tanto aflige os americanos. Definitivamente uma tentativa que fica longe do escapismo da biografia do cineasta, mas tampouco se mostra corajoso o suficiente para expor toda problemática como fez em A Lista de Schindler, e é nesse momento que Deuses do Cinema separam os filmes das obras de arte.


Lincoln(EUA, 2012) escrito por Doris Kearns Goodwin (livro), Tony Khushner , dirigido por Steven Spielberg, com Daniel Day Lewis, Sally Field, David Strathairn, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, Tommy Lee Jones, John Hawkes, Jackie Earle Haley e Tim Blake Nelson.


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