Primeiro simpatize com Lady MacBeth. Ou pelo menos simpatize com sua situação. Comprada junto de um pedaço de terra, ela conhece seu marido, filho do seu comprador, no quarto do recém-casal. Perguntada pela criada se ela estaria com frio ou nervosa, a resposta é um duplo-negativo. Katherine não sente frio. “Tenho a pele grossa”, diz ela. No entanto, ela está alheia e à deriva desses dois homens, que a dizem quando e como se portar. Exatamente como se ela fosse propriedade.

Depois das cenas iniciais de Lady MacBeth você com certeza estará fisgado através da empatia humana, é mais fácil nos identificarmos com pessoas vulneráveis como ela. E é isso que o filme irá usar para aos poucos, isso enquanto te leva aos seus limites morais. Até que ponto uma sociedade estruturada de forma a submeter a mulher como um objeto merece uma retaliação à altura?

Este não é um trabalho original e nem tem pretensão de ser, imbuído já no imaginário coletivo por um século e meio. Escrito como novela pelo escritor russo Nikolai Leskov em 1865, já foi transformada em peça, em ópera e em vários filmes. Este é um trabalho que tenta fugir de suas origens cartunescas e farsescas, mas é uma tarefa impossível, já que nunca conheceremos Katherine MacBeth como ela merece ser conhecida.

Lady MacBeth Crítica

Além dela, temos aqui um conjunto de personagens submetidos às estruturas de seu tempo, que parece se passar na colonização americana. Serviçais que devem ser leais aos seus empregadores e uma esposa-troféu que sequer é usada para o bel-prazer do seu marido, que nunca a toca. O ódio que ele nutre pelo pai é tão forte que ele prefere não deixar herdeiros, assim abrindo mão de sua voluptuosa esposa. Enquanto isso, Katherine não se aguenta de pé. Ela vive em um tédio absoluto, trancada em casa sem direito sequer de ar fresco. Ela nunca se torna a governanta da casa. Está à deriva e à espera, como todos nós esperamos, pelo amor proibido de um dos empregados. Quando isso acontece não há surpresas, exceto pela forma imediatista, bruta e sem amor com que os dois se relacionam.

A direção do estreante em longas William Oldroyd consegue ser invasivo sem soar petulante. Mesmo se passando praticamente dentro de uma casa e em uma floresta onde não vemos o cenário completo, é justamente essa a sensação de enclausuramento que Oldroyd parece querer passar. Todos aqueles móveis seculares e históricos transformam seus personagens em peças de museu ao vivo. Ao usar uma profundidade de campo reduzida na maior parte do tempo, quando vemos o quadro completo é como se fôssemos jogados para dentro da cena. Este universo é visceral sem soar gratuito.

O mais fascinante em acompanhar esta história é que seus acontecimentos brutais poderiam ser justificados, por bem ou mal. Porém, tudo não passa de um pano de fundo para que nós nos questionemos se tudo isso realmente é justificado. Florence Pugh, que faz Katherine, exibe uma falta de sopro vital da vida no começo. Porém, assim que começa a executar seus atos maldosos, isso não muda. Ela é assim, mesmo. Ela está jogando o jogo de fachada, também, dentro e fora das regras que lhe foram impostas. Ou tudo é apenas obra de uma paixão avassaladora, que dá asas aos pensamentos e ações mais escusas. Dizem que a paixão é um tipo de loucura, diagnosticada como tal. Em Lady Macbeth a paixão não apenas é uma forma de loucura, como uma desculpa para qualquer atrocidade covarde e egoísta.


“Lady Macbeth” (RU, 2016), escrito por Nikolai Leskov, Alice Birch, dirigido por William Oldroyd, com Florence Pugh, Cosmo Jarvis, Paul Hilton, Naomi Ackie, Christopher Fairbank


Trailer – Lady Macbeth

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