por Mariana González
10 de fevereiro de 2018

Greta Gerwig já co-roteirizou alguns longas e co-dirigiu outro, mas Lady Bird – É Hora de Voar marca sua estreia-solo em ambas as funções. E que estreia. Inteligente, divertido e envolvente, Lady Bird torna-se memorável graças ao profundo carinho que a cineasta demonstra por seus personagens, que protagonizam momentos, descobertas, discussões e dores que farão com que qualquer espectador consiga se identificar com algo ou alguém ao longo da projeção.

Na cena inicial de Lady Bird, rapidamente somos apresentados ao relacionamento que será a base do longa: Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan) e sua mãe, Marion (Laurie Metcalf) estão voltando de uma turnê por algumas faculdades da região — ritual típico para os adolescentes norte-americanos prestes a se formarem no Ensino Médio — e, no carro, escutam ao audiobook de As Vinhas da Ira. Quando a última fita termina, ambas encontram-se igualmente emocionadas; a jovem quer começar a ouvir alguma outra coisa imediatamente, mas Marion prefere curtir o momento e refletir em silêncio sobre o livro. O silêncio, porém, dá abertura para que sua filha comece a discorrer sobre o quanto detesta a cidade em que moram, Sacramento, e revela que seu desejo é ir para uma universidade que fique “onde a cultura está”, como Nova York — e não permanecer na região de Sacramento, “o meio-oeste da Califórnia”. Antes de terminar de maneira surpreendente e hilária, a discussão planta os alicerces da dinâmica entre “Lady Bird” e Marion.

Com o terceiro ano chegando ao fim, “Lady Bird” acredita que não há mais nada para aprender em sala de aula e, portanto, dedica-se às descobertas e experiências novas da adolescência. Nada sai muito bem como ela planeja. Na escola católica que frequenta com uma bolsa de estudos, a irmã Sarah Joan (Lois Smith) diz acreditar que a jovem possui uma veia artística, algo que a agrada imensamente e que leva “Lady Bird” a participar das audições para o musical de outono do colégio. Ela é convocada, mas fica com um dos papeis de apoio, enquanto sua melhor amiga, a tímida Julie (Beanie Feldstein), brilha como a protagonista.

Mas é no clube de teatro que “Lady Bird” conhece Danny (Lucas Hedges), que logo se torna seu primeiro namorado; quando esse relacionamento acaba, ela encanta-se pelo (metido a) descolado Kyle (Timothée Chalamet). Enquanto isso, a protagonista encontra-se cada vez mais frustrada pela falta de dinheiro de sua família, que “Lady Bird” enxerga como pobreza total — seu desejo crescente de fugir disso acaba levando-a a trocar Julie pela rica e popular Jenna (Odeya Rush).

Assim, Lady Bird, apesar de ter uma trama bem definida, também mostra-se contente ao simplesmente retratar a vida da jovem protagonista e das pessoas que a cercam. Uma das melhores cenas da obra, por exemplo, é a que trás “Lady Bird” e Julie deitadas no chão do vestiário enquanto comem um jarro de hóstias como se fossem batatinhas chips e riem histericamente. As forças de Lady Bird estão no elenco e no roteiro, mas Gerwig também faz um belo trabalho como diretora, especialmente no que diz respeito à maneira fluida e dinâmica com que constrói o ritmo do longa.

No centro de tudo isso, encontram-se “Lady Bird” e Marion — e não poderia deixar de ser diferente; o relacionamento entre mãe e filha é o mais significativo da adolescência de praticamente qualquer garota. E é impossível não se identificar com pelo menos algumas das cenas e dinâmicas entre as duas, algo que nasce não apenas da percepção de Greta Gerwig (o longa é claramente semi-autobiográfico), mas também do trabalho memorável de Saoirse Ronan e Laurie Metcalf.

Lady Bird Crítica

As duas trabalham muito bem juntas, espelhando suas atuações uma na outra e criando uma conexão que parece real. Em seu desejo de estabelecer-se enquanto indivíduo com objetivos e morais próprias, “Lady Bird” provoca e machuca; enquanto isso, Marion frequentemente adota uma atitude passivo-agressiva para não precisar confrontar o que a filha lhe diz. Nesse sentido, uma das melhores cenas do longa, e que exemplifica muito bem a dinâmica entre as duas e o trabalho das atrizes, é uma que acontece na cozinha, quando a jovem desculpa-se profusamente por algo que fez e Marion simplesmente se recusa a falar com ela. O desespero da protagonista para que a mãe reconheça sua presença é palpável, e o mesmo pode ser dito do misto de dor e resolução que Marion demonstra apenas por meio de sua linguagem corporal. As discussões das duas são uma montanha-russa de comentários desenhados para machucar, provocações amorosas e discussões amigáveis sobre trivialidades — um transforma-se no outro em questão de segundos.

Mas, talvez, o que diferencie Lady Bird: É Hora de Voar seja o cuidado que Greta Gerwig demonstra ao colorir o universo que sua protagonista habita. Além de enxergarmos Sacramento pelos olhos de “Lady Bird”, os personagens coadjuvantes também dão vida ao longa. Na escola católica, o padre Leviatch (Stephen Henderson), que tem depressão, mostra-se um personagem surpreendentemente complexo — enquanto isso, Julie, uma jovem tímida, mas alegre e carismática, também esconde seus próprios problemas, e sua frase de que “algumas pessoas não são feitas para serem felizes” representa um dos melhores momentos do filme.

Temos, ainda, Lucas Hedges, que retrata com eficiência os dilemas de seu personagem, e Timothée Chalamet abraçando a babaquice e pretensão de Kyle em um papel completamente diferente daquele que o destinou ao estrelato em Me Chame Pelo Seu Nome

Dando vida à família de “Lady Bird”, Tracy Letts faz um trabalho sensível, que baseia-se principalmente em intercalar as brigas entre sua filha e sua esposa. Outro toque interessante é o fato de que a protagonista tem um irmão adotivo, que é latino-americano (Jordan Rodrigues), e isso é reconhecido pelo filme mas nunca tratado como algo fora do comum; é apenas a realidade daquela família — que inclui, também, a namorada do garoto, Shelly (Marielle Scott), que mora na casa dos McPherson.

Mas é claro que o centro do lar é Marion, especialmente quando ela começa a trabalhar em dois turnos depois que seu marido é demitido — e, nos Estados Unidos pós-11 de setembro, não vai ser fácil achar outro emprego. Em certo pontos, Danny descreve Marion como sendo “tão calorosa quanto assustadora”, e isso é perfeitamente capturado por Laurie Metcalf. A sensibilidade da atriz é fundamental para que compreendamos as motivações por trás de sua personagem, ainda que, frequentemente, nos frustremos com elas — e, afinal, o mesmo vale para Lady Bird. Gerwig, apesar de claramente amar seus personagens, jamais tenta fugir de seus defeitos; muito pelo contrário.

No comando de tudo isso, Saoirse Ronan faz um trabalho impecável como “Lady Bird”. A garota, que demonstra um imenso talento desde sua performance reveladora em Desejo e Reparação, quando tinha apenas 13 anos, constrói a protagonista como uma garota ansiosa para mostrar quem é em uma idade em que ela ainda está descobrindo isso. O próprio nome que dá a si mesma parece nascido mais de uma vontade de ser diferente do que de qualquer significado; enquanto isso, sua ambição é prejudicada pelo fato de que ela não é a melhor das alunas — o que também dificulta seu sonho de estudar fora da Califórnia. A caracterização de “Lady Bird” também acerta em cheio, desde seu figurino — que é uma mistura perfeita de peças que seriam encontradas em brechós por uma adolescente que deseja anunciar o quanto é peculiar por meio de suas roupas — até seu cabelo pintado de qualquer jeito em tons de vermelho, passando ainda pelas espinhas à mostra no rosto de Ronan.

Lady Bird: É Hora de Voar é, portanto, uma obra memorável e tocante pela honestidade e empatia com que retrata a protagonista e os demais personagens que a cercam. Além disso, é claro, trata-se de um exemplo perfeito da importância de o cinema dar espaço para mulheres contarem suas próprias histórias — o que abre caminho para vermos histórias já conhecidas, como aquelas em que este e outros filmes coming of age são centrados, de maneiras que ainda conseguem parecer novas.


“Lady Bird” (EUA, 2017), escrito e dirigido por Greta Gerwig, com Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Beanie Feldstein, Timothée Chalamet, Tracy Letts, Lucas Hedges, Jordan Rodrigues, Marielle Scott, Lois Smith, Stephen Henderson e Odeya Rush.


Trailer – Lady Bird – É Hora de Voar

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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