Em 2014, Godzilla adiou a apresentação de seu monstro titular e, então, o revelou aos poucos e de maneira impactante. Em Kong: A Ilha da Caveira, o rei dos macacos aparece logo nos primeiros minutos de projeção e, ainda no primeiro ato, seus cerca de 30 metros de altura já aparecem por inteiro. Mas o impacto se mantém e, em meio à ação competente e ao senso de humor eficiente do longa, Kong reina absoluto.

A história começa em 1944, quando um soldado norte-americano sofre um acidente de avião em meio à Segunda Guerra e cai em uma misteriosa ilha no Pacífico. Quase 30 anos depois, durante a Guerra do Vietnã, o cientista Bill Randa (John Goodman) lidera uma missão de reconhecimento à tal ilha, escoltado pelo Coronel Preston Packard (Samuel L. Jackson) e seus soldados. O grupo inclui o ex-soldado britânico James Conrad (Tom Hiddleston), a fotojornalista Mason Weaver (Brie Larson), o cientista Houston Brooks (Corey Hawkins), a bióloga San (Tian Jing) e vários outros personagens que podem ser chamados simplesmente de “comida de monstro”.

Sim, a ação começa assim que o grupo atravessa o sistema de tempestades constantes que cercam a ilha, escondendo-a do resto do mundo até que a nova tecnologia dos satélites (ei, estamos em 1973!) a revela. Afinal, para fazer o tal reconhecimento geológico da ilha, a primeira coisa que os humanos fazem é lançar bombas na região. Isso, obviamente, desperta a fúria de Kong que, então, ataca seus inimigos.

Na confusão, o grupo inicial divide-se em dois: Conrad, Weaver, Brooks e San tentam imediatamente organizar um plano para chegar a tempo no local combinado para o resgate, dali a três dias, e no processo passam a entender melhor o funcionamento da ilha e o papel de Kong. Já Packard, seus soldados sobreviventes e Randa tentam resgatar um dos homens feridos no ataque inicial do gorila, mas que ainda pode estar vivo. Para tanto, os militares não hesitam em explodir e atirar no que for necessário.

Em Godzilla, um monstro gigante invade uma cidade, habitat dos seres humanos; em Kong: A Ilha da Caveira, somos nós quem invadimos o espaço alheio. Como de costume, chegamos com uma carga de arrogância e burrice imensa, atirando em espécies desconhecidas e menosprezando a importância da descoberta em favor da ganância e da violência. A mensagem do conflito “humano x natureza” retratado aqui é claro. Assim, é interessante perceber as diferenças entre as diferentes criaturas lendárias do novo Universo Monstro da Legendary.

Em seu segundo filme como diretor (o primeiro, Os Reis do Verão, é uma comédia independente), Jordan Vogt-Roberts demonstra segurança e estilo no comando de um blockbuster de ação fantasiosa. Aproveitando ao máximo o cenário ao mesmo tempo suntuoso e opressor da selva, Vogt-Roberts e seu diretor de fotografia Larry Fong acentuam os tons de laranja e amarelo da região, destacando a umidade e a onipresença dos insetos (tanto dos regulares quanto de alguns gigantes inesperados). Dessa forma, a Ilha da Caveira apresenta-se como um lugar verdadeiramente misterioso e inexplorado, e não é difícil acreditar que há algo lendário escondido ali.

Ao longo de suas duas horas de duração, Kong: A Ilha da Caveira apresenta um equilíbrio excelente entre a ação e a violência constantes (esta é surpreendentemente pesada para um filme não recomendado para menores de 12 anos) e um senso de humor eficiente e que, sem desacelerar a tensão, torna a produção divertida e envolvente. A imagem de um soldado montando sua metralhadora em cima do crânio de uma criatura gigante é memorável e, durante a entrada do grupo na ilha, acompanhamos parte da ação através da imagem de um boneco que sacode sua cabeça no painel de controle de um helicóptero. Já o editor Richard Pearson investe em cortes certeiros, como aquele entre Kong segurando um soldado sobre sua boca aberta e a imagem de um homem mordendo um sanduíche.

Kong Crítica

As sequências de ação, por sua vez, são de tirar o fôlego, especialmente ao assistir à produção em IMAX 3D. Aliás, a terceira dimensão é usada com excelência aqui, levando o espectador para dentro daquele universo e colocando-o no centro da ação. Tanto as lutas entre humanos e animais quanto as batalhas entre as próprias criaturas jamais deixam de impressionar, e as equipes responsáveis pelos efeitos especiais da produção merecem aplausos.

Sentimos o peso e o poder desses animais e, em alguns momentos, percebemos até mesmo os relances de inteligência de Kong. Ele é o rei da ilha, mas seus inimigos, que parecem bizarros pterodáctilos sem asas, também impressionam. Outras criaturas surgem ocasionalmente para enriquecer o desenvolvimento da fauna local. Guiando tudo isso, temos a imponente trilha sonora de Henry Jackman.

Já entre o elenco humano, apenas o personagem de John C. Reilly é realmente memorável: no papel de um homem que viveu por décadas na ilha, ele rouba o filme no instante em que surge em cena com sua irreverência e sabedoria local, mas sem deixar de demonstrar a emoção por finalmente ter encontrado uma possibilidade de voltar para casa. Hiddleston lidera o grupo com competência, mesmo não atuando exatamente como protagonista, e Larson imprime força e sensibilidade a sua personagem. Enquanto isso, Samuel L. Jackson surge com seu carisma habitual, claramente divertindo-se no papel do agressivo Coronel. O restante do elenco é carismático e eficiente em seus personagens, mas tem pouco a fazer.

Por outro lado, a tribo nativa que abriga Reilly literalmente entra muda e sai calada, parecendo estar ali apenas porque norte-americanos adoram mostrar o quanto outras culturas “primitivas” são estranhas e engraçadinhas (Weaver chega a tirar uma foto deles fazendo gestos tipicamente americanos). Enquanto isso, se acerta na maior parte do tempo, Vogt-Roberts por vezes insiste em alguns close-ups de seus atores sem qualquer significado narrativo, apenas para destacar supostas frases de efeito que pouco funcionam.

Mesmo assim, a Legendary está no caminho certo no desenvolvimento de seu Universo Monstro. Repleto de tensão, com pitadas certeiras de comédia e trazido à vida através de efeitos digitais impecáveis, Kong: A Ilha da Caveira é seguro e envolvente. Uma jornada de tirar o fôlego, centrada em um personagem-título que merece ser revisitado em suas próximas aventuras.


“Kong: Skull Island” (EUA, 2017), escrito por Dan Gilroy, Max Borenstein e Derek Connolly, dirigido por Jordan Vogt-Roberts, com Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John C. Reilly, John Goodman, Corey Hawkins, Tian Jing, John Ortiz, Thomas Mann, Jason Mitchell, Shea Whigham, Eugene Cordero e Marc Evan Jackson.


Trailer – Kong: A Ilha da Caveira

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