José | Ganha força pela relevância

José Filme

Faço uma observação a respeito do pano de fundo de José: há três ou quatro passagens bíblicas sobre homossexualidade como um ato condenável aos olhos de Deus. Espalhadas no Antigo e Novo Testamento, elas estavam mais ou menos perdidas antes dos protestantes atuais, os evangélicos, interpretarem toda a Bíblia como leis escritas em pedra para todo o sempre. Pelo teor dessas citações elas poderiam muito bem ser contra o ato de luxúria em si, um motivo suficiente entre os heterossexuais para condená-los pela fúria divina. Por que ser gay teria um peso especial no julgamento divino? Simplesmente não faz sentido, mas o que não quer dizer que não há um peso negativo em uma sociedade que segue tais leis.

E isso fica muito claro em José, onde seu protagonista-título é, como reza o clichê, uma “pessoa do bem”, trabalhadora, mas vive em um dos países mais pobres, violentos e religiosos do mundo. Coincidência?

De origem humilde, José trabalha e ajuda sua mãe onde pode. Sua rotina é conhecida por qualquer pobre que mora em uma região metropolitana. O acordar muito cedo para pegar o ônibus, o almoço apressado e os poucos momentos gastos no celular. O filme desmascara essa rotina com naturalidade e ao mesmo tempo a torna interessante e ritmada.

Nos momentos de lazer José (Enrique Salanic) se encontra com seu namorado, Luis (Manolo Herrera), também um trabalhador honesto, da construção civil. Ambos se dão bem e não há praticamente nada de errado nesta vida. Exceto a questão religiosa que permeia a sociedade da Guatemala como uma lei absoluta, e que, portanto, se torna um peso para a religiosa mãe de José (Ana Cecilia Mota), que pede a Deus que perdoe seu filho (o texto não diz, mas o subtexto não pode ser mais claro: perdoá-lo por ser gay).

A caracterização de uma vida cotidiana simples e realista é vital para entendermos como esse único detalhe na vida do protagonista que aos olhos da sociedade o torna um monstro pior que um rapaz que engravida uma moça e foge de suas responsabilidades. Acertando mais uma vez, o filme nos mostra que onde quer que a rotina de José passe, lá estão pessoas pregando a Palavra, no ônibus, nas ruas, na imaginação popular.

O diretor chinês Li Cheng se mudou para os EUA em 1999, mas desde 2016 tem vivido como nômade, observando as sociedades em torno do globo. Nos últimos dois anos viveu na Guatemala e é dessa vivência que ele nos entrega sua segunda narrativa do homem comum, uma ficção praticamente documental em seu peso, mas com um estilo peculiar.

A fotografia escura, por exemplo, apesar de feia e suja, demonstra com perfeição a marginalidade da vida dos “Josés” da Guatemala. Ele já é uma figura esquecível por ser pobre e ter um subemprego, mas se encontra totalmente na penumbra quando está com seu namorado, ou até quando trocam mensagens de texto durante a noite. Mal se vê seu rosto iluminado apenas pela tela do celular.

Além disso, as constantes tomadas da metrópole apinhada de gente indo e vindo de diferentes lugares, além do amontoado de casas, fios, e luzes noturnas testemunham o caos urbano não apenas da cidade, mas de mentes como a do simples José, que apesar de um fiapo de personagem manipulável e entregue ao seu destino, possui suas linhas sendo suavemente puxadas pela mãe e pelo namorado.

José é um filme que ganha sua força pela sua irrelevância. É um estudo natural, mas ao mesmo tempo crítico, sobre as barreiras em nossa vida construídas pelos outros. Nesse caso é a religião, mas é uma mensagem poderosa o suficiente para se tornar universal.

Esse texto faz parte da cobertura da 42° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


“José” (Gua/EUA, 2018), escrito por Li Cheng e George F. Roberson, dirigido por Li Cheng, com Enrique Salanic, Manolo Herrera, Ana Cecilia Mota.


Trailer – José

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