Desde sua gênese, em 2005, a franquia Jogos Mortais conquistou milhões de dólares ao redor do mundo, inúmeros fãs devotados e o rótulo de torture porn. Mesmo nunca tendo sido laureada por sua qualidade cinematográfica, o longa original revelou James Wan para o cinema de horror e mostrou-se um exercício eficiente dentro de sua proposta. Entretanto, é inegável que isso foi se perdendo cada vez mais ao longo dos próximos volumes. Chegamos então a este Jogos Mortais: Jigsaw, que, apesar de moderadamente empolgante, parece não entender muito bem o legado da franquia.

Uma década depois da morte de John Kramer (Tobin Bell), o personagem-título, os detetives Halloran (Callum Keith Rennie) e Hunt (Clé Bennett) deparam-se com um cadáver que parece seguir exatamente o “modus operandi” daquele que ficou conhecido como Jigsaw. Acompanhamos, então, a luta por sobrevivência de quatro vítimas — Anna (Laura Vandervoot), Carly (Brittany Allen), Mitch (Mandela Van Peebles) e Ryan (Paul Braunstein)aprisionadas em um jogo desenhado, se não pelo próprio Jigsaw, por alguém “honrando” sua proposta. Quando os médicos forenses Logan Nelson (Matt Passmore) e Eleanor Bonneville (Hannah Emily Anderson) envolvem-se com a investigação, Halloran logo começa a desconfiar de que eles talvez tenham alguma conexão mais profunda com os acontecimentos.

Enquanto isso, por aqui, passaram-se sete anos desde o lançamento da última sequência da franquia, Jogos Mortais: O Final. Um dos maiores problemas da saga é definitivamente o desejo de aumentar a história apenas para oferecer ao espectador o que ele já havia visto antes em um nível mais intenso. Mas, considerando que este filme foi o primeiro a ser lançado mais de um ano após o anterior, esta seria uma oportunidade perfeita para retomar a essência de Jogos Mortais— que inclui, é claro, gore, tortura e muito sangue, mas também muita tensão e conflitos morais. Isso está presente aqui, mas apenas servindo para levar a reviravoltas, diferentes revelações sobre os relacionamentos entre os personagens, descobertas sobre quem está ou não está trabalhando ao lado de Jigsaw etc.

Ok, ok, o maior atrativo de Jogos Mortais sempre foram as armadilhas do assassino e a maneira com que as torturas desenhadas por ele remetiam aos atos errôneos de suas vítimas. Nesse sentido, Jogos Mortais: Jigsaw mostra-se verdadeiramente empolgante apenas quando vislumbramos uma ou outra das armadilhas clássicas do personagem, que protagonizaram cenas marcantes nos capítulos anteriores e que, aqui, jamais conseguem ser superadas. Isso é acentuado pelo fato de que, entre as quatro vítimas que passamos mais tempo acompanhando, apenas Anna (Laura Vandervoot) mostra-se uma personagem minimamente interessante.

Jogos Mortais Jigsaw Crítica

Dessa forma, Tobin Bell não tem dificuldades em dominar o longa nas poucas cenas em que aparece. Perfeitamente confortável em um papel que ele sempre conseguiu elevar para além do material, o ator volta a mostrar-se uma presença forte e envolvente, ainda que o filme desperdice seus curtos minutos de tela.

Por sorte, os diretores Michael e Peter Spierig saem-se melhor na forma com que comandam a produção, ainda que não de maneira exatamente memorável, pelo menos com mais coesão e controle do que o demonstrado nos longas anteriores — com exceção do primeiro, que continua (e deve continuar) imbatível. A fotografia de Ben Nott, por sua vez, também acerta ao abandonar o verde doentio que dominava os planos das demais sequências e que sempre surgia de maneira exagerada. Entretanto, a trilha sonora de Charlie Clouser, que já é bastante genérica, torna-se ainda pior pela forma pedestre com que é usada — em vez de realçar determinadas emoções, ela apenas sufoca.

Dar um tempo maior entre um título e outro e ceder a direção a uma dupla novata na franquia certamente fez bem para Jogos Mortais: Jigsaw, que é mais eficiente do que quase todas as sequências anteriores. Entretanto, os problemas associados à saga de Jigsaw permanecem. O resultado final é uma produção capaz de entreter os fãs, mas que dificilmente empolgará por muito tempo após o acender das luzes na sala de cinema.


“Jigsaw” (EUA, 2017), escrito por Pete Goldfinger e Josh Stolberg, dirigido por Michael Spierig e Peter Spierig, com Tobin Bell, Matt Passmore, Hannah Emily Anderson, Callum Keith Rennie, Clé Bennet, Laura Vandervoot, Paul Braunstein, Mandela Van Peebles, Brittany Allen e Josiah Black.


Trailer – Jogos Mortais: Jigsaw

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