É curioso, mas é perfeitamente compreensível como o diretor Mauro Lima fez trabalhos tão interessantes nas duas cinebiografias musicais Meu Nome Não É Johnny e Tim Maia, mas acabou errando tanto a mão em João, O Maestro.

“Compreensível”, já que, logo de cara a primeira coisa que você percebe que não une os três personagens é o carisma. Enquanto nos dois primeiros ele tinha em mãos personalidades poderosas, polêmicas e que estavam completamente aquém do status quo, a grande verdade é que a vida do pianista João Carlos Martins é um tédio e ele próprio parece ser um chato.

Não estou falando nem da figura real e nem de sua história, mas sim de seu lado cinematográfico, dessa persona que nasce à partir das impressões de um roteiro (também de Mauro Lima) e ganha vida sob o olhar das lentes. E não me venha falar em “superação”, já que a única coisa que não existe em João, O Maestro é superação.

Pode até existir dois ou três dramas que mudam os rumos do artista, mas sua superação é sempre resumida a uma ou duas cenas rápidas. Não existe dificuldades para o personagem João Carlos Martins durante as quase duas horas de filme.

Nele, ele é vivido em três fases por um trio de atores que se esforça, mas tem tão pouco em mãos que simplesmente não consegue trazer o espectador para perto deles. Alexandre Nero na versão mais adulta, Rodrigo Pandolfo na juventude (e um pouco além disso) e Davi Campolongo ainda criança. E nessas três fazes, o que o roteiro faz é mostrar o quanto seu protagonista é genial quando senta em um piano. Na verdade ele é bom em qualquer coisa que ele faz, daí ser tão difícil se identificar com alguém tão sem defeitos.

E aí está o maior problema da cinebiografia: não se interessar por seus defeitos. Não se interessa pelo efeito da anfetamina no jovem pianista. Não se interessa pelo descaso diante dos ensaios enquanto está hospedado em um prostíbulo uruguaio. Pior ainda, ensaia uma fraqueza pelo sexo feminino, mas nunca vai realmente além disso, já que nada atrapalha sua carreira e sua vida.

Quando ele decide parar de tocar, não vai parar na sarjeta dos músicos frustrados, mas sim volta ao filme em uma entrevista na TV onde o apresentador enumera a quantidade de sucessos que ele teve nesse tempo afastado. E se tudo isso é verdade, fico feliz pelo João real, mas cinema é feito de conflitos, de problemas, de superação, de inimigos que de um jeito ou de outro se tornam mais fortes que qualquer super-herói. Personagens são montados sobre falhas, e sem falhas não há aprendizado, somente alguém que passa por cima de tudo sem nem ao menos uma gota de suor.

João, O Maestro Crítica

Pior ainda, nos momentos de dificuldades, Mauro Lima parece afoito em passar rápido por isso. O piano pintado de sangue diante do esforço pela falta de movimento nos dedos não deixa sequer uma cicatriz. Na cena seguinte é como se ele estivesse curado e pronto para mais um acidente que acaba se refletindo na mobilidade de seus dedos. Mas nada disso se torna um problema que o artista não consiga resolver na cena seguinte.

Até lá no final, quando decide montar uma orquestra e tem a possivelmente complicada jornada de arrumar um “padrinho” para cada um dos sessenta e tantos músicos, tudo se resolve em exatas três cenas, sendo uma conversando com esposa apagada vivida por Aline Morais e outras duas onde um certo “sindicato de industriais paulistas” é tantas vezes citado que deixa um pouco de vergonha quando você percebe que nem por uma vez o nome da tal orquestra é citado (a Bachiana Filarmônica).

E falando em família, ela é completamente esquecida e deixada de lado enquanto o filme vai indo em frente. Pai, mãe, primeira mulher, filhos, nada é nem ao menos finalizado na trama, tudo simplesmente desaparece e não é nem ao menos usado para acrescentar alguma camada ao personagem. Isso sem nem tocar no assunto dos dois irmãos que só aparecem na infância e até do casal de professores de piano que nunca seriam esquecidos em qualquer outra cinebiografia musical dese tipo, mas aqui só servem para… para… para nada.

João, O Maestro é então um exercício egocêntrico que torna o personagem uma representação chata e entediante do artista real (sua obsessão pela Portuguesa só é realmente tocada no filme bem lá para o meio), que muito provavelmente é uma figura importante de nossa música e merecia um filme que celebrasse essa grandiosidade de modo humano e não em um dos filmes mais sem emoção que o assunto poderia produzir.


“João, O Maestro” (Bra, 2017), escrito e dirigido por Mauro Lima, com Alexandre Nero, Rodrigo Pandolfo, Gia Skova, Davi Campolongo, Caco Ciocler, Aline Moraes e Fernanda Nobre


Trailer – João, O Maestro

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