O mundo inteiro conhece a imagem de Jacqueline Kennedy no terno rosa da Chanel que a então primeira-dama vestia no dia em que seu marido foi assassinado. Uma semana depois, ela concedeu uma entrevista que seria publicada na revista Life e que imediatamente tornou-se icônica, onde ela comparava os anos de JFK na Casa Branca à mítica Camelot do Rei Artur. Anteriormente, o povo norte-americano havia tido a chance de visitar a residência através de um programa em que Jackie guiava uma equipe de televisão pela construção, contando sua história e mostrando as alterações que ela havia feito por ali.

Esses três acontecimentos são a base de Jackie, longa-metragem que rejeita o rótulo de “cinebiografia”. O diretor Pablo Larraín e o roteirista Noah Oppenheim não estão interessados em contar a história de vida da personagem-título, mas em mergulhar fundo em sua mente e no estado em que se encontrava após aquele fatídico 22 de novembro. A intenção, aqui, é desvendar a mulher por trás do mito, algo alcançado justamente através das duas representações midiáticas mais famosas de sua trajetória enquanto esposa do presidente.

Larraín e Oppenheim acompanham Jacqueline em seus momentos mais desafiadores, aqueles em que ela mais tinha as expectativas alheias sobrevoando sua mente e tentando ditar como ela deveria se comportar. Na tour pela Casa Branca, Jackie ansiava por provar o quanto merecia seu lugar e o quanto tinha a oferecer como primeira-dama, tendo também o dever de fazer os espectadores encantarem-se com ela. A entrevista à Life, por sua vez, era a oportunidade de a agora viúva reerguer-se e estabelecer sua própria imagem para além de seu marido, além da maneira com que ela queria ser vista pelo público naquele momento de fragilidade e instabilidade. Já o assassinato em si, é claro, exigiu que Jacqueline se tornasse responsável pelo legado e pela memória de seu marido. Com os olhos do mundo inteiro sobre si, ela viu-se diante de dezenas de decisões e expectativas, ainda com a obrigação de comportar-se de maneira adequada.

Nesse contexto, Jackie desvenda os bastidores do espetáculo e da mulher no centro de tudo isso, oferecendo um retrato complexo e fascinante sobre perda, desespero, insegurança e dever. Para tanto, é claro, Natalie Portman é fundamental. Carregando o filme com os maneirismos controlados e a dicção delicada e trêmula adotados por Jacqueline Kennedy, a atriz demonstra aqui sua entrega e sua força habituais, acompanhando Larraín em sua exploração profunda da protagonista.

Ao guiar a equipe de televisão pela Casa Branca, Portman demonstra a ansiedade de Jackie através do nervosismo e do desconforto com que ela se movimenta, alcançando suas marcações prévias com artificialidade. Assim, quando a tragédia tem lugar, é impactante ver a primeira-dama perdendo o controle e apresentando-se coberta de sangue e lágrimas, enquanto sua força e determinação são ilustrados pelo fato de que, apenas horas depois da visita a Dallas, Jacqueline apareceu em público ao lado do vice-presidente Lyndon B. Johnson (John Carroll Lynch).

Jackie Crítica

Mesmo em seus momentos mais frágeis, conseguimos perceber os fantasmas de sorrisos tentando surgir, em uma demonstração perfeita de o quanto Portman compreende o poder que Jacqueline sempre tentou manter não apenas sobre sua imagem, mas pelo direito à privacidade de seus sentimentos. Jackie é conduzido por sua protagonista, esteja ela em meio à mais terrível violência, entregue ao torpor, enfrentando a profunda perda que acabou de sofrer ou tentando reconstituir a si mesma e à família.

Elevando ainda mais o trabalho da protagonista, Larraín e o diretor de fotografia Stéphane Fontaine frequentemente fazem com que a câmera circule ao redor de Jackie, prendendo-a no quadro e transformando-a em um animal enjaulado. Ou, então, cercada por espaço vazio, criando suspense e tensão que não estariam fora de lugar em um filme de terror. O mesmo, aliás, pode ser dito da magnífica trilha sonora de Mica Levi, que traz desespero e ansiedade ao longa. Com seus acordes perturbadores e frequentemente claustrofóbicos, Levi representa não o que está ocorrendo na tela, mas o estado psicológico da protagonista. Assim, a música dá um ar de pesadelo e de fantasia doentia aos acontecimentos, como os tons ameaçadores que acompanham o luto durante o enterro de JFK.

Jackie indubitavelmente pertence a Natalie Portman, e o filme abraça a complexidade, os demônios interiores, a ocasional frieza e o caminho próprio da protagonista. Assim, o John F. Kennedy de Caspar Phillipson (que possui uma semelhança absurda com o verdadeiro JFK) praticamente não fala uma palavra ao longo da projeção, surgindo em cena apenas para estabelecer os multifacetados sentimentos de Jackie por seu marido. Finalmente, a montagem de Sebastián Sepúlveda é brilhante ao não contar sua história de maneira linear, intercalando os três tempos retratados aqui de maneira orgânica. Além disso, antes do terceiro ato, vemos apenas flashes do assassinato, algo fundamental para que o acompanhemos com todo o peso construído pelo filme e, mais importante, totalmente pelos olhos de Jacqueline Kennedy.

Sombrio e perturbador, Jackie torna-se memorável por nos apresentar à mulher por trás do mito de maneira a retratar a personagem-título de forma complexa e completa, utilizando todos os seus elementos artísticos para levar o espectador para dentro de sua mente.


“Jackie” (EUA/Chi/Fra, 2016), escrito por Noah Oppenheim, dirigido por Pablo Larraín, com Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Hurt e Caspar Phillipson.


Trailer – Jackie

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