O novo filme de Christopher Nolan tem tudo o que suas obras costumam ter – e isso pode ser bom ou ruim. No caso de Interestelar, o resultado é mediano para bom, mas o filme está longe de ser um dos melhores do diretor. Explico.

A trama conta a história do piloto Cooper (Matthew McConaughey), cuja relação com a filha Murph (Mackenzie Foy/Jessica Chastain) fica estremecida quando, após anos fora de atividade, ele aceita uma missão sem garantia de volta. Com o mundo prestes a acabar, por assim dizer, Cooper junta-se aos astronautas Brand (Anne Hathaway), Romilly (David Gyasi) e Doyle (Wes Bentley) em busca de outros cientistas que foram explorar planetas em outra galáxia anos antes, como possibilidade de uma nova vida fora da Terra. É possível perceber que a tradicional complicação está presente na história logo de início – e a trama se torna imensamente mais emaranhada ao longo do filme, com buracos negros, buracos de minhoca, “eles”, gravidade, etc, etc (essas palavras fazem sentido se você vir o filme). Mas algo falta.

Os labirintos mentais estão lá, mas a complexidade investida neles parece restrita a seu âmbito. Os personagens são superficiais: mesmo o protagonista Cooper – ainda que McConaughey trabalhe bem o personagem – tem uma natureza estereotipada que não deixa ao ator muito o que explorar. E isso se repete em todos os personagens, que mostram motivações fracas para suas ações e personalidades unifacetadas – Brand é uma personagem especialmente ruim, que serve apenas como um possível interesse amoroso do protagonista (relação tratada de maneira pobre) e como a “pessoa sensível” do grupo de astronautas (o que, para uma personagem feminina, soa mais do que batido – e um tanto machista).

Nolan tem este defeito que se repete em praticamente todos os seus filmes. O enredo pode ser bom, pode ser interessante, pode ser intrincado e fascinante: as relações humanas são sempre estranhas. A química entre os atores pode funcionar, mas parece que esse recurso não é trabalhado, e, na força para humanizar seus filmes, o diretor cai nos timings errados, pipocando momentos emocionantes/amorosos aleatoriamente, o que, diversas vezes, quebra o clima construído na história até aquele momento. Mesmo o relacionamento mais forte, de Cooper com Murph, é tratado de maneira superficial, e sua força – que visa justificar praticamente toda a trama – não se mostra tão intensa quanto o filme exige.

Interestelar Filme

A narrativa de Interestelar apresenta, ainda, uma questão de ritmo. Há momentos em que as quase três horas de filme parecem inacabáveis e, apesar de haver consideráveis lapsos temporais, fica a sensação de que nem todos os detalhes fariam falta se cortados. O final, porém, praticamente compensa qualquer perda de ritmo que o filme possa sofrer durante o resto da projeção: complexo, tenso, bem construído – muito Christopher Nolan.

A grande qualidade de Interestelar está no visual, que é de tirar o fôlego. O espaço é lindo, e alguns dos efeitos especiais fogem da agora usual computação gráfica e apelam para as tradicionais maquetes, o que mostra que mesmo sem grandes tecnologias é possível fazer efeitos bons o suficiente. No caso de Interestelar, tudo é mais do que apenas “suficiente”.

O visual é ótimo, mas não segura o filme todo. E apesar de o final empolgar, não causa a mesma sensação de O Grande Truque ou de A origem. É um filme bom, mas fica por aí.


Interestellar” (EUA, 2014), escrito por Christopher Nolan e Jonathan Nolan, dirigido por Christopher Nolan, com Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Michael Caine.


Trailer do filme Interestelar

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Uma resposta

  1. Vinicius Carlos Vieira

    Tive um certo problema com o terceiro ato e o modo como o Nolan parece desesperado para desatar todos os nós e não deixar espaço para que o espectador pense nem um segundo sobre o filme depois do seu final, além de criar uma correria e um conflito (na Terra) que não precisaria existir dentro da casa. Talvez, pela robustez do segundo ato, do suspense, das reviravoltas e das situações interessantes o filme merecesse um final menos mastigado… começo à lá Spielberg é realmente delicioso e o visual é incrivelmente inspirador mesmo, depois de ver o filme tenho certeza de que o espaço é do jeito que o Nolan me mostrou.

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