Inocência Roubada | Sincero, tocante e obrigatório


Inocência Roubada conta um trauma uma moça que começa em sua infância. Ela é abusada pelo melhor amigo de seus pais e só consegue se expressar a respeito em sua dança. Essa dança é o que nos leva para o consultório de sua psicóloga. Tudo está mesclado na história porque a vida de uma pessoa não é apenas um evento: é ela completa.

É um filme sobre a importância de nos expressarmos, no melhor e no pior, para o bem e para o mal. É o conjunto o que nos define.

Mas apesar de ser sobre abuso sexual esse não é um daqueles trabalhos simplistas que chora pelo potencial arrancado de quem teve sua vida e sua psique sabotada. Ele é o pacote completo, que se desenvolve como sessões de terapia que revisitam o passado cruel e lamentável, mas que ao mesmo tempo constroem uma história. A história de vida de uma pessoa, que, apesar de tudo, merece ser celebrada dançando.

Este é também um trabalho que universaliza a dor de todas as “uma em seis crianças francesas que são abusadas” (de acordo com o longa). Todos os atores desse drama sobre a vida real estão representados como símbolos marcantes: o pedófilo nojento que se sente poderoso por ter dinheiro, o melhor amigo da vítima que tem problemas de adequação na sociedade, o professor que enxerga algo de errado em sua aluna sem intervir na vida de uma adulta, o pai carinhoso que não imagina a maldade convivendo em sua própria casa, a mãe que em sua dor e vergonha internas usa o cômodo e maléfico caminho da negação que ataca justo a única pessoa que deveria ser protegida.

Os diretores Andréa Bescond e Eric Métayer usam o caminho universal para nos entreter com sua arte narrativa, que pula de cena em cena de maneira criativa, jogando os personagens do passado e do presente no mesmo cenário e fazendo a protagonista viajar com seus medos e para quem os confessa através do tempo e espaço. Iniciando com uma porta, uma inocente, lúdica e comum porta, somos carregados como que por uma enxurrada através das lembranças de Odette.

A informação fora do filme que você mais precisa saber é que quem interpreta Odette é a própria diretora, Andréa Bescond, relatando de maneira biográfica o próprio abuso que sofreu em sua infância por tantos anos. Bescond já havia feito uma peça premiada em 2015, Cócegas ou a Dança da Raiva, da qual adaptou este evento trágico para as telonas neste paradoxalmente belíssimo trabalho de direção e roteiro.

Mas para quem acredita que irá ver um filme pesado se engana. Bescond transforma o terror de sua vida em um panorama mais palatável usando como filtro sua paixão pela dança, e embora este não seja um musical o movimento deste corpo tentando se libertar de seus fantasmas do passado é a virtude mais tocante do longa. Suas passagens na vida transformadas em dança são igualmente impactantes e significativas, como Odette se entregando ao sexo niilista ou ao hino silencioso do seu sofrimento enquanto apenas dança

Por outro lado, ao encontrar um refúgio sincero em seu companheiro, o filme nos desperta para a possibilidade de esperança em uma vida violada em sua formação, não sem deixar claro que este é um momento íntimo e inalienável da vida de Odette. Quem dera todas as pessoas traumatizadas desde a infância tivessem pelo menos a sorte de já na vida adulta encontrar um porto seguro para se estabilizar. Odette teve essa sorte e manteve uma tocante, embora não determinante, homenagem.

Apesar de não ser pesado Inocência Roubada não é um filme fácil para os que preferem não tocar em alguns assuntos da vida adulta, e justamente por isso esse se torna um trabalho merecedor de nossas atenções, no melhor sentido de “precisamos falar sobre isso”. Mas nem sempre apenas falar ajuda. É necessário encontrar o tom. E Inocência Roubada consegue essa proeza de todas as maneiras possíveis, doa a quem doer. Um trabalho sincero, tocante, digno de admiração e de aplausos no final.


“Les Chatouilles” (Fra, 2018), escrito por Andréa Bescond, dirigido por Andréa Bescond e Eric Métayer, com Andréa Bescond, Karin Viard, Clovis Cornillac


Trailer – Inocência Roubada

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