Hotel Terapêutico | Belo e fundamental

Hotel Terapêutico Filme

Repleto de nuances e de sutilezas, Hotel Terapêutico transita com naturalidade entre seus momentos mais leves e divertidos e entre instantes dramáticos repletos de dor. Com isso, constrói um retrato dinâmico, brutalmente honesto e tocante sobre os traumas de seus personagens, centrados na protagonista, uma jovem em depressão após uma experiência de parto traumática. Assim, além de louvar o poder do diálogo, da conexão e do entendimento, o longa ainda discute as experiências dolorosas e complicadas que muitas mulheres têm com a maternidade — algo que precisa ser discutido de forma aberta para normalizar esses acontecimentos, sem culpabilizar a mãe.

Erika (Alicia Vikander, parceira habitual da diretora e roteirista Lisa Langseth) é uma jovem bem-sucedida que vive um casamento feliz com Oskar (Simon J. Berger). Entretanto, algumas semanas antes do dia agendado para sua cesárea, uma emergência faz com que ela precise dar a luz para um bebê que sofre uma asfixia durante o parto — o resultante dano cerebral faz com que ele fique no hospital. Após essa experiência, Erika sente-se desconectada do filho, do marido e dela mesma, entrando em um profundo estado de depressão pós-parto. Em uma sessão de terapia, ela declara desejar que o mundo pudesse parar por apenas alguns instantes; qualquer estímulo é excessivo, tudo é exaustivo.

Buscando algo que possa ajudá-la ao mesmo tempo em que permite a ela focar não apenas em seus problemas, Oskar sugere à esposa que ela frequente um grupo de apoio. Erika escuta seus companheiros em silêncio, ainda sem conseguir conectar-se com o que eles dividem entre si. Mas, ao escutar Ann-Sofi (Mira Eklund) dizendo que às vezes deseja ser outra pessoa, Erika finalmente sente-se compreendida e, então, assume que gostaria de poder escolher quem ela quer ser em um lugar onde ninguém a conheça, como em um quarto de hotel. A imagem inspira o grupo — que, além de Erika e Ann-Sofi, inclui Rikard (David Dencik), Pernilla (Anna Bjelkerud) e Peter (Henrik Norlén) — a hospedarem-se em um hotel, onde planejam dar vida a suas fantasias e serem quem eles quiserem, sem obrigações e sem expectativas.

Com uma abordagem bastante naturalista, Lisa Langseth conduz Hotel Terapêutico sem grandes arroubos, permitindo que compreendamos e nos identifiquemos com aquelas pessoas por meio das nuances da obra. Os traumas que cada um carrega consigo, por exemplo, jamais são explicitados; o que sabemos sobre eles origina-se nos sentimentos, pensamentos e perspectivas que eles trocam entre si, sem a necessidade de diálogos expositivos ou de que saibamos mais do que eles mesmos estão dispostos a declarar. Assim, a presença expressiva e forte de Alicia Vikander mostra-se ideal para a protagonista — a atriz faz um belíssimo e tocante trabalho, utilizando principalmente seu olhar para guiar-nos pelo arco dramático de Erika. Ao lado dela, os demais atores adotam abordagens similares e constroem uma dinâmica eficiente entre o grupo, repleta de carinho, de dor e de um desejo profundo por entendimento.

Hotel Terapêutico

De início, a estadia longe de suas casas e rotinas parece o paraíso, a oportunidade perfeita para que eles finalmente alcancem seus maiores sonhos para suas vidas. Destemidos e empolgados, os personagens então aventuram-se por sequências divertidas, como aquela em que eles elegem um homem para satisfazer a fantasia de Pernilla de transar com alguém casado. Aos poucos, porém, eles vão se entregando cada vez mais a essa experiência que não pode se sustentar por muito tempo, fazendo com que o filme retorne aos poucos para a carga dramática que já havia demonstrado no primeiro ato. Todos esses humores são conduzidos com coesão pela cineasta, que entende que essa mistura de tons não é uma reflexão direta do estado mental de seus personagens, que buscam desesperadamente por momentos de alegria e leveza em meio a tudo que os persegue e perturba. Refletindo esse turbilhão, a trilha sonora adota elementos agressivos unidos à melancolia.

Nesse sentido, a abordagem da maternidade pelos olhos de Erika é louvável. Langseth não transforma o esposo da protagonista em vilão, mas ainda assim mantém nossa simpatia com ela. Sem jamais culpabilizá-la, mas também sem diminuir o peso de suas ações, Hotel Terapêutico discute o quanto, para muitas mulheres, ter um bebê está longe de ser o mais belo momento de suas vidas. E isso não tem a ver com falta de amor ou de nada, mas com uma experiência que pode ser assustadora por causa de uma série de fatores, como os que Erika enfrenta.

Hotel Terapêutico é, então, um retrato multifacetado e tocante de pessoas que resolvem unir e compartilhar suas dores e, a partir disso, criam algo único, belo e fundamental para cada um deles.

Texto faz parte da cobertura do Santos Film Fest 2018


“Hotell” (Sue/Din, 2013), escrito e dirigido por Lisa Langseth, com Alicia Vikander, David Dencik, Anna Bjelkerud, Mira Eklund, Henrik Norlén, Simon J. Berger, Lisa Carlehed e Ben Kamijo.


Trailer – Hotel Terapêutico

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