Head Burst | Desconfortável e sensível

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


Head Busrt (ainda sem tradução para o Brasil) pode causar extremo desconforto a mentes mais sensíveis, mas é um filme da categoria necessário por vários motivos, sendo o principal deles fazer você pensar pelo ponto de vista de alguém cuja natureza o impede de viver plenamente. O motivo? Seria um crime horrível.

Esse julgamento ético e moral poderia ser dado a homossexuais antigamente (ou em alguns países ainda hoje) e serial killers em qualquer lugar do mundo. Porém, existe um grupo de pessoas em que suas ações não dependem apenas da conivência dos participantes, nem são tão brutais quanto assassinar uma pessoa: os pedófilos.

Markus (Max Riemelt) é um deles; arquiteto bonitão, vem tentando viver sem fazer mal a nenhuma criança. Ele tira e revela fotos de garotos de sua TV e da piscina, e se masturba compulsivamente, além de usar o boxe como escape. Recusa investidas de qualquer mulher que queira se aproximar, além de evitar se socializar com conhecidos por medo das situações que podem envolver perigos para seu comportamento. Portanto ele é recluso e tudo estaria bem se ele pudesse manter assim, mas as circunstâncias não estão a favor do auto-controle de Markus depois que uma mãe e seu filho Arthur vem morar no apartamento do lado.

Head Burst foi escrito e dirigido por Savas Cevik conseguindo abordar praticamente qualquer dúvida que teríamos sobre se seu protagonista não poder resolver seu problema de alguma forma sem machucar crianças. Indo além, ele torna óbvio que o próprio Markus está ciente do que pode acontecer se um dia perder o controle e não desejaria em nenhum momento ser quem ele é. Acompanhamos sua escalada em direção ao inevitável abuso infantil de maneira intensa, mas é quando ele se encontra com um psiquiatra que o filme assume uma forma muito mais densa e depressiva.

Empregando uma fotografia escura e cinzenta com pouquíssimos tons coloridos, o filme está drenado de qualquer sinal de alegria que poderia haver. Até o vermelho da sala escura onde Markus revela suas fotos se assemelha a sangue. Markus não acende as luzes de sua casa por vergonha de si mesmo, e os espectadores do filme devem ficar receosos de começar a se identificar com um pedófilo e sentir o seu inescapável drama, o que reforça mais ainda seu problema, já que se nos sentimos culpados apenas por compactuar com o que deve estar se passando pela cabeça de um pervertido, imagine o que a sociedade em geral não pensa dessas pessoas.

A abordagem na atuação de Max Riemelt é ser exagerado em sua atração por garotos porque o diretor Savas Ceviz utiliza planos muito próximos de Markus para harmonizar com os planos-detalhe dos garotos que está observando. Se na mente do protagonista a ação se passa em um nível extremamente íntimo, a qualquer momento em que ele perceba que pode estar sendo observado a câmera volta a se afastar, gerando nessa dinâmica uma sensação de desconforto no espectador que se aproxima ou sugere o que acontece internamente para o arquiteto.

Se no começo o desconforto é evidente por começarmos a entender o drama de um pedófilo que sabe que a conclusão dos seus atos seria um ato horrível contra seres humanos ainda em desenvolvimento, no final Head Burst nos convida a pensar nas contradições da vida humana, entre sermos parte animais e parte moralmente responsáveis. E ele consegue isso com quase nenhum texto descritivo. Se trata apenas da observação da contradição em pessoa vivendo em nossa sociedade. Se você nunca pensou a respeito desses dilemas, este filme com certeza é uma ótima oportunidade.


“Kopfplatzen” (Ale, 2019), escrito e dirigido por Savas Ceviz, com Max Riemelt, Isabell Gerschke e Oskar Netzel.



Trailer do Filme – Mente Perversa

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