Hálito Azul | Poesia e cultura por sotaque lusitano

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


A peça de Raul Brandão, escritor português, inspira um cineasta da região de Açores, Rodrigo Areias, a documentar uma vila de pescadores portugueses de onde veio sua família. Como consequência somos brindados com Hálito Azul, onde a poesia, a cultura, a religião e a ecologia do local, não são perdido no tempo, mas transformado em algo a mais.

Esse algo a mais escapa do autor e diretor, mas por muito pouco, pois ao nos mostrar a vida dos pescadores como protagonistas de sua vida e encenar momentos belíssimos dentro e fora do mar o filme já mergulha em uma simbologia rica em detalhes visuais, restando desenvolver suas histórias. O palco está pronto para aventuras, mas o ensaio é eterno.

Acompanhamos a vida dos habitantes sob a ótica do cuidador do farol, cujo papel de narrador, visual de barba que molda a cara e touca característica veio direto da imaginação de obras sobre o mar, seja Mobi Dick e 20 Mil Léguas Submarinas ou Camões. Ele e tantos outros cantam justamente o que estão fazendo no momento: “estou procurando minhas chaves para abrir a porta da frente de minha casa”. Involuntariamente isso cria um universo à parte que vira combustível para novas histórias que serão lembradas daqui a quinhentos anos.

Mas os mais novos são vistos sem trabalho ou sem interesse em frequentar a escola, premeditando tempos difíceis de transformação em um país e um continente que vivem de crise em crise se esquecendo do seu passado. O mar não é mais o mesmo e existem cotas de pesca para não exaurir as forças da natureza. Entre dominar e destruir o ecossistema há uma linha tênue muito fina que já foi lançada e quebrada no século passado.

Não é certo enxergarmos beleza em Hálito Azul, mas o filme o faz de qualquer maneira. Ele está apaixonado pelo tema e nos traz uma das línguas mais belas já faladas pela humanidade, o português raiz, estranhamente dublado, ou vilipendiado, nas legendas em inglês, o que será uma pena para o espectador estrangeiro, mas uma impossibilidade intransponível em filmes falados que tivemos que nos acostumar. Brasileiro que sou mal entendo um pescador português falando, ainda mais nos Açores. Mas não se trata da frase completa e sim da sonoridade das palavras e seus significados ocultos a um não-falante.

Curto, grosso e sem história para contar, Hálito Azul é um breve panorama do mundo hoje em um porto secular. Cumpre seu papel documental sem honras, pois não há guerra, não há conflito e não há documento, pois boa parte da história é ficcional, construída por Rodrigo Areias e Eduardo Brito para dourar a pílula. Os assuntos estão soltos, jogados ao mar. É filme de mostra, de festival, que não pretende ir mais além. Em termos das grandes navegações do passado, fica eternamente ancorado pela sua própria contemplação.


“Hálito Azul” (Por/Fin/Fra, 2018), escrito por Rodrigo Areias e Eduardo Brito, dirigido por Rodrigo Areias.



Trailer do Filme- Hálito Azul

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