Filmes envolvendo culinária e restaurantes não são novidade lá fora, mas o sucesso do MasterChef por aqui trouxe esse tipo de premissa para o cinema brasileiro. Assim, Gosto Se Discute é a segunda comédia nacional do ano ambientada no mundo das cozinhas, depois do simpático e eficiente Duas de Mim” — que, perto do longa de André Pellenz, é uma verdadeira obra-prima.

Augusto (Cássio Gabus Mendes) comanda o Guto’s, um refinado restaurante que começou como um dos queridinhos da elite de São Paulo apenas para, alguns anos depois, perder espaço para empreitadas mais inovadoras — ou melhor, “inovadoras” —, incluindo um food truck que se instala ao lado do estabelecimento e que, chefiado por Patrick (Gabriel Godoy), busca levar a alta cozinha para o dia a dia dos paulistanos. O Guto’s está dando cada vez mais prejuízo, até que o banco que é investidor e sócio do restaurante envia a auditora Cristina (Kéfera Buchmann) para gerenciar o espaço e tentar reverter a situação. Apesar de essa ser sua última chance, Augusto rejeita qualquer proposta de mudança, o que leva a uma crise de estresse que manifesta-se por meio da perda do paladar. Enquanto Augusto tenta esconder sua rara condição, Cristina faz uma aposta com seus superiores do banco: eles manterão o investimento caso o Guto’s consiga conquistar a cotação máxima no Melhores de São Paulo ou, então, ela e Augusto deixarão seus postos sem levar nada.

Um dos maiores problemas de Gosto Se Discute é a forma com que Cristina é tratada pelo próprio filme — jovem e atraente, a auditora é reduzida a essas duas características o tempo todo e por todos os personagens, e até mesmo sua contratação no banco deve-se ao fato de que ela tem um caso com um de seus chefes, e não por sua competência. A forma com que os homens que vemos em tela falam sobre ela é pura misoginia, mas o diretor e roteirista André Pellenz não consegue transformar isso em qualquer tipo de discussão — afinal, o que esperar de um cineasta que coloca Kéfera Buchmann como interesse romântico de Cássio Gabus Mendes, que é 30 anos mais velho do que ela? (Não, a diferença de idade não é necessariamente um problema, mas dentro do contexto da indústria cinematográfica, é mais um reflexo do sexismo que a permeia — repare na casualidade com que homens se envolvem com mulheres muito mais novas, como acontece aqui, e tente pensar em equivalências do contrário.)

A Cristina de Pellenz (não da Kéfera) é um típico exemplo de personagem feminina escrita por homens que acham que estão fazendo um trabalho feminista mas, na verdade, estão apenas comprando as próprias ideias retrógradas que acreditam estar desconstruindo.

Além disso, a dupla não demonstra um pingo de química ou de carisma para carregar o longa, o que é resultado mais da falta de competência do filme do que dos atores — não acompanho Buchmann no YouTube ou no cinema, mas, para conquistar a quantidade de seguidores que ela tem, supõem-se que deva ter algum carisma que, aqui, raramente transparece.

Gosto se Discute Crítica

O fato é que ela, Gabus Mendes e seus colegas de elenco estão presos a personagens unidimensionais e diálogos rasos, que insistem em repetir as mesmas gags sem graça — a equipe do restaurante conta com um funcionário gaúcho e outro baiano, que é gago; suas personalidades se resumem a, respectivamente, ser gaúcho e ser baiano e gago — ou piadas que podemos antecipar minutos antes de aconteceram, como aquela envolvendo um homem cujo sobrenome é “Fulam” e que, é claro, alguém troca por “Fulano”.

Os repetitivos planos da comida sendo preparada jamais empolgam, e a falta de energia e ritmo de Gosto Se Discute apenas acentua a falta de lógica do roteiro. Em certo ponto do filme, Cristina decide chamar Patrick para atuar como consultor do Guto’s e, então, é casualmente revelado que ele já havia trabalhado para Augusto. Por que ela chamou um concorrente, e alguém com motivos para ter rancor de Augusto, para aconselhá-los? E por que não sabíamos até agora que havia esse antecedente na relação entre o protagonista e o antagonista do longa? Esses descuidos tornam-se ainda mais pronunciados no terceiro ato — a revelação que leva a trama para sua conclusão acontece de maneira completamente bagunçada, encerrando o filme com um gosto ainda mais azedo.

Jogando ainda uma subtrama envolvendo religião e espiritualidade em cima de tudo isso, Gosto Se Discute perde tempo demais com elementos que não importam em nada apenas para correr pelos acontecimentos-chave da trrama, como a reformulação do cardápio, ainda que faça rir moderadamente quando discute a ânsia desesperada de ficar por dentro da última moda (como quando Patrick aluga um restaurante e diz que vai abrir um food place).

Mas é assim, cheio de incoerências e piadas sem graça, o filme mostra-se uma produção com muito menos personalidade e irreverência do que acredita ser, e tão fora da realidade quanto o antagonista deslumbrado com os últimos trends da culinária.


Gosto Se Discute (Brasil, 2017), escrito e dirigido por André Pellenz, com Cássio Gabus Mendes, Kéfera Buchmann, Gabriel Godoy, Paulo Miklos e Robson Nunes.


Trailer – Gosto se Discute

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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