Globos de Ouro 2019 – Uma rapsódia meio bêbada, Satã e a “moça da água”


Errou feio quem achava que a premiação dos Globos de Ouro não iria surpreender ninguém. Talvez não o tenha feito com a monotonia e falta total de energia comum à Premiação, mas no final das contas, premiar o pior entre os indicados é sempre uma surpresa.

Bohemia Rhapsody, cinebiografia que finge ser da banda Queen, mas na verdade é apenas uma “ego trip” em volta da figura de Freddie Mercury, não é ruim, já que a recriação do momento histórico é impecável, assim como é um espetáculo ver a banda gravando e em cima do palco, mas é só isso, o resto é apenas refém desse cuidado estético e não faz nada além disso, o que é pouco.

Rami Malek, levou a estatueta de Melhor Ator na categoria de drama, justamente por encarnar muito bem o exagero de Mercury sob os holofotes, fora deles, esse exagero só atrapalha e cria um filme espalhafatoso demais para momentos que deveriam ser mais sutis.

No palco, no final da cerimônia, com toda produção, atores e até alguns ex-integrantes da banda celebrando a vitória, faltou apenas o agradecimento (e a presença), do diretor Brian Singer, que se desentendeu com todos esses caras e só ficou com os créditos, pois não existia tempo hábil para muitas refilmagens. Ganhou o filme sem diretor.

Mas talvez esse caos seja o retrato mais digno dos Globos de Ouro, a “festa” que abre a temporada de premiações de Hollywood e é conhecida por ser quase um “jantar da firma”. Um clima que não deixa de ser curioso, já que o palco parece sempre estar em disputa pelo interesse de uma plateia que está constantemente levantando, indo de um lugar para o outro e, é claro, tomando champanhe, ou algo mais. O que nos leva a Christian Bale.

Bale, levou o outro prêmio de Melhor Ator, esse, pela comédia Vice, onde interpreta o ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Chaney. Para surpresa de muita gente, o ator que é nascido no País de Gales, mas nunca deixou o sotaque britânico transparecer, subiu ao palco com toda pompa que a língua da Rainha lhe deu. Melhor ainda (ou pior), também agradeceu a, ninguém mais, ninguém menos que Satã, “por ter servido de inspiração para o seu trabalho no filme”. O que, convenhamos, não deixa de ser uma verdade, se duvidar, é só dar uma olhada na biografia de Chaney.

Mas nem só de maluquices satânicas sobreviveu os Globos de Ouro, Regina King, outra atriz a levar uma estatueta, por Melhor Coadjuvante no filme Se a Rua Beale Falasse, levantou a plateia ao se posicionar diante da obrigatoriedade de 50% de mulheres nas produções que ela comandar.

Ainda entre as mulheres, Glenn Close levou o prêmio de Melhor Atriz em drama, estatueta que todo mundo queria que fosse parar no colo de Lady Gaga. No discurso, Close, com mais de 40 anos de cinema, falou sobre a importância de acreditar e seguir em frente, o que pode parecer discurso pronto, mas que, com certeza, serve de inspiração para que milhares e milhares de meninas continuem acreditando em seus sonhos.

A HFPA (Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood) ainda inaugurou em 2019 o Prêmio Carol Burnett, que seria um equivalente do Prêmio Cecil B. DeMille para a TV. E assim como no do cinema, a primeira ganhadora foi, justamente, a comediante Carol Burnett, um dos maiores ícones da TV americana e que merece toda e qualquer homenagem.

É importante ainda ver aqui o esforço dos Globos de Ouro para manter esse equilíbrio de gênero (se é que essa expressão existe), já que seria perfeitamente aceitável que o nome do prêmio homenageasse um homem, mas que, ao celebrar uma atriz do calibre de Burnett e que ainda vem de um gênero extremamente dominado por homens, a comédia, pelo menos consegue se posicionar um pouquinho mais nesse luta que ainda está longe de terminar.

Longe de terminar, pois, por exemplo o próprio Prêmio Cecil B. DeMille, começou a ser distribuído em 1952 e desde lá, distribui 15 estatuetas para as mulheres e 54 para homens, o que está bem longe do mínimo de equilíbrio que todos gastaríamos que existisse.

Em 2019, o Cecil B. de Mille foi entregue a Jeff Bridges, talvez um dos maiores ícones do cinema. E se não acredita, procure dar uma olhada na montagem de homenagem a ele e perceber o quanto Bridges esteve envolvido em clássicos do cinema e personagens inesquecíveis.

Ainda falando em esquecimento, vai ser difícil lembrar de qualquer momento envolvendo os apresentadores Andy Samberg e Sandra Oh, sofrendo tanto com os roteiros ruins, quanto com as limitações técnicas, já que precisavam ficar parados em um plano americano sem graça enquanto liam o “tele prompter”. Pelo menos, Jim Carrey estava por lá para roubar a cena e dar um mínimo de ar de graça nessa festa monótona e chata.

Sobre o futuro, talvez os Globos de Ouro não influenciem em nada as outras premiações, mas, com certeza, ver Roma levando dois prêmios importantes como Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Diretor demonstram que existe um mínimo de sintonia entre a opinião geral e a HFPA, coisa que nem sempre acontece.

Principalmente, porque Nasce Uma Estrela continua sendo a barbada (junto de Roma), em tudo mais que vier, mesmo não tendo levado a grande premiação da noite. Mas talvez o grande vencedor da noite tenha sido, Green Book – O Guia, que levou os troféus de Melhor Filme entre as comédias e musicais e ainda o de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali, definitivamente colocando-o na lista de quem será lembrado nas premiações que se seguem. Não pela influência, mas sim pela impressão de unidade e o hype que vem se criando ao redor desse filme.

Assim como é lógico que Bohemian Rhapsody irá perturbar a lista de mais algumas premiações, mas nelas, se tudo der certa, a surpresa não será entregar o prêmio para o filme menos interessante entre todos os indicados.

Confira a lista completa de vencedores do Globo de Ouro 2019

PS: A outra grande vencedora da noite foi mesmo a “moça da água Fiji”, a modelo canadense Kelleth Cuthbert que talvez tenha se tornado o “meme da noite”. Quem sabe ano que vem alguém não esteja servindo água para ela.

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