Gauguin: Viagem ao Taiti | A busca de um artista

Gauguin Filme

A passagem de Gauguin pela Polinésia, ponto de partida para Gauguin: Viagem ao Taiti, não é apenas a história de um homem do mundo moderno indo resgatar sua origem selvagem, mas a de um artista buscando entender sobre as perdas envolvidas nesta transição.

Vincent Cassel como Gauguin se entrega ao ato de se transformar no homem branco vivendo como nativos, mas sem nunca deixar de lado as telas e tintas que revelam que ele será eternamente um observador. Seu ressentimento pela miséria e sua indignação pelo seu amigo nativo se transformar em um mero comerciante demonstram a triste, inconsolável verdade, uma vez que se viveu sob as asas da civilização do estilo europeu, rico ou pobre, nunca mais se volta à inocência da vida simples e sincera ao lado da natureza.

Este não é um filme muito feliz. Ele é frustrante na medida em que entendemos que uma vez que há contato entre duas culturas uma delas irá se perder, ou se transformar mais radicalmente. E os momentos fugazes que Gauguin captura em suas pinturas parecem já conter traços de sua própria cultura. Aliás, note como sua musa, Tehura, interpretada por Tuheï Adams com uma postura sincera, gentil e independente, se transforma em seus quadros, que vão do cotidiano tribal, passa pela erotização natural (e fetichista), pelo esotérico e termina em uma nova forma de burguesa falsa. Talvez o ápice de repulsa dos que acreditam no mito do bom selvagem.

Gauguin: Viagem ao Taiti Crítica

O filme de Edouard Deluc possui tons melancólicos espalhados por uma passagem interessantíssima da vida do pintor, o que torna sua descoberta ainda mais dolorosa. Felizmente há momentos de pura completude, simbolizados por um coração fraco que se recusa a se render e ser internado em um hospital, pois sua urgência com suas telas e sua vontade de viver atingiram o nível máximo. Podemos até conjecturar que Gauguin provavelmente viveria mais com os recursos médicos da civilização, mas vale a pena trocar a qualidade de uma vida plena pela mediocridade eterna?

A fotografia, tão importante nesse trabalho, segue um caminho interessante: as cores do mundo selvagem são pálidas, em dias sempre nublados e tons que não se distanciam uns dos outros, mas as cores de Gauguin, ainda que longe de serem carnavalescas, por contrastes são mais alegres, embora sempre harmonizem com o ambiente onde foram pintadas. A trilha sonora, por outro lado, nunca deixa a tristeza de lado, que desde a festa de despedida na Europa apenas se intensifica, elaborando melodias dissonantes e dramáticas sem chamar muita atenção para elas.

O roteiro é baseado no livro do próprio Paul Gauguin, Noa Noa, que muitos dizem já ser em parte romantizado. Se isso for verdade, que tristeza a melodia de um homem só, que tentando viver como selvagem busca resgatar seu elo perdido, mas encontra apenas seu próprio reflexo na natureza. Demonstrando que a perda da inocência não é algo irreversível, mas inevitável. Quiçá remediável. Mas isso não sabemos por este melancólico filme.


“Gauguin – Voyage de Tahiti” (Fra, 2017), escrito por Edouard Deluc, Etienne Comar, Thomas Lilti e Sarah Kaminsky baseados no livro de Paul Gauguin, dirigido por Edouard Deluc, com Vincent Cassel, Tuheï Adams, Malik Zidi.


Trailer – Gauguin: Viagem ao Taiti

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