Garotas em Fuga | Buscando sentido

Garotas em Fuga Filme

Garotas em Fuga é uma versão adolescente de Garota Interrompida com um andamento mais leve – porque não há atrizes à altura – e uma história mais pesada – porque é ela que precisa apresentar seus personagens.

Não se trata de um estudo de personagem, como o filme de Angeline Jolie e Winona Ryder, porque vamos descobrindo aos pouco sobre essas três garotas que fogem de um sanatório para jovens moças que, por motivo ou outro, precisam se isolar da sociedade e manter suas vidas na base de remédios.

A protagonista é uma jovem perturbada com tendências suicidas (Lisa Viance) que precisa encontrar seu pai a todo custo e que impulsiona um road movie simples e despretensioso. Episódico graças à sua companheira viciada (Yamina Zaghouanie) que rouba a cena em todo momento que participa (daí a dobradinha Ryder/Jolie mais uma vez). O terceiro elemento é uma garota que esconde seu trauma através da ansiedade infantil de comer compulsivamente (a adequada, embora “clichezaça”, Noa Pellizari).

O trio de atrizes e sua diretora estreante Virginie Gourmel (belga) usam o roteiro do também diretor Micha Wald para emplacar um thriller dramático que se aproveita de luz, e da ausência dela, para dar o tom sombrio adequado para sua história, que em linhas gerais é sobre uma jovem de 17 anos que não consegue suportar o peso de uma realidade a esmagando todo dia. Não é à toa que ela está sempre com um moletom roxo, que é uma cor clássica para indicar morte no cinema. Sua escolha não é entre encontrar o pai e ser feliz ou tentar se matar eternamente presa em uma clínica, mas entre viver uma vida que vale a pena ser vivida ou simplesmente desistir.

Este é um filme cru com reviravoltas naturais e que, portanto, não precisa manipular seus personagens, que são forças da natureza. A amizade inusitada e rápida entre uma pré-adolescente e um garoto de cinco anos gera os momentos mais reflexivos do filme, que se esforça para não soar clichê, utilizando de metáforas com animais inocentes perambulando pela floresta ao mesmo tempo que aborda questões adultas entre crianças. E é de onde vem sua força dramática.

“Por que vivemos em um mundo onde a realidade bate à porta tão cedo de alguns jovens?” deveria ser a pergunta que o filme faz. “Porque a vida real, cedo ou tarde, acontece, e o quanto antes as crianças forem introduzidas a eles, melhor” seria a resposta correta. Mas não estou certo de que este drama é sério o suficiente para abordar respostas corajosas como essa.

Esse texto faz parte da cobertura da 42° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


“Cavale” (Bel, 2018), escrito por Micha Wald, dirigido por Virginie Gourmel, com Lisa Viance, Yamina Zaghouanie, Noa Pellizari.


Outros artigos interessantes:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *