Game of Thrones teve o final que merecia. Você que não quer ver!

O final de Game of Thrones decepcionou muitos fãs!

Poucas semanas atrás, enquanto não conseguia chegar na bilheteria de Avatar, um “pensador contemporâneo” disse: Parte da jornada é o fim. Isso não quer dizer que seja só isso. Game of Thrones acabou, mas muita gente acha que só o final importa.

O problema, na verdade o maior problema, é que não é o final que é ruim, mas você, que pode ser meio chato e não está sabendo lidar com suas expectativas. A série da HBO teve oito temporadas e 73 episódios, o que ela fez em mais ou menos uns cinquenta deles a coloca no alto da cadeia alimentar da história das séries de TV mundiais.

Game of Thrones será lembrada assim como Família Soprano, Six Feet Under, The Wire, Battlestar Gallactica, Lost e mais algumas que eu estou esquecendo, mas que mereciam ser lembradas. Séries que mudaram o jeito de se ver TV, mas mais do que isso, que influenciaram o que veio depois. O legado de GoT ainda não está sendo transmitido. É preciso deixar essa impressão, essas lembranças, se esvaírem um pouco antes de colocar no ar algo que será comparado.

De qualquer jeito, não serão essas três temporadas finais que prejudicarão o que foi feito no resto. E não venha com esse papo de “com o Martin fora, os showrunner, David Benioff e D. B. Weiss não sabiam o que fazer”. Sabiam, e sabiam bem, tanto é que tornaram mania mundial uma história que está ai nas livrarias desde o começo dos anos 90 e ninguém sabia.

Os livros não são responsáveis pelo sucesso da série

Martin criou o mundo, mas quem levou ele para sua casa foram os dois. O problema é que GoT virou uma mania maior do que suas pretensões e “costas quentes” podia lidar. O nono episódio da terceira temporada, “The Rains of Castamare” se tornou um hit da internet com os leitores do livro ganhando milhares de likes enquanto filmavam a reação das pessoas durante o “Red Wedding”. GoT ganhou o mundo e saiu de dentro da bolha da TV à cabo.

O mundo ficou pequeno para Daenarys e seus dragões. Aos poucos, uma trama onde o palaciano e os corredores do poder preparavam o cenário para a sutileza de pequenos atos de selvageria e traição, teve que dar um lugar a uma “espetacularização” que enchia as telas de TV dos domingos à noite de um público que não queria mais apenas uma conversa em volta da fogueira.

A quarta temporada fez todos torcerem por Oberyn, mas terem suas frustrações testadas. GoT lembrava mais uma vez a seu público, tanto o antigo, quanto o novo, que era uma série não sobre o clímax do herói perfeito, mas sobre a falha, o ego que mata e a destruição diante do inevitável, mesmo que isso não seja climático. Game of Thrones é sobre grandes guerreiros lendários que morrem sentados na privada, nunca sobre seus feitos heroicos, esses ficam nas lembranças e palavras da canção de algum bardo (que sabiamente foi cortado da adaptação da TV).

Enquanto a quinta temporada começava a posicionar as peças nesse grande tabuleiro, era a última onde um livro publicado poderia “servir de guia” para os “especialistas de plantão” criarem suas teses. Mas John Snow estava vivo e a “Batalha dos Bastardos” ainda pode ser considerada por muitos como um dos momentos mais violentos e desesperadores que a TV mundial já produziu.

O que nos leva a esse novo Game of Thrones que acabou ontem. A sutileza das palavras não ditas foram, aos poucos, sendo transformadas em grandes dragões e batalhas gigantescas que precisavam fazer sombra àquela dos dois bastardos lutando pelo Norte. O público vibrava com os efeitos especiais e os milhões de dólares escorrendo pela tela da TV, mas faltava algo. Faltava alma. Faltava calma.

O final que foi construído para Game of Thrones

A preparação, a calmaria antes da tempestade, deu lugar à uma… tempestade antes de uma tempestade maior ainda. Era preciso respirar e pensar sobre o que estava acontecendo, não só seguir uma trilha do corpos, fúria e imposição da força. Dany e seus dragões conquistaram Westeros, porque tinham um poderio maior, assim como a série blockbuster ganhou daquela da fogueira, porque era o que o seu público queria.

Mas todo carnaval tem seu fim, e era hora de arrancar a fantasia e deixar que Game of Thrones respirasse mais uma vez antes de seu derradeira despedida. De acordo com vários “medidores ‘internéticos’ de gosto”, o episódio mais bem avaliado dessa última temporada é, justamente, aquele onde GoT volta a suas origens enquanto posiciona suas peças para o que vem a seguir. “The Night of the Seven Kingdoms” foi procedido do escuro “The Long Night”, um espetáculo técnico onde a verdadeira batalha entre o bem e o mal aconteceu… e acabou.

Simples assim, teve um fim. Não existia mais nada a ser feito. Nunca Game of Thrones foi sobre os “white walkers”, mas sim sobre o Trono de Ferro. Do outro lado da muralha, eles eram o perigo iminente que não permitia que o “lado bom” se juntasse para lutar contra o “lado menos bom”. Sim, por mais que os Lannisters fossem o cão chupando manga, era fácil entender o que estavam defendendo e torna-los apenas vilões derrubaria a série.

Game of Thrones nunca foi sobre vilões, nem o Rei da Noite era simples. GoT era sobre loucura diante do poder e manipulação. Daenarys nunca lidou bem com essa segunda opção, e desde o primeiro momento foi refém do poder e de medo. Tanto o medo que ela tinha, quanto o medo que ela aprendeu que deveria provocar para impor seu poder. “Um Khal que não pode andar a cavalo, não pode liderar”, é a imposição de sua figura que mantém o respeito, não a simpatia.

Quem não percebeu isso no âmago de Dany, provavelmente estava vendo uma série diferente. Portanto, não há dúvidas que seu destino nesses últimos dois episódio é de uma coerência tão violenta e poderosa, que fez seus fãs virarem a cara diante da verdade inevitável.

As expectativas para o último episódio

O que você queria, um final de explodir sua cabeça ao estilo “hold the door” pode não ter vindo, principalmente, porque GoT nunca foi essa série e nem queria ser. Nem John Snow seria destemido, mas um herói hesitante que nunca aprendeu a confiar em seus instintos, que nem sequer consegue entender quem realmente é, foi, ou poderia ser. John Snow não se tornou um “bundão” nessa última temporada, ele sempre foi um “bundão”. Um “bundão” em um mundo onde todos querem sua fatia do bolo e mastigam personagens como John Snow no café da manhã.

Mas são esses mesmos personagens heroicos que morrem de modo trágico e inesperado, já que estão sempre prestes a colocar suas coragens em risco, diferentemente da sobriedade ética e moral do filho bastardo de Ned Stark, que, no final das contas, finalmente protagonizando seu próprio destino, libertando Westeros de tempos ainda mais escuros e dando aos Stark a recompensa por tudo que passaram.

Game of Thrones acaba condizente com sua própria história. Só não termina como começou, porque deu aos Stark um reino para cada herdeiro. Assim como consegue “quebrar a roda” enquanto coloca-a exatamente no mesmo lugar de onde ela nunca sempre deveria ter sido tirada.

Um final condizente, corajoso e firme, que pode não ter sido aquilo que você desejava, mas com certeza é aquilo que estava sendo tramado desde o começo. Só você que não tinha percebido.

Um “Trono de Ferro” agora comandado por alguém que manipulou a tudo e a todos para chegar nesse lugar. Um Norte livre e um mundo além da Muralha que agora tem um novo “Rei Corvo”. Sem esquecer é claro, do amor dos Lannisters, mesmo proibido, enterrado para sempre, junto de seu herdeiro, nas catacumbas de King´s Landding, para sempre na história junto com os esqueletos de dragões e um mundo onde a força ainda era o jeito mais fácil de impor um reinado.

Mesmo menos sutil e desesperadoramente grandioso nas últimas duas temporadas, Game of Thrones fez aquilo que devia ser feito. Contou uma história de um jeito coerente e que a colocou na história das séries de TV, quer você tenha gostado do final ou não.

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