Existe um momento logo no começo em Gaga – O Amor pela Dança que o renomado coreógrafo israelense Ohad Naharin, diretor da Companhia de Dança Batsheva, fala sobre o nascimento de seu amor pela dança como único modo de se comunicar com o irmão gêmeo autista.

Dirigido por Tomer Heymann, o documentário vai exatamente em busca disso, dessa complexidade. Tanto de entender esse artista que mudou a história da dança moderna (como as manchetes dos jornais dizem ao abrir o filme), quanto entender como se formou esse personagem tão difícil, mas que acima de tudo é movido pelo amor pela dança.

Em outro momento, buscando a perfeição de seu artista ele a obriga a se deixar cair no chão vezes e mais vezes, sua busca é por um movimento tão sutil que os olhos quase não o enxergam, mas quando o movimento atinge a perfeição, você percebe. E a câmera de Heymann acompanha isso como uma testemunha ocular do nascimento de uma obra de arte.

Dito assim, parece que Gaga é uma tentativa de desvendar a arte de Naharin como recentemente fizeram com David Lynch em A Vida de Um Artista, mas o objetivo aqui é muito mais claro e biográfico. Heymann, com a ajuda de uma vasta quantidade de imagens de arquivo, vai com o dançarino desde sua infância até sua passagem por Nova York e por fim sua volta a Israel e o modo como transformou o Batsheva em uma das companhias mais respeitadas do mundo.

Ao mesmo tempo que conta essa história, o espectador ainda é agraciado com os próprios números de dança criados por Naharin. Não explicando um movimento ou um contexto, apenas deixando o filme mais bonito e não escondendo a genialidade de Naharin somente em suas palavras.

Gaga - O Amor Pela Dança Filme

Uma combinação que se desafia a todo tempo tentar entender o que é a dança em todo sua profundidade mais poética, tanto no que está sendo falando, tanto no que está sendo mostrado. Um filme que se deixa ser sentido em cada movimento.

E talvez tentar desvendar Naharin passe por essa necessidade de sentir o que ele sente. Suas coreografias são violentamente orgânicas, assim como suas ideias, e quando mais pra frente no filme ele conta que um dia inventou uma história sobre um irmão autista para responder a uma jornalista a tediosa pergunta “por que você começou a dançar”, o espectador (igualmente enganado) irá entender que não precisa haver razão para nada. Basta apenas ser.

Naharin aponta a arte como a “essência do tudo no nada”, e à partir daí você começa a entender o quanto o significado é pouco importante na hora de se sentir seja uma dança ou qualquer outra obra de arte. O ponto é justamente nada precisar de uma razão para existir. Entender esse coreógrafo, suas ambições e opções é apenas uma porta de entrada para o mais importante: sentir sua dança.

O Gaga do título, no caso, é uma espécie de linguagem corporal inventada por ele que conta com a falta de necessidade de uma coreografia, somente sentimento e o entendimento que o corpo necessita da liberdade de sentir. E se você precisa cair no chão uma dezena de vezes antes de aprender a se deixar cair, que o faça, já que quando você entender a cair, o chão deixa de ser o limite.

*o texto faz parte da cobertura do 2° Santos Film Fest


“Mr.Gaga” (Isr/Sue/Ale/Hol, 2015), escrito e dirigido por Tomer Heymann


Trailer – Gaga – O Amor Pela Dança

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