Ao final de Frantz, apesar de ensaiar uma mensagem de esperança, há um peso imenso a ser erguido quando nos levantamos da poltrona. Um filme que explora seu tema de forma tão sistemática e apaixonada que não sobram muitas lacunas para onde o espectador mais crítico se esconder. Ainda que seja um drama um tanto exagerado, não se pode acusá-lo de não ser honesto. E assim como ao final de uma guerra, não sobram perdedores e vitoriosos, mas dois lados ressentidos e amargurados, ambos em estado de melancolia generalizada.

E é nesse clima que começa o filme dirigido por François Ozon, um remake ou reimaginação de um filme de mais de 80 anos, “Broken Lullaby”, de Ernst Lubitsch. Você não irá querer saber a história de nenhum dos dois e nem o título brasileiro do primeiro se quiser acompanhar o filme até a “revelação” da metade. Porém, se for um cinéfilo de carteirinha é provável que já conheça Lubitsch, um dos pioneiros na arte de evoluir a arte cinematográfica e que diziam que tinha um “toque” especial: a capacidade de deslocar problemas do mundo real para seu próprio universo particular, metafórico, onde tudo é discutido de uma forma peculiar, sem ironias ou maldades.

Pode-se dizer que Ozon manteve uma certa aura “Lubitschiana” em Frantz, pois aquelas pessoas são solenes demais. O filme é em sua maioria rodado em preto e branco, mas não é isso que o faz parecer “datado”, mas sim justamente essa honestidade, ingenuidade até, de falar com o espectador.

Mas embora transparente, cada elemento de composição dos personagens precisa ser levado em conta, e para isso conta muito o expressionismo exagerado, mas controlado, do elenco. O filme urge que você sinta o peso da culpa do pai de Frantz, que incentivou o filho a ir para a guerra, assim como os filhos de seus amigos o fizeram, pois estava movido e cegado pelo seu patriotismo imperialista. É preciso também olhar fundo nos olhos e no sorriso tímido, mas convidativo e cheio de esperança de sua mãe, que anseia desesperadamente por qualquer coisa que acalente a dor de perder seu único filho. Mais importante ainda, entender cada detalhe da rotina dolorosa de sua noiva, Anna (Paula Beer), que segue marchando de preto colocando flores na lápide que não contém nada, e como uma viúva prematura que abraça sua perda parece representar o lado mais amargo de uma guerra: a perda da vontade de viver.

Por fim, é nos maneirismos desajeitados e tímidos de Pierre Niney como Adrien Rivoire que se faz valer o “remake” de Ozon. Quando o jovem soldado francês visita pela primeira vez aquela família alemã, uma das muitas martirizada pela perda de seu filho para a guerra, e descobrem que Adrien foi um amigo próximo de Frantz e que ambos passaram bons momentos em Paris, todo aquele ódio e ressentimento dos franceses parece se esvair dos olhos do pai e toda aquela névoa de tristeza que cobre aquela casa parece diminuir. Ozon sabe o que está acontecendo, aproxima a câmera e consegue mostrar de maneira eficaz a transição de um grande cômodo com pessoas afastadas, por outro lado, logo vamos para um jantar em família, com todos reunidos a menos de um abraço de distância.

É na mudança da percepção da realidade das pessoas onde iremos encontrar as mensagens mais profundas nesta história. O olhar melancólico de Anna em direção a uma vitrine contemplando um vestido de festa que parece infinitamente distante de sua realidade só potencializa o quanto aquilo era doloroso para ela quando a vemos sorrir ao escolhê-lo para um baile, em provavelmente o seu primeiro sorriso do filme, que a essa altura já caminha para quase metade. E da mesma forma, a “semi-revelação” que acontece da metade para o final, embora quase que previsível, encaixa perfeitamente na discussão sobre como nossa visão sobre o mundo nos altera e em contrapartida altera o mundo. Ao mesmo tempo abre outra discussão mais controversa ainda: até que ponto a verdade é um bem desejável, já que às vezes nossa dor é tão forte que a própria vida não valeria mais a pena se soubéssemos a verdade.

Fora o intenso jogo de personagens que ocorre em Frantz, há um cuidado especial de Ozon em ambientar o drama na tensão pós-guerra, da vitória da França e derrota da Alemanha, da montanha de ressentimentos que ambos os lados precisam carregar, e cuja pilha de corpos e aumento de lápides negam a consolidação do fato de que o inimigo não está mais lá. Tudo isso ajuda a tornar o clima de qualquer discussão ligeiramente mais pesado do que se estivéssemos distantes do campo de batalha.

Frantz Crítica

E por falar em pesado, este é um filme que encontrou um uso extremamente poderoso do contraste entre o preto e branco e o colorido, algo que A Lista de Schindler e sua falta de sutileza seria incapaz de conceber. Apesar dos cenários límpidos, poéticos, quase saudosistas, e com um jogo de luz, contraste e enquadramento que tornam qualquer momento de Frantz memorável, quando vemos os poucos momentos em que a cor banha aquele mundo lembramos como algo belo, mas escuro, fica ainda mais belo se banhado pelos raios de sol.

A partir desses momentos percebemos que a cor drenada na verdade não quer dizer um filme de época, mas muito mais uma pesada cortina sentimental que impede que a felicidade brilhe. A fotografia representa uma verdadeira pérola de significados em meio a um filme que os martela com dignidade, embora sem leveza. A trilha sonora também acerta, por sua vez, quando se revela apenas nos pouquíssimo momentos onde há música no recinto ou quando há lembranças de uma época mais feliz.

Ozon se aproxima de Lubitsch quando resolve discutir ideias grandiosas, ainda que por trás de uma história intimista e familiar. Ele se distingue quando resolve trilhar o caminho das abstrações, dos pontos de vista e do jogo de expectativas de seus personagens. Se existe também um mundo particular onde ocorrem as histórias dirigidas por Ozon, garanto que lá, diferente da “Lubitschland”, são permitidas ironias e maldades. O que torna tudo muito mais pesado, é claro, mas muito mais humano.


“Frantz” (Fra/Ale, 2016), escrito por François Ozon, Philippe Piazzo, Ernst Lubitsch, Reginald Berkeley, Samson Raphaelson, dirigido por François Ozon, com Pierre Niney, Paula Beer, Ernst Stötzner, Marie Gruber, Johann von Bülow


Trailer – Frantz

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