Flores Raras

Responsável pela indicação de um filme brasileiro ao Oscar de melhor filme estrangeiro (em 1998, com O Que é Isso, Companheiro?) e pela maior bilheteria do cinema nacional (Dona Flor e Seus Dois Maridos, que, em 1976, levou 12 milhões de Flores Raras Posterpessoas ao cinema), Bruno Barreto enfrentou dificuldades para encontrar financiamento e demorou anos para conseguir concretizar este Flores Raras por puro preconceito. Em Em tempos de Marco Feliciano e projetos de “cura gay”, a existência deste longa é importante.

Adaptação do livro Flores Raras e Banalíssimas, de Carmen L. Oliveira, o longa nos apresenta à história da poeta norte-americana Elizabeth Bishop (Miranda Otto, a Éowyn de O Senhor dos Anéis) e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares (Glória Pires). Passando por uma crise em sua carreira e com a intenção de passar apenas alguns dias longe de sua rotina, Elizabeth embarca para o Rio de Janeiro no início da década de 50, onde se hospeda na casa de uma velha amiga de faculdade, Mary (Tracy Middendorf), lugar que mais parece um paraíso particular em Petrópolis, desenhado pela namorada de Mary, Lota, uma mulher expansiva e divertida Lota, que, de início, despreza a melancolia e o silêncio de Elizabeth, mas conforme vão se conhecendo melhor durante a prolonga estadia da norte-americana, vão se descobrindo e se tornando cada vez mais fascinadas uma pela outra. Situação que dá início a um romance que se estende por duas décadas.

Barreto e os roteiristas Carolina Kotscho e Matthew Chapman abordam a homossexualidade de suas protagonistas de maneira completamente natural e sem a necessidade de martelar o tempo inteiro o preconceito da sociedade, nesse caso apresentada de maneira orgânica, por exemplo, quando Elizabeth e Lota se “arriscam” a trocar carinhos ao caminhar na praia quando “não tem ninguém olhando”, ou ao dizer que Elizabeth e Mary se tornaram próximas na faculdade por ambas passarem pela mesma experiência de descobrirem (e esconderem) sua orientação sexual. Nesse sentido, a construção da personagem de Lota, por exemplo – uma mulher forte, expansiva, controladora e, por vezes, agressiva – é eficiente ao não apresentá-la como “o homem da relação”.

E Glória Pires se entrega totalmente a sua personagem, tanto encarando o desafio de ter quase todas as suas falas em inglês, como ao estabelecer a impulsividade e intensidade de Lota, que, após apenas alguns dias depois de conhecê-la, declara seu amor por Elizabeth e, mais tarde, não hesita em dizer a ela que o amor das duas “é para sempre”. Assim, é interessante perceber como o último momento romântico que teve com Elizabeth antes desta voltar para Nova York resultou em seu desejo de reproduzir a luz do luar no Parque do Flamengo, pelo qual foi a principal responsável. Da mesma forma, Miranda Otto carrega o filme e cria uma complexa e interessantíssima personagem, uma mulher que, de certa forma, se orgulha de sua melancolia e de sua dificuldade de se relacionar com as pessoas (afinal, é uma poeta), e cujo relacionamento com Lota e a estadia no Brasil foram responsáveis por seu melhor momento como escritora (foi aqui que ela escreveu North and South – A Cold Spring, que lhe rendeu um Pulitzer em 1956). Já Tracy Middendorf aproveita ao máximo suas cenas, fazendo com que suas ações e sentimentos sejam sempre compreensíveis.

Flores Raras Filme

Com belos momentos como quando a parede que divide a tela ilustra a barreira criada pela atração de Lota por Elizabeth impedindo seu relacionamento com Mary, ou o belo (mesmo que um tanto óbvio) apagar das luzes do parque em certo momento, Flores Raras perde um pouco de seu ritmo ao alcançar o período da Ditadura Militar, já que não consegue equilibrar este acontecimento com sua trama principal. Mesmo sendo interessante perceber, por exemplo, como a sensibilidade de Elizabeth faz com que ela rapidamente perceba que um golpe militar significará o fim da liberdade aos brasileiros, o longa falha ao abordar de forma rasa as consequências do ato e as motivações de Lota para apoiar o golpe.

Já durante os créditos finais, vemos uma frase de Robert Lowell (amigo de Elizabeth) declaranado que ela é uma entre quatro mulheres capazes de escrever poesia tão bem quanto os melhores poetas homens apenas para, logo em seguida, ser contraposto por Elizabeth lembrando que prefere que a qualidade de seu trabalho seja analisada sem referências a seu gênero. Assim como Flores Raras, que merece aplausos não apenas por narrar a belíssima história de Elizabeth e Lota, mas por nos apresentar a uma escritora fascinante, e a prova disso será que seus admiradores apreciarão a performance de Miranda Otto, e quem não a conhecia sairá da sessão ansiando para ler seus poemas.


Flores Raras, escrito por Carolina Kotscho e Matthew Chapman, dirigido por Bruno Barreto, com Miranda Otto, Glória Pires, Tracy Middendorf, Marcello Airoldi, Trat Williams e Luciana Souza.


Trailer do Filme Flores Raras

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