Filhos de Bach, uma co-produção entre Brasil e Alemanha, é um filme que tenta alçar voos, mas parece sempre ser sabotado por sua história episódica, também simplista e desonesta. Tudo pelo objetivo de tentar mostrar duas culturas bem diferentes entre si, além de uma aparente visão social.

A trama tenta de forma livre unir as histórias de órfãos alemães e brasileiros. Os alemães, uma dupla, viajaram o mundo com seu sucesso reinterpretando músicas de Johann Sebastian Bach, até sua eventual separação, quando um deles se casa com uma brasileira e vive o resto de sua vida em Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil. Quando falece deixa de herança para seu antigo companheiro, Marten Brückling (Edgar Selge), uma partitura inédita e inestimável do músico que tanto admiravam.

Sendo obrigado a ir para o Brasil receber sua herança por “ser uma obra de arte”, ele é assaltado e tem sua partitura roubada, além de seu instrumento. Ficando no país mais do que devia, vai aos poucos se habituando à cultura e à região através de Candido (Aldri Anunciação), o bem-humorado morador da cidade que fala alemão graças ao falecido músico. Não demora muito para que ele comece a ensinar crianças de um centro de convívio, incluindo, claro, os dois irmãos delinquentes.

Uma pergunta fica no ar enquanto avançamos na história: se já havia um músico alemão morando por quarenta anos na região, por que apenas Candido parece ser o único a ter esse conhecimento?

De qualquer forma, a direção do alemão Ansgar Ahlers é ágil e atravessa rapidamente seu início, até se esquecendo de pontuar, talvez, que ele toca ao lado do cemitério como uma forma de se comunicar com o ex-companheiro, embora não saiba disso. Da mesma forma, Ahlers consegue extrair o máximo de informações visuais que ajudam a explicar de maneira muito mais razoável do que os diálogos que ouvimos, que preferem soar engraçadinhos sem conseguir ser engraçado e sem querer dizer muita coisa, apenas se focando nessa diferença entre o alemão e o português brasileiro.

Filhos do Bach Crítica

Mas este é também um filme que atravessa sua história de maneira burocrática, sem nunca ter um momento em que ele se solte de seu esquemático roteiro, que vai inventando motivos esdrúxulos para que o músico continue no Brasil e até parta para uma empreitada arriscada demais para quem ainda parece ter medo de estar em outro mundo.

De qualquer forma, este também é um filme bonito, que extrai os cartões postais de praxe de uma Ouro Preto chuvosa e vazia. Além disso, provavelmente a tecnicidade sonora alemã foi responsável dessa vez por conseguir colocar em um filme brasileiro um design de som inteligível, algo importantíssimo para um filme que mexe tanto com música.

Ainda assim, como havia falado, nada em Filhos de Bach parece empolgar muito. Nem seus momentos finais. Isso porque seus fundamentos estão quebrados. Eles se baseiam em roubo e chantagem, que não são perdoáveis por serem feitos por personagens que não transmitem empatia alguma. Não sabemos seu passado, só sua condição. Isso torna a experiência genérica a ponto de não nos importarmos. O que acaba não sendo uma bela mensagem para um filme que fala da esperança das crianças.


“Bach in Brazil” (Ale/Bra, 2015), escrito por Ansgar Ahlers, e Soern Finn Menning, dirigido por Ansgar Ahlers, com Edgar Selge, Pablo Vinicius, Aldri Anunciação, Franziska Walser, Dhonata Augusto


Trailer – Filhos de Bach

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