Ferrugem | Se perde nas próprias ambições

Ferrugem Filme

Ferrugem tem a ambição de tratar de um tema sensível, mas fazendo-o de maneira tão sutil que sua mensagem se perde na tradução. Sua produção está equivocada, pois torna seus cenários tão higienizados que o resultado é um melodrama esquecível antes que sua segunda parte termine.

Por falar em partes, este é um filme que se divide em duas, dirigidas de formas bem distintas. Na primeira parte nós pensamos que o protagonismo da história é uma jovem de uns 16 anos, Tati (Tifanny Dopke), que está muito afim de um garoto, Renet (Giovanni de Lorenzi), que é o verdadeiro protagonista da história. Porém, isso só será revelado na segunda parte, e é capaz que você se esqueça dele, porque apesar deste filme lembrar um estudo de personagens… não há personagens; apenas estereótipos genéricos de jovens.

Outro motivo pelo qual a segunda parte se torna esquecível é porque na primeira a narrativa é mais dinâmica e colorida, cheia de luzes, música, e planos fechados que nos aproximam da vida de adolescentes grudados na tela do celular. É o mundo virtual que complementa o real, onde todos compartilham imagens e vídeos sobre si mesmos. Analisando Tati e Renet, percebemos que esta é uma história orientada em selfies, personas virtuais e reais com um passado que gostariam de esquecer. Tati gostaria de esquecer que foi traída pelo seu ex-namorado. Renet gostaria de esquecer de sua mãe; os motivos ficam ocultos por muito tempo, e quando são revelados não geram a indignação esperada. Sequer conseguimos entender essa raiva represada de Renet pela mãe.

Mas a Tati sim, quase conseguimos entendê-la enquanto protagonista, embora, como falei, seja em si um estereótipo de maiores qualidades. Podemos arriscar dizer que ela é decidida (ela que beija Renet), possui aparentemente opiniões fortes (ela que protege Renet de uma brincadeira de mau gosto do amigo) e sabemos que quando algo acontecer a ela no filme, possivelmente ela irá revidar. Esta não é uma jovem que costuma se fazer de vítima.

Ou é? Quando surge na história um vídeo íntimo da Tati com seu ex que vaza para toda a escola ver (e mais tarde, obviamente, toda a internet) sabemos que ela fica extremamente abalada, contrariando o pouco que sabemos dessa menina. Apesar de iniciar em seu núcleo com uma jovem introspectiva a ponto de ficar sozinha em um passeio da escola, mas extrovertida a ponto de tomar a iniciativa de beijar o garoto que gosta e defendê-lo em público, ao mesmo tempo ela é incapaz de lidar com o fato das pessoas comentando seu vídeo, em uma série de brincadeiras que não passam de piadas sem graça com a situação e julgamentos morais dos colegas.

Ferrugem Crítica

Aqui talvez o design de produção crie uma falsa expectativa de um filme descolado que se converte em drama. Com cenários, como eu disse antes, higienizados, o banheiro da escola onde estudam está cheia de pixações nas paredes pouco criativas até para adolescentes, mas em uma tentativa de fazer a escola soar natural, elas estão aí. O problema é que todas elas obedecem as divisões dos azulejos, denunciando um ambiente cinematográfico, pronto para vermos os personagens interagir.

Esse clima, meio que seja ligeiramente falso, é o suficiente para não conseguirmos entender o que se passa na cabeça de Tati. E o silêncio dos personagens em Ferrugem nos momentos que estão acuados, apesar de necessários, não nos ajudam a entendê-los. A consequência é que caminhamos pelo filme desinteressados por essas pessoas, pois são estranhos para nós, e nos concentramos na história, que entretém do começo ao fim nos momentos onde não vemos um desses jovens parado pensando na vida. A história poderia segurar nosso interesse sozinha, mas ela também soa como um folheto de jornal esquematizado.

O mais frustrante em Ferrugem é que ele é uma produção rica em detalhes, mas os detalhes estão soltos demais, nos fazendo ter que interpretar o mistério que cerca seus dois protagonistas em duas partes corretamente dissonantes, mas incorretamente enigmáticas. A transição entre as partes não é chocante, mas rápida demais, o que causa o efeito de ignorarmos o impacto de uma cena em específico (você a reconhecerá quando ela acontecer). E por mais que algo seja chocante, é difícil analisar a introspecção de jovens quando faltam pistas. E por falta de pistas, a conclusão cai no automático: são aborrecentes como outros quaisquer.


“Ferrugem” (Bra, 2018), escrito por Aly Muritiba e Jessica Candal, dirigido por Aly Muritiba, com Giovanni de Lorenzi, Tifanny Dopke, Enrique Diaz.


Trailer – Ferrugem

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