O créditos iniciais de As Férias do Pequeno Nicolau usam uma sequência de cartões postais sendo girados, o que está longe das encantadoras dobraduras que vimos no primeiro filme. Porém, asAs Férias do Pequeno Nicolau Poster comparações negativas com o original param por aí: a segunda aventura com o personagem dos livros infantis consegue manter a divertida brincadeira do mundo imaginado pelas crianças em alto nível e ainda acerta em cheio em suas comparações com o mundo dos adultos sem nunca soar inadequado para seu público mais jovem; uma rara ocasião hoje em dia para os pequeninos irem ao cinema assistir uma não-animação que guarda muito da sua estética cartunesca.

A estrutura adotada pelo diretor Laurent Tirard inicialmente confunde um pouco, mas não chega a ser um problema. Por exemplo, mesmo cinco anos depois de filmado a idade do protagonista é a mesma, graças à inclusão de um segundo ator para o papel principal – o estreante Mathéo Boisselier, que não fica devendo para seu antecessor Maxime Godart. A história decide também ignorar a existência de sua recém-nascida irmã, mas deixa claro que a história não se passa antes disso, já que Nicolau e Marie-Edwige (Chann Aglat), que havia conhecido melhor no filme anterior, são agora namorados. Nicolau promete enviar cartas para ela durante suas férias, o que acaba rendendo diversos momentos divertidos da história.

As férias, como apresentado na introdução, obviamente se passa na praia, o que quebra um pouco a discussão inicial entre os pais de Nicolau sobre onde ir. Uma vez lá logo faz novos amigos, que são apresentados usando o mesmo estilo do primeiro filme: um garoto chora de tudo, outro come qualquer coisa e assim por diante. Isso funciona particularmente bem porque os meninos são fisicamente semelhantes aos apresentados no primeiro filme, embora se evite aqui usar o velho clichê de repetir estereótipos (por exemplo, o mais fraco do grupo não é o que usa óculos).

Enquanto isso, os pais de Nicolau ganham mais destaque na história, e o fato de seu pai ter reencontrado um velho amigo serve de gancho para os acontecimentos na vida do próprio Nicolau, que conhece e passa a conviver com Isabele (Erja Malatier), uma menina de olhar fixo e expressão inalterada que vira facilmente um combustível para a sua já aguçada imaginação. Usando uma estrutura que mescla os acontecimentos das férias de Nicolau e seus pais, o roteiro faz interessantes comparações entre as vidas “amorosas” do menino e seu pai, brincando entre presente e passado e produzindo no mínimo uma belíssima cena envolvendo outro filme (Sabrina, com Humphrey Bogart e Audrey Hepburn). Porém, este também é um filme muito engraçado, e para colaborar com isso até uma batidíssima disputa envolvendo seu pai e um expansivo diretor de Cinema, apesar de ser o personagem menos interessante, também rende boas risadas que se dividem entre uma festa privada e um baile à fantasia, onde a melhor coisa é ver dois gorilas brigando pela mesma donzela.

As Férias do Pequeno Nicolau Crítica

E por falar nos personagens secundários, é agradável perceber como até os figurantes, que compõem um cenário típico de férias de verão, funcionam como uma espécie de paisagem em que a história irá se situar e interagir de maneira completamente orgânica, aumentando o dinamismo das cenas e revelando uma estrutura cuidadosamente preparada que faz lembrar do icônico As Férias do Sr. Hulot, que se beneficiava justamente do uso de figurantes para a criação das gags idealizadas pelo diretor Jacques Tati. Dessa forma, trivialidades como construir um castelo de areia ou um grupo de ciclistas ganha outras conotações, e mais uma vez a imaginação infantil consegue extrapolar acontecimentos corriqueiros e deixá-los extremamente divertidos.

Já nos aspectos técnicos a direção de arte constrói cenários com cores leves que harmonizam com o calor de uma praia no verão, mas mesmo assim consegue inserir objetos com detalhes de encher os olhos e que nos faz inocentemente mergulhar em seu passado nostálgico. Ao mesmo tempo, a fotografia, apesar de estar presa na leveza das férias, nunca se esquece de pontuar o vermelho tão presente na figura de Nicolau. Há no entanto uma curiosa exceção em uma sequência noturna, onde o azul límpido destoa de todo o resto (mas por um bom motivo que não revelarei). São momentos que mereciam um maior tempo de tela em seu final, e cujo desfecho acelerado infelizmente ignora seu potencial de manter uma tensão ainda mais envolvente. E por falar em envolvente, é quase desnecessário citar o tema doce e memorável de sua música-tema e todas trilha sonora que a acompanha, sempre colaborando em aumentar o clima fantasioso e cômico (principalmente quando este apela para o absurdo).

Aliando o cômico absurdo com o ritmo leve de sua trama, As Férias do Pequeno Nicolau é um filme fácil, divertido e engraçado, mas não necessariamente se limita a isso. Podemos observar uma camada a mais nos vários momentos em que Nicolau se imagina casando. As cenas em si já geram o riso fácil, mas são os detalhes de como as coisas ocorrem em cada nova reimaginação do garoto que convida-nos a uma curiosa reflexão sobre o que uma criança pensa da vida adulta ou do seu futuro. Uma das maiores virtudes se torna então fazer-nos lembrar como eram simples as férias de verão dentro da cabeça de uma criança.


“Les Vacances du Petit Nicolas” (Fra, 2014), escrito por Laurent Tirard e Grégoire Vigneron, dirigido por Laurent Tirard, com Valérie Lemercier, Kad Merad, Mathéo Boisselier, Bouli Lanners e Luca Zingaretti.


Trailer – As Férias do Pequeno Nicolau

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