Favela Olímpica é um documentário feito sobre um evento específico que acaba colocando em debate todo um sistema injusto. Ele é o novo Cabra Marcado Pra Morrer ou o novo Aquarius? Quase, e ele tem muitos elementos desses dois filmes, especialmente do primeiro. E um dos elementos mais vitais para seu funcionamento é a impunidade tão gritante que se torna visível, palpável e até apontável.

O tema é propriedade. A propriedade, nos termos da Constituição Brasileira, é protegida. Porém, e aqui vamos para o principal “porém” de toda a Carta Magna, é dito que a propriedade deve cumprir a sua “função social”. Você sabe o que é isso? Saberia definir exatamente quando uma propriedade cumpre e quando ela não cumpre a tal função social?

Pois é. Ninguém consegue. Ou melhor dizendo: consegue de acordo com seu ponto de vista. E no caso da Prefeitura do Rio de Janeiro, a função social da Vila Autódromo é menor que a função social da Vila Olímpica, que começa a ser construída do seu lado, e cujos acessos passam necessariamente pela comunidade presente ali há décadas. E com a devida posse das propriedades registrada desde 1998, dado o direito de uso dos terrenos por 99 anos.

Só que nada disso importa quando as obras começam. Liderada por grandes empreiteiras, logo fica claro o real motivo da desapropriação/compra dos terrenos dos seus legítimos moradores: um condomínio de luxo, do lado da lagoa, com um enorme espaço verde que será a Vila Autódromo. Assim que os funcionários do governo e sua força policial conseguirem enxotar todos de lá.

O trabalho do documentarista Samuel Chalard é de vital importância para que as informações não pareçam parciais ou incompletas. E Favela Olímpica brilha nesse quesito, conquistando várias medalhas. Logo no começo nos acostumamos a ver infográficos e notícias “pixadas” nos muros da comunidade, uma forma de usar o próprio mecanismo de protesto dos moradores, que pixam durante todos os anos de construção para o evento, diferentes formas de chamar a atenção para o desmantelamento de uma vila até então pacífica.

Favela Olímpica Crítica

O primeiro gráfico mostra a irrelevância do espaço ocupado pela vila de moradores comparado com o espaço destinado à construção da vila olímpica. No decorrer dos anos e fases do projeto, a negociação feita com os moradores para deixar suas casas em troca de apartamentos e compensação financeira aos poucos se torna o que no fundo sempre é o final de qualquer lei vaga ou injusta (como a tal “função social” da propriedade): conflito entre as forças armadas do Estado e a população, vulnerável e desamparada.

O filme acompanha também os testemunhos de diferentes moradores e seus diferentes destinos. É curioso acompanhar a mudança gradativa da opinião de cada um no decorrer dos anos, seja dos moradores ou do prefeito da cidade. Enquanto o prefeito vai se tornando mais hipócrita e com discursos mais abstratos, os moradores precisam racionalizar suas decisões, desde as mais corajosas às mais conformistas, já que eles não possuem a força das armas para fazer valer a sua opinião (como a tropa de choque carioca).

Dotado de uma trilha sonora apavorante, pois usa o estilo brasileiro de música com notas dissonantes, revelando o descompasso entre a teoria e a prática de uma nação, Favela Olímpica é um trabalho robusto, completo e ritmado. Os anos que passam são sentidos pelo espectador conforme o cerco entre os moradores aperta, casas começam a sumir, tratores começam a operar. De uma maneira torta, este é um filme que aponta na cara do brasileiro o que é essa brasilidade do comodismo, do egoísmo e da malandragem. E aponta também como as coisas poderiam ser diferentes se as vozes íntegras e honestas fossem ouvidas no lugar do som do dinheiro.


“Favela Olímpica” (Sui, 2017), dirigido por Samuel Chalard


Trailer – Favela Olímpica

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