Fala Sério, Mãe! | Para todas espectadoras se identificarem

Fala Sério, Mãe! Crítica

Baseado no livro homônimo de Thalita Rebouças, Fala Sério, Mãe! realmente centraliza sua história nas personagens cuja relação é a mais importante aqui: Ângela (Ingrid Guimarães), a mãe, e Malu (Larissa Manoela), a filha. Divertido e sensível, ainda que também frequentemente forçado e pedreste, a adaptação mostra-se envolvente e bem-sucedida na maior parte do tempo.

A sequência inicial de Fala Sério, Mãe! já mostra que o longa tem a intenção de acabar com qualquer romantismo que possa cercar a maternidade. Ali, o diretor Pedro Vasconcelos também cementa a base das frustações que Ângela enfrentará com a criação de sua primeira filha, Maria de Lourdes ¿ mais tarde, ela vai preferir ser chamada de Malu. Conforme a garota cresce, Ângela vê-se obrigada a rever todas as suas idealizações e planos (em grande parte, bastante conservadores) para a filha, como os planos de uma grande “festa de princesa” de 15 anos ou a matrícula em aulas de balé ¿ que Malu detesta; ela preferia fazer judô.

Para guiar a história, Vasconcelos usa um recurso que, provavelmente, é herdado do livro de Rebouças: Guimarães narra todo o primeiro ato do longa e, a partir de um determinado ponto em sua vida adolescente, é a Malu interpretada por Manuela quem assume as rédeas ¿ e também o protagonismo definitivo de Fala Sério, Mãe!. O recurso funciona por nos ajudar a ter mais envolvimento com cada uma das duas; se víssemos os “chiliques” de Ângela apenas pelos olhos da filha, ficaria difícil enxergar o carinho que há por trás de umas ações frequentemente estapafúrdias (o diretor chega perigosamente perto, por exemplo, de perder o controle sob o ridículo na cena que se passa em um ônibus).

Entretanto, a narração de ambas sofre pela escrita de Ingrid Guimarães e Paulo Cursino, que, nesse ponto, é bastante fraca ¿ talvez por terem o objetivo de se manterem bastante próximos ao que a autora havia escrito, os roteiristas frequentemente fazem suas personagens explicarem as piadas do longa ou descreverem exatamente o que estamos vendo na tela. Assim, um momento já não muito eficiente como uma gag que se desenrola no elevador torna-se ainda mais incômoda.

Fala Sério, Mãe Filme

Mais eficiente é a maneira com que os realizadores discutem o conservadorismo e as noções misóginas que muitas mulheres acabam abraçando ¿ e que, portanto, refletem-se na maneira com que elas criam suas próprias filhas. Nesse sentido, funciona particularmente bem a cena em que Ângela questiona a simpatia e o sorriso fácil de sua filha, pois, para a mãe, isso faz com que Malu passe a impressão de ser “oferecida, dada, fácil” ¿ algo que a garota imediatamente rejeita, e que leva a uma discussão em que, pela primeira vez, Malu sente que é ela, e não a mãe, quem tem razão.

Outro acerta do longa é o de manter o foco extritamente em Ângela e Malu, sem deixar que personagens masculinos apareçam para tirar o protagonismo da dupla. Malu se envolve com um garoto na adolescência, mas sua importância é apenas a de levar a garota a momentos marcantes de sua vida ¿ o primeiro beijo, a primeira vez, a primeira viagem sem os pais ¿, e não como personagem. Este é um filme assumidamente sobre mulheres.

Por outro lado, até mesmo o relacionamento entre mãe e filha sofre pelo caráter episódico de Fala Sério, Mãe!, que é definitivamente o ponto mais fraco da produção. Se isso funciona enquanto acompanhamos o crescimento de Malu, já que o objetivo é obviamente de chegarmos logo a sua adolescência, o recurso mostra-se mais problemático quando se recusa a ir embora. Nesse sentido, ainda que seja emocionante ver que Malu torna-se uma jovem dedicada, esforçada e trabalhadora graças à influência da mãe, é impossível deixar de reparar no fato de que, até então, não tínhamos a mínima ideia de que Ângela possuia uma carreira “no jornal”. Ela voltou a trabalhar depois que os filhos cresceram? Ou sempre trabalhou? O fato de a família ser claramente abastada também suaviza muitos dos conflitos, mas os cineastas não parecem perceber isso.

O esquematismo da obra é, provavelmente, advindo da vontade de diretor e roteiristas de cobrirem todos os acontecimentos do livro, algo que parece afetar diversas produções. É uma pena, já que Fala Sério, Mãe! possui personalidade e carisma, sendo perfeitamente capaz de sustentar-se por si só. Ainda assim, o resultado final é uma produção cativante e divertida ¿ e, mesmo que a espectadora e sua mãe ou filha sejam totalmente diferentes de Ângela e Malu, qualquer mulher vai conseguir se identificar com algumas das situações e sentimentos retratados aqui.


“Fala Sério, Mãe!” (Brasil, 2017), escrito por Ingrid Guimarães e Paulo Cursino a partir do livro de Thalita Rebouças, dirigido por Pedro Vasconcelos, com Ingrid Guimarães, Larissa Manoela, Marcelo Laham e João Guilherme Ávila.


Trailer – Fala Sério, Mãe!

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